djambi

Primeiro que tudo peço desculpa pelo enorme atraso neste sétimo e último episódio. Desde que cheguei de São Tomé, com o regresso ao trabalho, algumas outras coisas para fazer e, também, admito, alguma procrastinação fizeram com que fosse adiando esta parte.
Antes de passar à parte com mais “sumo”, vou falar sobre o resto da minha epopeia de recuperação da nacionalidade santomense. Este episódio não terá uma linha de acontecimentos cronológica, pois prefiro fechar este capítulo, e, depois sim, passo à parte mais mística da coisa.

Quando cheguei ao Registo Civil, já a senhora que me tinha atendido antes tinha feito a transcrição da minha certidão de nascimento para os livros, e pediu a um rapaz que me pareceu ser um estagiário, que faz por lá recados, para me acompanhar ao outro lado do edifício, onde se tira o Bilhete de Identidade. A porta de alumínio, de correr, não estava em muito boas condições e ficou mal fechada quando entrei. Há outra porta ao lado, e um senhor que estava por detrás de uma espécie de púlpito/mesa alta de madeira disse-me que a usasse quando fosse sair. Quando mostrei os papéis que havia trazido do outro lado, informou-me que teria que depositar cento e oitenta mil dobras numa conta do BISTP ( Banco Internacional de São Tomé e Príncipe ). Em maio já tivera de o fazer para uma fase anterior do processo, e neste banco não houve a confusão pela qual passei no Banco Central. Nem me foi fornecido um número de conta, apenas que chegasse lá e dissesse o assunto, que eles no Banco já saberiam o número da conta. A chuva abrandou um pouco, e aproveitei para ir à agência da Praça da Independência. Penso que a Caixa Geral de Depósitos é acionista do BISTP, e nota-se na decoração desta agência, pois parece-se com as de Portugal continental. Tirei a senha, aguardei a minha vez e fiz o depósito. Voltei com o comprovativo, e desta vez entrei pela porta que não estava avariada. O empregado preencheu ele mesmo o impresso, e no cartão em si, na parte que diz “assinatura”, quando me preparava para assinar, disse-me para não o fazer, e escrever o nome completo. Mandou-me besuntar o dedo em tinta e marcar a minha impressão digital tanto no cartão como no impresso, pediu-me duas fotografias, e instruiu-me a passar lá na sexta-feira de manhã para levantar o cartão. Aqui, como já havia dito, salto por cima dos importantes acontecimentos que se seguiram nesta quarta-feira. Ao chegar lá na sexta de manhã, uma senhora mal me viu entrar, perguntou-se se já trazia fotografias novas. Fiquei confuso. Quais fotografias novas? Quando de lá saí dois dias antes, só me tinham dito para ir lá levantar o cartão hoje. Afinal, nas minhas fotografias vêem-se os brincos nas orelhas, e não pode ser. Já havia falado sobre a importância da formalidade na sociedade santomense, e com estas coisas não se brinca. Lá me indicaram onde podia ir tirar fotografias tipo passe, e saí a toda a velocidade. Fui a uma loja de fotografia, que me surpreendeu pela variedade e qualidade do material que tem para venda, e por quarenta mil dobras, em cinco minutos, ficava com oito fotografias tipo passe. Além de loja de fotografia, fazem lá outros serviços, tais como instalação de programas em computadores, limpeza de vírus e afins. Deviam era ter um pouco mais cuidado, e não ter um portátil aberto virado para os clientes que estão no balcão, com uma data de ficheiros a sacar da internet, com títulos sugestivos acabados em XXX. Passando à frente, voltei ao Registo, entreguei as fotos, e menos de quinze minutos depois, já saí portador de um Bilhete de Identidade da República Democrática de São Tomé e Príncipe. Agora só me restava fazer algumas compras, fruta, doces, e outros produtos de São Tomé para levar para Portugal, não havendo muito mais a dizer sobre o resto da estadia, a não ser uma directa na Happy Hour do Pirata, onde graças a alguns Rum Cola com mais rum do que cola, até me abanei ao som da “Anna Julia” dos Los Hermanos, mas em versão kizomba. Não há provas deste acontecimento, e é melhor que assim seja. Depois foi aeroporto, check-in, seca, embarque, viagem, aterragem manhosa em Lisboa, e finito.

Voltamos à quarta-feira. Quando saí do Registo Civil, voltei a casa, e mandei mensagem a uma amiga minha a dizer que já estava livre das tarefas que tinha, para saber como estava ela de trabalho para combinarmos algo. A mensagem que recebi de volta, até me trouxe um brilhozinho aos olhos. Numa das minhas viagens passadas, escrevi sobre o mundo místico e espiritual e a sua importância para o santomense. O Djambi, como aqui se chama, é uma espécie daquilo que conhecem como “voodoo”. Há por toda a ilha muitos curandeiros, que na realidade se podem chamar mais é de feiticeiros. Já tinha ouvido falar muito sobre rituais de feitiçaria por aqui, mas nunca tinha tido qualquer oportunidade de assistir. Era, sem dúvida, algo muito importante para toda esta pesquisa que faço relativamente à vivência destas ilhas, e uma oportunidade de preencher esta lacuna, era algo que não poderia recusar. A minha amiga disse-me que tinha ido visitar um feiticeiro com outra amiga, e que ia ser feito um ritual. Quando lhe disse o quanto queria testemunhar algo do género, passou-me a localização, e que por umas vinte mil dobras qualquer motoqueiro me levaria lá. Peguei na máquina fotográfica, saí ansioso, e logo em frente ao Parque Popular estava um grupo de motoqueiros. Tantas vezes em São Tomé e nunca tinha andado de motoqueiro, e desta vez, em poucos dias, tanto no Príncipe como na cidade capital, ia repetir a experiência.

Aqui, abro um parentesis, pois é necessário fazer um enquadramento. Normalmente, aqui, aquilo a que se chama de Djambi, é um ritual mais complexo do que aquele a que iria assistir. No Djambi, há mais gente, há tambores, há danças. Aqui, seria apenas um curandeiro a executar um ritual mais simples. Não deixa de ser Djambi naquilo que é o seu conceito e o seu propósito. Já devem ter visto em filmes, lido em livros, coisas sobre “voodoo”. Normalmente ligado ao Haiti, ou ao sul dos Estados Unidos, principalmente à cidade de New Orleans, estas manifestações de espiritualidade estão ligadas ao comércio de escravos, e foi dessa forma que chegaram à América Central e América do Norte. As suas origens são africanas, e presumo por coisas que já li, que tinham muita força nas tribos da foz do Rio Zaire e mesmo em todo o Golfo da Guiné. O voodoo haitiano está muito ligado aos mortos-vivos, que depois são usados pelo feiticeiro como escravos para cumprirem missões que este lhes confia. Esta face do voodoo está muito ligada em trabalhos com objectivos maldosos. Em relação à versão santomense, o Djambi, o mesmo pode ser usado tanto para o bem como para o mal. No seu âmago, acaba por funcionar praticamente da mesma maneira. O uso dos mortos, neste caso os seus espíritos, para efectuarem tarefas pedidas pelos feiticeiros.
Tenho então que referir a teoria da reencarnação, pois tem um papel fulcral na forma como tudo funciona. Para quem acredita, e vamos então presumir que todos acreditamos piamente, para que o discurso flua de forma mais fluída, a vida terrestre serve apenas para as almas evoluírem, sendo que cada alma vai passando por diferentes estados espirituais. De cada vez que uma alma reencarna, o tempo que passa na vida terrena é como que uma aprendizagem, mais um estágio de evolução. Há almas mais fortes e evoluídas, e há almas frágeis, fracas. Essas almas mais frágeis, são mais vulneráveis aos vícios e a ficarem presas à vida terrena. É nisso que os curandeiros conseguem ter poder sobre elas. Almas que estragaram as suas vidas no jogo, nos vícios, alcoolismo, ganância, gula, luxúria. Quando morrem, como continuam presas aos vícios terrenos, não evoluem, não reencarnam, ficam agarradas à vida, mesmo não estando vivas. Não é bem como um limbo ou purgatório, porque não é um lugar intermédio entre o mundo dos vivos e dos mortos, são mesmo almas errantes que continuam no mundo dos vivos. Supostamente, têm poder de interferir com os vivos, embora não seja esse o seu propósito, estão cá porque não se conseguem libertar dos seus vícios. Nos rituais, os curandeiros atraem-nas com as coisas terrenas que esses espíritos almejam, daí os altares com oferendas, comida, vinho, tabaco. Apesar de desejarem essas coisas, não as podem ter, não têm forma humana, já não são de carne e osso. Mas não sabem isso. E os curandeiros usam isso em seu favor, prometem-lhes essas coisas em troca de missões que os espíritos têm que executar. Essas missões, tanto podem ser a proteger pessoas de outros espíritos, como fazer mal. Mesmo entre essas almas mais frágeis, há algumas mais e menos poderosas, e ao que parece, o poder dos feiticeiros também está na sua capacidade de conseguirem obter os préstimos dos espíritos mais fortes e capazes de entre as almas errantes. Podendo ser usado tanto para o bem, como para o mal, é também considerado que é sempre perigoso, pois da mesma forma que o curandeiro ilude o espírito para trabalhar para si, a alma pode a qualquer momento perceber que está a ser iludida, e ao ficar irada, procura a vingança. A sua fúria pode abater-se sobre a pessoa sobre a qual foi feito o feitiço de protecção, que deveria defender, como pode até nem atacar essa pessoa, simplesmente abandonar a missão, e voltar a sua raiva para com o feiticeiro, que afinal foi quem o usou. Nunca a expressão “virou-se o feitiço contra o feiticeiro” fez tanto sentido. Muitas vezes após um ritual, os curandeiros têm que pontualmente fazer reforços e continuar os trabalhos de protecção, para que a ilusão se mantenha e os espíritos continuem focados nas missões que lhes são dadas.

Ao chegar à localização que havia sido dada, lá estavam elas junto à estrada à minha espera. Tinham ido comprar mais coisas que o curandeiro havia pedido. Arroz, fuba, vinho, fruta, peixe, petróleo, velas, incenso. Saímos da estrada principal e entramos na mata. Pouco depois chegamos a um terreno vedado com canas e plantas, e ao entrar, num pequeno terreiro, pude ver logo alguns símbolos místicos, uma pequena mesa que servia de altar, e algo parecido a uma sepultura singela com uma cruz. Soube depois que eram mesmo uma sepultura. Perto do altar, uma pequena casa com símbolos, que era uma espécie de capela. Mais abaixo, um pequeno telheiro a que podemos chamar de sala de espera. No cimo do terreno, uma pequena moradia. Na sala de espera, duas mulheres aguardavam. Entretanto, o Pedro Miguel, o curandeiro, ia preparando a mesa, com rezas, palavras soltas, algumas em português, outras num dialecto que eu não entendia. Às vezes metia petróleo na boca e cuspia sobre as coisas. Chamou uma das minhas amigas, levou-a para a pequena capela, cheia de livros, ícones, cruzes, palavras escritas, velas queimadas, colocou-lhe um véu por cima, e começou a recitar orações. A pedir a santos e entidades que lhe prestassem auxílio e que intercedessem por aquela pessoa. Pouco depois, disse-nos que alguém vinha do hospital. Segundos depois chega um motoqueiro com um rapaz muito debilitado, ainda com um penso onde teria estado a receber soro. O Pedro perguntou-lhe se vinha do hospital, ao que o rapaz respondeu que sim. Não sei dizer se estava combinado ou não, o que é facto é que ele sabia o exacto momento em que ia chegar alguém. Também não sei qual o propósito em que ele ia combinar algo assim só para três brancos que nem ligam muito a estas coisas verem. Pode apenas ter sido coincidência. Segundo as senhoras que lá estavam nos contaram, já o pai do Pedro era curandeiro, e ele, desde pequeno que tinha o dom, e então, tinha ido alguns anos para o Brasil, onde aprendeu mais e desenvolveu os seus dons. O rapaz que chegou do hospital estava em muito mau estado, muito magro e debilitado, tinha mesmo cara de doença. Movimentava-se com dificuldade, tossia, e diria eu que no estado em que estava, devia estar numa cama de hospital e não ali. O Pedro levou-o para a capela, recitou orações, cuspiu-lhe petróleo em cima, a certo ponto, acendeu uma tocha, e cuspiu-lhe mesmo fogo em cima. Esfregou-lhe o tronco com petróleo, e enquanto o fazia, meteu num prato, dois parafusos, depois uma espécie de âmpolas, e finalmente umas ervas, que pareciam umas espécie de caldo-verde meio digerido. Eu não vi o rapaz a vomitar aquilo, ou aquilo a ser-lhe retirado da boca, mas também não vi de onde o Pedro tirou as coisas. O Pedro disse que as tirou do e pelo tronco do rapaz, mas também não vi isso. Tenho que referir desde já, que nada do que vi durante todo o tempo que estive naquele sítio, teve fosse o que fosse de sobrenatural. A indução psicológica tem muita força nestas coisas, e não é por acaso que eles dizem que os feitiços não funcionam com quem não acredita. No final o rapaz foi embora, ele pediu ao motoqueiro que quando voltasse lhe trouxesse algumas coisas, vinho branco, mais petróleo, e entretanto o motoqueiro seguiu viagem com o rapaz. Assim que saíram o Pedro virou-se para nós e disse que ele ia morrer, que tinha um feitiço de mal muito poderoso, feito por um curandeiro com muito poder, e que para o conseguir ajudar teria que ter a ajuda de outros curandeiros.
Depois chamou a outra das minhas amigas, tapou-a com o véu, colocou-lhe umas palhas por cima, e por fim um ovo sobre a cabeça. Começou com as orações, e a certo ponto começou a falar em dialecto. Meteu-a à porta da capela, virada para fora, e cuspiu-lhe fogo por cima, pegou no ovo e atirou-o para a entrada do terreiro onde se partiu todo e a clara e a gema ficaram espalhadas. Os trabalhos estavam feitos. Disse que teria que fazer umas orações passados uns dias, que o trabalho não estava completo, mas que elas não precisavam voltar, que seria ele sozinho a fazer. Voltamos à cidade.

Volto a referir, não vi nada de inexplicável, não senti presenças nenhumas, mas respeitei sempre tanto o curandeiro, o Pedro, como aquilo que ele lá fez. Não sou eu que vou julgá-lo ou acusá-lo de ser uma fraude, tal como não vou dizer que acredito naquilo que faz. Se as pessoas o procuram, tal como procuram outros, é porque acreditam que aquilo as pode ajudar. Para mim foi uma experiência importante no lado da pesquisa que faço, mas ainda hei-de procurar assistir a um Djambi, daquele que em São Tomé chamam mesmo de verdadeiro, à noite, com tambores e danças e fogo e todo o aparato que lhe dão a reputação que tem. Para já, foi interessante, mas apenas isso.