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Começo este texto com um pedido de desculpas aos galos da cidade de São Tomé. Os galos da cidade de Santo António do Príncipe são mais esquizofrénicos, e levam a noite toda a festejar. Não sei dizer bem qual a média aritmética de manifestação galinácia nesta cidade, mas até ter conseguido adormecer, a sua intervenção sonora era contínua, quando acordei para ir à casa de banho, a meio da noite, em pleno corte energético que ocorre todos os dias entre a meia noite e as seis da manhã, os galos continuavam a cantar. Assim que o sol raiou e despertei, a cantoria continuava.

Levantei-me relativamente cedo, tomei um duche, e saí rumo ao Mira Rio para tomar o pequeno almoço. O Dimitri havia combinado comigo às sete da manhã para ir buscar o carro, e pouco passava ainda das seis e meia. Uma tosta mista, um copo de sumo atestado a partir de uma garrafa de Compal familiar, daquelas que só devem ser consumidas às refeições, e fui até à pequena loja onde devia ter a viatura para explorar a ilha. Ninguém por lá, porta fechada. Acho que foi logo mau augúrio. O rapaz da loja chegou por volta das sete e meia, e a primeira coisa que me disse, foi que o carro não tinha bateria. De qualquer forma, deu-me a chave e pediu-me para tentar. Supostamente na noite anterior, acendia as luzes do tablier e buzinava. Dei à chave e nem sinal. Estava mesmo descarregada. Já uma outra vez havia falado sobre o perigo de se fazer planos em São Tomé. Não se devem fazer. É ir andando leve-leve. Sempre que se organiza tudo muito ao pormenor, nunca nada corre como esperado. Na minha cabeça tinha tudo muito bem alinhavado. De manhã, partia rumo ao sul, Roça Abade, Miradouro, e quem sabe Terreiro Velho. Regresso à cidade e almoço, e da parte da tarde, norte. Belomonte, Bom Bom, Sundy, e, caso desse tempo, ainda pelo menos Porto Real. Ainda houve quem me aconselhasse a Roça Infante, mas há quem diga que já só tem ruínas devoradas pela selva. O que não deixa de ser um bom motivo fotográfico. Liguei ao Dimitri, que me disse estar em Bom Bom, e que assim que conseguisse, iria buscar uma outra bateria e depois seguiria para a cidade. Disse-me para ir para a Santa Casa da Misericórdia, e assim que tivesse a situação resolvida me ia lá entregar o carro. Onze da manhã, e nada. Liguei ao Dimitri. A bateria que arranjou não servia, era maior. Iria usá-la para carregar a da viatura e depois logo me dizia algo. Respirei fundo, engoli em seco, e pensei, o que tiver que ser, será. Resolvi ir almoçar ao restaurante Beira Mar, e quando cheguei, estava lá o Celestino. Como trabalha até às catorze, havíamos combinado que de manhã eu iria sozinho para o sul, e de tarde apanhava-o na cidade, e guiava-me pelo norte. Expliquei-lhe tudo o que se tinha passado, e ele começou logo a fazer conversa com os locais que estavam no restaurante. No Príncipe não existem serviços de aluguer de viaturas. O que acontece, é que os locais que têm carros, ou porque estão a trabalhar, ou porque não têm nada para fazer, alugam-nos e sempre têm um rendimento extra. Houve logo uma solução alternativa. Um senhor ofereceu-se para me levar pelo norte, Belomonte, Bom Bom e Sundy, por seiscentas mil dobras, ou como se diz em São Tomé e Príncipe, seiscentos contos. Entretanto eu aguardava por notícias do Dimitri. O senhor da opção B teve que ir fazer algo e disse que já voltava. Nesse preciso momento telefona-me o Dimitri a dizer que já tinha o carro e a perguntar-me onde estava. Situação resolvida e a promessa de desconto relativamente aos cinquenta euros combinados para o aluguer do dia todo. Apesar de no dia anterior ter visto o carro de relance no quintal onde estava estacionado e de pela manhã ter entrado nele para testar a bateria, nem tinha reparado bem que tipo de viatura seria. Quando o Dimitri chegou com o Toyota Avanza ao restaurante Beira Mar, pensei para mim, que se apanhasse estradas em mau estado, não seria a viatura indicada para esse tipo de aventuras. Não havia de ser nada. Deixou a viatura a trabalhar e aconselhou-me para durante a primeira hora de uso, de cada vez que parasse, para deixar sempre a mesma em funcionamento. Assim fiz. Rumei à Santa Casa da Misericórdia para ir ao quarto buscar a mochila da máquina fotográfica, e parti rumo ao sul.

Miradouro

A primeira parte da viagem já eu conhecia, de quando fui a pé à Praia Évora. A estrada principal até ao desvio para essa praia está em condições bastante boas, e logo a seguir, curva para a direita e sobe. Cerca de um ou dois kilómetros a seguir, acaba o pavimento, e começa a terra batida. Uma espécie de barro vermelho escuro, duro, cheio de fendas, rasgos e socalcos. Com um carro de cidade, com umas rodinhas pequeninas, comecei a pensar em que aventura me estava a meter. A minha ideia seria ir primeiro à Roça Abade. Pelo que sabia pelo mapa que tinha na cabeça, haveria de ter um desvio para a esquerda algures. Do aeroporto para a cidade todos os locais estava bem assinalados com placas, pelo que fui andando à espera de ver alguma que referisse Roça Abade, ou mesmo apenas Abade. A certo ponto a estrada começa a piorar. Os sulcos eram maiores, e tinha que andar de uma margem da estrada para a outra, em slalom para escolher as trajetórias menos más. A certo ponto, comecei a duvidar de onde estaria. O Príncipe é pequeno, e é difícil alguém se perder por aqui, caso me enganasse numa estrada, não seria grave, era fazer inversão de marcha e voltar pelo mesmo caminho. Neste ponto, já tinha percebido que havia falhado o desvio para a Roça Abade, e assim que vi uma pessoa junto à estrada, perguntei se o Miradouro era por ali. Afirmativo. Segui viagem. Numa pequena subida, ainda em pior estado do que qualquer parte do trajeto, cruzei-me com a primeira viatura desde que saí da cidade. O caminho menos mau era pelo lado esquerdo, pelo que tive que espera que o jipe descesse, para depois passar eu. No cimo da subida, do lado esquerdo, um espaço não muito grande, mas aberto o suficiente para estacionar alguns carros, e não muito difícil de perceber de que aquilo, era o Miradouro. Via-se o Ilhéu Boné de Jóquei dali. Fiz algumas fotografias, fiz inversão de marcha, e voltei para trás. Antes ainda olhei e pensei que mais para a frente, haveria uma clareira mais perto do Ilhéu, em que o pudesse fotografar mais imponente. Depois pensei que caso isso fosse verdade, me haviam informado. Talvez só da Roça Terreiro Velho, mas com o secretismo do Claudio Corallo relativamente à sua plantação de cacau, presumi que me fossem colocados obstáculos lá. Não tomei essa opção.

Roça Abade

Pouco depois de passar a placa da Roça Nova Estrela, há uma entrada para sul, e pensei ser essa a estrada para a Roça Abade. O meu instinto não me deixou descansado, e após umas crianças me encolherem os ombros, encontrei um adulto, que me disse que ali era Nova Estrela. Para a Roça Abade, teria que voltar para trás, e o caminho para Abade estaria assinalado por uma placa, onde tinha uma estrada para a direita ( na direção em que devia seguir, como se voltasse para a cidade ). O que é facto, é que não havia placa nenhuma. Nem numa nem no outro sentido. Sei porque verifiquei. Estava um camião com uns rapazes a carregar uns sacos, e disseram-me que sim, era por ali o caminho. Estava em bom ritmo, e deveria conseguir ir à Roça Abade, voltar à cidade, e ver o norte da ilha ainda. A Ilha do Príncipe é como um bolo. Um grande planalto, em que junto ao mar, é alto, íngreme. Por dentro tem vales esculpidos, e alguns picos e formações vulcânicas. Junto à costa, descidas a pique leva-nos até junto do mar. O caminho para a Roça Abade é assim, a descer, com uma inclinação razoável, curva e contracurva, e a estrada cada vez pior. Coitado do Toyota Avanza. Aqui e ali uma mota passava por mim. E eu continuava a descer. E o mar que nunca mais aparecia. O caminho, pontualmente era cortado por uma vala, com umas barras de ferro para que as viaturas pudessem passar. Algumas dessas valas não estão em bom estado, e o terreno antes e depois das mesmas, em certos pontos, esta mesmo muto mau. Algumas tinha mesmo que parar, meter primeira, e passar devagar. E continuava a descer. Deve ser depois da próxima curva, pensava eu. Mas a estrada continuava. Quando já começava seriamente a pensar fazer inversão de marcha, chego junto ao mar, e a estrada começa a seguir a costa. Uma pequena ponte sobre um riacho, mais curva menos curva, e chego à comunidade de Praia Abade. Já começava algo a bater certo. A estrada aqui começa a entrar para o coração da ilha de novo, e a subir. O estado, que já era mau, começa a piorar. Mais curva menos curva, vira de novo para o lado do mar, até que, quando eu pensava que não estava a ir a lado nenhum, chega a uma ruína. Para cima, acaba a estrada, e para a direita, segue um caminho, coberto de ervas entre cinquenta centímetros e um metro de altura e dois sulcos à medias das rodas das viaturas. Pensei que não seria por ali. A muito custo faço inversão de marcha, e começo a descer. Aparece um pastor com umas cabras, e pergunto-lhe onde estava. Roça Abade. E diz-me ele que no final da estrada há um hotel. Final da estrada? Pensava eu que o final da estrada era onde fiz a inversão de marcha. Não. Afinal era para seguir pelo capim. O caminho contorna um edifício em ruínas, faz uma curva de noventa graus junto a uma das esquina, e sobe em direção a um pequeno terreiro, e do lado esquerdo aparece uma casa colonial. Estava na Roça Abade. Só lá se encontravam uns clientes, e os empregados da roça. Tirei umas fotos, e pelo caminho longo, mais longo ainda pelo estado da estrada, regressei. Liguei ao Celestino, que me disse que conseguia sair mais cedo do trabalho, e assim quem eu chegasse à cidade, já estaria pronto para seguir comigo para norte. O regresso não foi tão duro. A dificuldade na condução era a mesma, algum cuidado a descer, o carro escorregava com as pedras, muito cuidado a usar os travões, a prudência dizia que o mais certo era meter primeira e deixar o motor do carro travar. Depois da Praia Abade, seria subir, subir e subir, até chegar ao topo do bolo. Aos poucos, com a prática de escolher os sulcos menos profundos para as rodas do bolinhas, já fazia o percurso com mais mestria, e quando cheguei ao topo, senti aquele orgulho de trabalho bem feito, e segui rumo à cidade com as janelas bem abertas e o vento no rosto.

Belomonte

Parei no Mira Rio, e pouco depois chegava o Celestino. Saímos da cidade pela estrada que segue para o aeroporto. Ficando Santo António do Príncipe num vale, o caminho para o aeroporto é feito a subir, estrada de montanha, curva e contracurva. Algumas das viragens são autênticos cotovelos, e há que ter cuidado com os veículos em sentido contrário, que aproveitam para cortar nas curvas. Quando cheguei à ilha, no caminho para a cidade, reparei que os locais estavam todos bem sinalizados, mas reparei que, por exemplo, o sentido Roça Paciência e Belomonte, só é visível a caminho da cidade, no sentido contrário não são visíveis as indicações. Uma certa parte do percurso é plana, estamos na cobertura do bolo, mas a determinado momento, quando já estamos perto do mar, o terreno torna-se mais acidentado. Pouco depois acaba o alcatrão e começa a terra batida. Desce-se e sobe-se. Curva e contra curva. Logo ao início passamos umas ruínas que presumi serem relativas à Roça Paciência, e mais à frente, uma laca que diz já estarmos em terras de Belo Monte. Tal como na ilha de São Tomé, com a diferença do tipo de árvores que encontramos aqui, a paisagem nesta arte chega a lembrar a serra de Sintra, para quem conhece. Passamos uma árvore Ocá com um diâmetro impressionante, que nos leva a pensar sobre os milhares de anos há que as suas raízes rasgam o chão. Imaginei também o século XIX, em que estes caminhos se faziam a cavalo, e se usavam carroças para transportas mercadorias. Na parte final do caminho, começamos a subir de novo, até que voltamos à parte de cima do bolo, mas desta vez num dos seus extremos. Nordeste. A roça Belomonte fica num plano alto, um terreiro plano, e transparece logo à chegada como a Roça mais bem cuidada que já vi nas ilhas de São Tomé. Esta roça é hoje um hotel de luxo, e é evidente todo o cuidado com os detalhes presente deste a entrada no espaço. Após a nossa chegada, são-nos dadas as boas vindas por algum do staff e um dos responsáveis, e sou informado que só não é possível mostrarem-nos os quartos porque o hotel se encontra cheio. Mas a casa grande está aberta e é-me dada toda a liberdade para circular pelo espaço. O bom gosto e o requinte abundam nesta unidade hoteleira, a parte de trás do restaurante, dá para um pequeno patamar que serve de miradouro, e de onde se pode ver o mar e mesmo o ilhéu Bom Bom. A casa grande, que serviu de residência à Maria Correia, de que voltarei a falar no próximo episódio, pois na ilha do Príncipe ouvi versões alternativas à sua história. Mantenho a versão que contei num dos episódios anteriores, e na altura certa explicarei o porquê.
O mobiliário, os materiais, os acabamentos, o requinte, estão num nível impressionante em todo o edifício. No terreiro da roça, as árvores, o jardim, todas as plantas, a relva, tudo certinho e apurado ao ínfimo detalhe. Saímos rumo à famosa Praia Banana, que de caminho, tem o não menos famoso precipício. A roça Belomonte, como havia referido, encontra-me num plano elevado, embora já bastante perto do mar. Para a praia, começa-se a descer, de forma íngreme. Quando a estrada passa de novo junto à Roça, podemos observar que a mesma está em expansão. Há uma aposta no turismo na Ilha do Príncipe, a modernização estradas, o aumento da pista do aeroporto, e os recentes planos para mais unidades hoteleiras são prova da aposta nesta atividade. Pouco depois, mais perto do mar, surge um pequeno espaço, com um muro e alguns bancos. É o precipício. Literalmente. Com uma altura considerável, a terra parece ter sido cortada abruptamente, e a rocha negra irrompe , perpendicular ao solo, rumo à floresta que está lá em baixo, ao nível do mar. O nosso olhar é no entanto impelido na direção da Praia Banana. Do lado esquerdo, uma camada de verde intenso, seguida de uma camada de areia dourada e brilhante, à qual se segue uma camada de azul turquesa, claro e transparente e de seguida outros tons de azul, do mar mais fundo, do negro das rochas que se encontram no fundo e depois o azul profundo rumo ao mar alto. Mais à esquerda observa-se ao longe o ilhéu Bom Bom. A descida para a Praia Banana continua íngreme. Deve ser feita com cuidado, pois a estrada de terra batida está coberta de pequenas pedras, que fazem as viaturas deslizar por cima ao mais pequeno toque no travão, curva e contra curva cortadas na encosta profunda. A descida termina num pequeno espaço, em que a terra dá lugar a areia, coqueiros e palmeiras enormes e esbeltos, elegantes, que tapam a luz do sol, criando um ambiente de sombra cortado pelo som das ondas. Aqui tem um pequeno posto ocupado por guardas do Hotel Belomonte, e após estacionarmos a viatura e seguirmos a pé, um pequeno bar e mesas, onde são servidas refeições. Encontrei aqui um casal que fez a viagem de avião comigo. A senhora, inglesa, reconheceu-me e veio falar comigo, testemunhando o quanto estava impressionada com a beleza da ilha, e com o surpreendente tratamento que estava a receber naquele local. Sem o terem solicitado, apenas informado na recepção que iriam dar um passeio a pé até à praia, foram surpreendidos pouco tempo depois pelo staff do hotel com a refeição servida ali mesmo, nas mesas perto do mar. Um jantar ao sol posto na Praia Banana, deve ser um daqueles pequenos prazeres indescritíveis e inesquecíveis. De repente, saímos da sombra e da proteção de palmeira, coqueiros e carroceiros, e surge a areia dourada e clara, a descer, e logo, poucos metros à frente, o mar. Aquele azul turquesa que só vemos nos postais ou em fotografias de revistas é impressionante, e leva-me a questionar se estou num lugar real. A água é morna, como é apanágio do mar nesta parte do mundo, e só apetece ficar aqui para sempre. Mas ainda há mais para ver, e após uma breve passagem pela água, regressamos ao carro e seguimos viagem.

Bom Bom

Após a estrada de montanha que nos leva do alto de Belomonte, por vales e subidas, até ao alto do centro da ilha, e após voltarmos ao pavimento alcatroado, chegamos ao aeroporto do Príncipe. A estrada alcatroada acaba aqui, e voltamos à terra batida, árida e vermelha, com alguma brita. Começamos de novo a descer, curva e contracurva, rumo ao litoral. Pouco depois mais um Ocá gigantesco, e depois obras na estrada. A mesma vai ser pavimentada, e passamos por alguns grupos de trabalhadores e máquinas em plena atividade. A certo momento cruzamo-nos com uma máquina enorme, e temos que esperar que a mesma saía para a berma, para podermos depois seguir viagem. Entretanto chegamos à entrada do Resort Bom Bom. Os seguranças mandam-nos esperar, enquanto ligam para alguém. Pedem-me o nome e perguntam-me o que estou ali a fazer. Após lhes dar as informações, mandam-me seguir e esperar no estacionamento. Pouco depois reparo que um dos seguranças fez todo o caminho a pé. Se tivesse percebido que era para esperar por ele, tinha-o convidado a fazer o percurso no carro. Chegou e levou-nos à recepção. Fomos recebidos por pessoas muito simpáticas, que nos deram as boas vindas e me deixaram à vontade no espaço, com o reparo, compreensível, de ter cuidado com a privacidade dos clientes, pois o resort é composto por bungalows. Após passar pela piscina, ao final da praia começa um passadiço de madeira, que serve de ponte até ao ilhéu, onde está situado um bar e restaurante do empreendimento. A forma como os bungalows se inserem na paisagem é perfeita, e a beleza da praia é imensa. Diferente do ambiente da roça Belomonte, temos aqui uma versão diferente do paraíso, esta talvez um pouco mais selvagem, mas igualmente requintada. Olhando para trás na direção da ilha, vê-se o vértice onde começa o passadiço, do lado direito a Praia Bom Bom, e do lado esquerdo, mas discreta, mas não menos esplendorosa, a Praia Santa Rita. Bem ao longe, do lado esquerdo, é possível vislumbrar o precipício da roça Belomonte. Pela ponte rumo ao ilhéu, pode observar-se a água transparente que separa o mesmo da ilha. A areia é completamente branca, e aqui e ali surgem pequenas rochas negras, daquele negro vulcânico. Numa noite de lua cheia, dá-se aquela ilusão de óptica, de que não existe água, apenas se vê o fundo, tal é cristalina a água. No ilhéu, o bar e o restaurante, algumas mesas à sombra de carroceiros, palmeiras e coqueiros, um pequeno pontão e dois barcos ancorados ao largo. Pouco depois voltamos, pois ainda tinha planos para visitar a roça Sundy. A chegar ao final do passadiço, encontro uma rapariga portuguesa que veio no mesmo voo que eu de São Tomé para o Príncipe. Está a viajar sozinha, e após uns dias em São Tomé, veio três dias para o Resort Bom Bom, e tal como eu, viajaria no dia seguinte de regresso. Depois seguiria para Angola. Despedi-me, e seguimos para o carro, para ainda aproveitar a luz do dia na Roça Sundy. Pelo caminho encontramos menos trabalhadores, o dia de trabalho já se aproximava do término, e à nossa frente seguia uma carrinha que levantava uma poeira intensa como uma nuvem, de uma amarelo avermelhado forte, que pouco deixava vislumbrar da estrada em frente. A seguir ao aeroporto, entrou num estaleiro. Nós seguimos em frente, na estrada de regresso à cidade.

Roça Sundy

Sempre que via fotografias e referencias a esta Roça, a ideia de que tinha, era de que o nome derivava de alguma companhia anglo-saxónica, que em pleno século XIX tivesse explorado o espaço. Embora a ligação dos Cadbury à ilha nunca tivesse sido pacífica, São Tomé e Príncipe dominou o comércio mundial de cacau, e como fabricantes de chocolate, mesmo que não diretamente, não seria descabido que uma empresa de capitais ingleses tivesse controlado a propriedade. Sabia também da experiência levada a cabo por Arthur Eddington nesta roça, o que também servia de base à razão que eu pensava ser a da denominação desta roça. Nada disso. Segundo consta, um dos primeiros proprietários, tendo-se tornado num dos mais importantes, era um nativo chamado Dias. Sendo patrão, era chamado por toda a gente de Senhor Dias. No crioulo do Príncipe, a palavra “senhor” toma a denominação de “sun”. Senhor Dias. Sun Dias. Sun Dia. Sundy. Há algumas histórias ligadas a esta roça, relativas a um proprietário posterior ao SunDias, que se cruzam com versões alternativas sobre a Maria Correia. Ficam para o próximo episódio. Do aeroporto seguimos na direção da cidade, até surgir a placa que indica Sundy. A estrada é de terra batida, mas surpreendentemente está em muito bom estado. Pouco buracos, piso relativamente plano. A estrada atravessa quase todo o centro da ilha, em direção ao extremo Noroeste. Em certos pontos, a vegetação é intensa e quase impenetrável. É fácil perceber sempre qual é a estrada principal, mas aqui e ali, seguem estradas noutras direções. Levam a outras roças mais pequenas. Pouco tempo depois, aparecem os primeiros edifícios e chegamos à roça Sundy. Um guarda levanta uma cancela, e em frente podemos ver a casa principal, em excelente estado, recentemente recuperada. Do lado esquerdo segue um antigo caminho de ferro, já em muito mau estado. Do lado direito da casa tem um pequeno portão que dá acesso ás traseiras, onde se encontra um marco comemorativo da data de vinte e nove de maio de mil novecentos e dezanove. Data em que se deu um eclipse total do sol, e em que o britânico Arthur Eddington realizou na roça Sundy uma experiência que veio a comprovar a Teoria da Relatividade de Einstein. Ao lado, há um painel explicativo da referida experiência. O pequeno pátio forma um miradouro, de onde é possível ver lá abaixo, ao fundo, por entre as árvores, o mar. Saindo do de novo para o terreiro, pelo lado esquerdo há alguns edifícios em mau estado. Um segundo terreiro onde continua o já em estado terminal caminho de ferro, e ao fundo um grupo de homens convive por debaixo de um enorme caroceiro. Do lado esquerdo, uma das imagens que tinha na minha memória relativa a esta roça, uma curiosa muralha que parece um castelo, e na parte central, um arco e por cima um relógio. Ao longo de toda a muralha, por cima, as ameias. No extremo esquerdo da muralha, e junto a um outro edifício em mau estado, segue o caminho de ferro. O sol já começava a baixar, e a luz já não era a ideal para fotografar neste sítio. A luz da manhã ou o sol a pique, permitiriam outras soluções fotográficas. Estava terminado o passeio e seguimos de volta para a cidade. Como já referi, a ilha é pequena. Antes de entregar o carro, meti cento e cinquenta contos, cerca de seis euros de gasolina, deixando o depósito com mais combustível do que quando a viatura me tinha sido entregue. Tendo viajado por toda a ilha, foi um consumo bastante económico. Faltou conhecer Porto Real, a roça Infante, a roça Maria Correia, e a comunidade de São Joaquim. Há uma série de praias paradisíacas na ilha, cujo acesso se faz apenas por mar. Esses planos não seriam para agora. Entreguei o carro ao rapaz da loja, que ligou para o dono do carro, que está na ilha de São Tomé, para que negociássemos o preço da viatura, uma vez que devido ao problema da bateria, seria feito um desconto. O senhor Idalécio ( o dono ), disse que seria justo que fosse eu a decidir o preço a pagar. Resolvi ser generoso, e ofereci quarenta euros, com a condição de no dia seguinte, pelas quinze horas, alguém me levar ao aeroporto. O Celestino seguiu para casa, e eu fui ao Mira Rio comer apenas algo leve. Era dia de deitar cedo, o que no Príncipe é bastante normal, pois tinha planos para o dia seguinte. Mas isso fica para o próximo episódio, que mais uma vez terá planos furados, e histórias de misticismo e fantasia. A não perder.