principe72

Para o último dia no Príncipe, havia pensado fazer o trajeto a pé até Ponta Mina, para fotografar os canhões portugueses que lá se encontram. Voltei a levantar-me cedo, e adiantei logo a arrumação do saco de viagem. Vesti-me e fui tomar o pequeno almoço ao Mira Rio mais uma vez. O Mira Rio é uma pensão/supermercado/café/restaurante. O supermercado e a recepção ficam no rés-do-chão, no primeiro andar tem os quartos, e numa varanda coberta o bar/restaurante. Não tem janelas, o espaço é mesmo aberto. Das mesas pode observar-se o rio Papagaio e ao fundo a baía. Bastou um breve olhar para ver uma mancha de negro que vinha do mar em direção a terra. Depois de comer, saí e voltei à Santa Casa da Misericórdia, e enquanto caminhava, a mancha negra já tapava toda a baía e começava a entrar na cidade. Nunca tinha visto nada assim, a baixa altitude, uma nuvem gigantesca, carregada, de um cinzento escuro, negro como bréu. Não chovia ainda, mas em pouco minutos cobria todo o vale de Santo António. Parecia quase noite, pouca era a luz do sol que passava. A Dona Iáia, responsável pela Santa Casa da Misericórdia, dizia que o melhor que poderia acontecer, seria se chovesse, pois em caso contrário, os voos do dia seriam cancelados, mas a haver chuva, depois o céu ficaria limpo. Nem dois minutos depois, abateu-se sobre a ilha a maior tempestade que alguma vez testemunhei. Ao mesmo tempo que caía, com um som ensurdecedor, uma massa de água considerável, levantou-se um vento impressionante, e de um lado do rio Papagaio não se via o outro, apenas uma neblina cinzenta. Já tinha assistido a uma tempestade tropical em São Tomé, em que o vento vergava palmeiras e coqueiros, mas como esta, nada. Ao mesmo tempo que chovia torrencialmente, do telhado dos edifícios caiam autênticas cascatas de água. Pude observar que o sistema de escoamento das águas junto ao rio é bastante eficiente, e a quantidade de água que se acumulava na estrada era menor do que seria de esperar. Os meus planos mais uma vez haviam sido frustrados. Com um pé de água destes, o caminho de terra batida para Ponta Mina deveria ser um mar de lama. A sala do edifício é aberta, não tem portas, apenas uma pequena parede ao meio com dois espaços de cada lado que dão para a frente, e na parte de trás um pequeno jardim. Lá dentro, alguns utentes ouviam a Rádio Regional do Príncipe, outros jogavam às cartas. Um senhor de cinquenta e tal anos que ia a passar de mota quando começou a chover, abrigou-se no edifício, e sendo esta cidade tão pequena, lembrava-me de o ter visto passar várias vezes pelas ruas da cidade na sua mota Sukida, a marca de motorizadas de Taiwan que quase toda a gente usa em São Tomé e Príncipe. Havia reparado que este senhor tinha um ar diferente, assim meio motoqueiro, careca de com uma pêra branca no queixo. Quando decidi meter conversa e lhe ia dirigir a palavra, perguntou-me se era português.

Chama-se Nicolau Lavres, viveu vinte anos em Aveiro, em Portugal, até que há cerca de cinco decidiu regressar à ilha. Disse que é animador cultural, e está a escrever um livro com a mulher, uma espécie de pontuário/dicionário/gramática sobre o linguí, o crioulo do Príncipe. Começamos por falar sobre Ponta Mina. Em novembro pediu um subsídio ao governo regional, fez uns lanches, arranjou alguns voluntários, e fizeram uma limpeza ao forte que está em ruínas. Confirmou-me que os canhões estão lá, amontoados. Diz que são pesados, são maciços. Por esta altura a chuva começou a abrandar, mas desaconselhou-me a lá ir, pois o caminho seria, como eu já tinha suspeitado, um mar de lama. Disse que se estivesse bom tempo, iria lá comigo, tal como me levaria a outros pontos de interesse na ilha. Falamos sobre quase tudo, desde a presença portuguesa até à história e ao misticismo locais. No meio de tudo, aprendi algumas coisas, mas em relação a outras acabei por ficar um pouco confuso, e por conhecer algumas das lendas de São Tomé, percebi que o senhor Lavres estava a confundir alguns mitos. Refutou a minha versão da história da Maria Correia. Segundo ele dizia, ela não era filha de nenhum Rei, mas sim uma nativa. Quando descreveu que ela desaparecia e viajava para a metrópole ( Lisboa ) num cavalo branco na praia de Izé, através de artes mágicas, pois era Maçónica, como ele dizia, reparei que estava a contar a história de João Maria de Sousa e Almeida, 1º barão de Água Izé. No entanto, acabei por pesquisar, e há de facto fontes que apontam a Maria Correia como nativa do Príncipe, filha de um imigrante brasileiro e com ligação ao Barão de Água-Izé, através do seu marido, que era padrinho de João Maria. De facto, houve uma época, por volta do Séc. XVIII, entre o fracasso da plantação da cana do açúcar e a importação do cacau e do café do Brasil para as ilhas, em que a presença portuguesa foi menos intensa, e algumas Roças e Companhias foram geridas por nativos, como o caso da Roça Água-Izé pelo Barão, que era mulato e filho bastardo do anterior dono da Roça. A minha versão é desmentida também pelas supostas datas em que viveram estes protagonistas, pois D. Luís só nasce em 1838, enquanto que é atribuída a data de 1788 para o nascimento de Maria Correia. Apesar da fama de mulherengo de D. Luís, não consta que tenha tido alguma filha ilegítima, embora haja quem defenda, que por ter sido a vários níveis um embaraço para a coroa, e também ilegítima, a sua existência tenha sido omitida da história de Portugal. A introdução do cacau no Príncipe é atribuída a José Ferreira Gomes, proprietário de navios negreiros e marido de Maria Correia Salema, em 1822. Há artigos, que o referem como nascido no Brasil e não o pai de Maria Correia. As evidências apontam todas para a improbabilidade da versão de D. Luís, embora o período áureo do comercio do cacau se dê já sobre o seu reinado. Maria Correia Salema morre em 1861. O que é no entanto de realçar, é que o folclore e os mitos urbanos permitiram que a lenda e a história seguissem caminhos diferentes, e nas coisas destas ilhas, os mistérios revestem-se de uma importância capital, até mesmo aos dias de hoje. Seja como for, estes meus relatos não se propõem a ser nenhuma tese de mestrado, pelo que assim, ficam a conhecer duas versões distintas de lendas que sempre se contaram nas ilhas.

Tudo isto leva-me a outro ponto, este sim mais oculto, e que ainda durante o dia em que escrevo estas palavras, ouvi relatos e testemunhos contraditórios com o que o Nicolau Laves me relatou. O povo africano, sempre foi muito dado ao mundo mágico, espiritual e oculto, e o grande comércio de escravos, durante os séculos em que se globalizou, levou a várias partes do mundo essa magia cobre várias formas. O mais conhecido pelo senso comum, é o voodoo, que tem como base o Haiti, embora presente com outros nomes por todas as Caraíbas e forte presença no sul dos Estados Unidos, com relevância para New Orleans, no Mississipi. Os feiticeiros e curandeiros africanos sempre fizeram também parte de lendas e contos. A versão santomense, provavelmente originária da Nigéria, chama-se Djambi, e segundo me contaram, há o bom, e o mau, que é chamado de Fumo. Em São Tomé, há um respeito muito grande pelo Djambi do Príncipe, que é considerado muito poderoso. De facto, muitos santomenses confirmam esse facto. Aproveitei a conversa com o senhor Lavres para saber um pouco mais sobre o assunto, e o que ele me disse, é que isso são coisas de São Tomé. Disse-me que no Príncipe não existe Djambi, e que o poder do Príncipe, vem todo do seu santo protetor, o milagreiro Santo António. Além de dar nome à capital da ilha, dá nome à igreja, e tem vários santuários e altares espalhados pela ilha. O cacau foi introduzido apenas no Príncipe, e só numa segunda fase em São Tomé, e a determinada altura, mesmo sendo uma ilha pequena e com uma quantidade muito menor de Roças e Companhias, esta ilha teve um sucesso económico e de influência tão esplendoroso que a cidade de Santo António chegou a ser a capital do arquipélago. Há uma versão, que não me atrevo a chamar de história, pois parece que a tradição oral trata de traçar caminhos diversos para os mesmos intervenientes, que diz que tal facto causou inveja em São Tomé, e que a determinada altura a figura do Santo António foi retirada do Príncipe e levada para a ilha maior. Tal levou a alguns acontecimentos inóspitos e mau agoiro, e sem ninguém conseguir explicar, a imagem apareceu, sozinha, numa praia da ilha do Príncipe. Há também a lenda do Bala de Pedra, um cognome atribuído a Santo António, num episódio em que a ilha se viu atacada por corsários franceses e dos Países Baixos. A baía de Santo António era protegida por dois fortes, de quem entra pelo mar, do lado esquerdo, Santa Mina, e do lado direito o forte de Santana. Um dos factores que levou a que Portugal, com uma população a rondar um milhão de habitantes, se tenha tornado a potencia colonial que foi, esteve no avanço tecnológico sobre as outras nações. Se não demorou muito a que a armada espanhola desenvolvesse navios tão rápidos como os portugueses, os nossos canhões estiveram por vários séculos muito à frente de todos os outros. Esqueçam tudo o que já viram nos filmes de piratas. Os canhões dos navios ficavam inutilizados com um disparo. Os canhões portugueses não. Mesmo quando a frota portuguesa foi inserida na armada espanhola na guerra com Inglaterra, esse segredo manteve-se connosco. Por temerem a artilharia portuguesa, os corsários dos Países Baixos e de França uniram-se para um ataque em conjunto, bloqueando os dois fortes, enquanto era feito um bombardeamento central à cidade de Santo António. Diz a lenda que das águas, surgiu reluzente o Bala de Pedra, ( nome relativo às balas dos canhões ), e nenhuma bala de canhão passava a sua imagem, caindo todas a seus pés, afundando-se em seguida nas águas da baía. Segundo o Nicolau lavres, é na proteção de Santo António à ilha do Príncipe que surge o grande respeito a nível espiritual e místico em relação à ilha. Em São Tomé, várias pessoas, não só locais como portugueses, me testemunharam já terem assistido a rituais na ilha do Príncipe. E acaba por fazer algum sentido, pois como me foi dito, onde há curandeiros, há Djambi. E no Príncipe há curandeiros. Foi-me dito que pelo menos em Porto Real e em São Joaquim os há. Não deixa no entanto de ser importante referir toda esta riqueza do folclore místico das ilhas, de como o fantástico remete os locais para o respeito e devoção perante o oculto. O santomense teme o Fumo, e é tremendamente crente perante o Djambi.

Parou de chover, e soube logo depois que o voo da manhã tinha sido atrasado e seria feito ao meio dia. O seu horário deveria ser às nove e trinta da manhã. Almocei de novo no Beira Mar, com o Celestino, e desloquei-me depois à loja, para saber junto do rapaz a que horas me podiam levar ao aeroporto, como tinha ficado combinado no dia anterior. A loja estava fechada, por ser hora de almoço. Na praça central, frente ao edifício da Assembleia regional, vi um senhor que sabia trabalhar no aeroporto, e meti conversa. Toda a gente é muito prestável e simpática no Príncipe, e estivemos um pouco à conversa. Estava de folga, mas confirmou o atraso no voo, pois com o temporal da manhã não havia condições para o mesmo se realizar. Entretanto viu um rapaz de mota conhecido a passar, chamou-o, e disse que ele me ia levar ao aeroporto. Foi a primeira vez que andei de motoqueiro em São Tomé e Príncipe, e mesmo carregado com a mochila da máquina fotográfica e o saco de viagem, o caminho fez-se sem a mínima perturbação. Cheguei ao aeroporto por volta das treze e trinta, e só nesse momento estava a descolar o voo da manhã. O que é certo é que não houve mais atrasos, e o voo da tarde saiu mesmo dez minutos antes da hora. No aeroporto de São Tomé, estava a rapariga portuguesa que tinha viajado comigo para o Príncipe e havia encontrado no resort Bom Bom. Ia apanhar o voo para Luanda, e foi inevitável falarmos sobre a tempestade da manhã e o atraso no voo dela. Houve temporal também em São Tomé, e o avião fez quatro aproximações à pista até conseguir aterrar. Não foi nada fácil e não ganhou para o susto. Pouco depois já estava a caminho de casa, e sendo que faço os possíveis por não meter muita palha, em todo fim de semana não houve nada que faça grande sentido referir, por isso, voltará a haver episódio quando houver justificação para tal.