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Com o nascer do sol já se ouve movimento na rua. Não demorei muito mais a me levantar, e na estrada em frente ao edifício grupos de crianças passavam, nos seus uniformes azuis, a caminho da escola. Saí e fui até ao mercado, na esperança de comprar umas peças de fruta. Banana, só havia da verde, para cozinhar. Havia ananás, mas não dá jeito para comer assim na mão, é preciso tirar a casca. Tomei o pequeno almoço no Mira Rio, aproveitei para tratar dos emails e publicar o diário do dia anterior, comprei uma garrafa de água das grandes, e resolvi meter-me à aventura. A pé, segui a margem direita do rio papagaio, em direção ao mar. É a estrada que vai para a Roça Terreiro Velho, a do Claudio Corallo, o homem do chocolate, ou Roça Abade. A determinada altura, no cimo de uma subida, a estrada boa segue para a direita, e sempre em frente vai um caminho que outrora já foi pavimentado, mas agora é um misto de terra, pedras, buracos e ervas. Eu andava à procura do caminho para Ponta Mina, onde estão as ruínas de um forte português que servia para fazer a defesa da baía de Santo António. No outro lado da baía havia outro forte. Supostamente, entre as ruínas de Ponta Mina, existem alguns canhões, que segundo dizem, estão amontoados no mato. A certo ponto, há uma bifurcação. Para a direita segue a estrada má, nas mesmas condições que me haviam trazido até este ponto, e com um pequeno altar a dividir, segue para a esquerda um caminho pior. Presumo que seja esse o caminho para Ponta Mina, mas resolvi seguir o outro, pois já me tinham falado de que por esta zona há uma praia. O barulho do mar parecia confirmar que devia ser por ali, e pela primeira vez desde que saí da cidade, a estrada começa a descer. Chegado ao fundo, lá estava a placa a dizer “Benvindo à praia Évora”, num caminho para a esquerda, enquanto que para a direita a estrada subia naquilo que parece ser em contorno da costa. Desci até à praia e aproveitei para dar um mergulho e descansar um pouco. Entretanto a água que tinha comprado já estava em estado chá. Depois de caminhar um pouco pela praia para me secar, fiz o caminho inverso até ao pequeno altar. No Príncipe, que eu saiba, não existem animais perigosos. Centopeias, aranhas, e pouco mais que isso. As cobras aqui penso que são inofensivas, e depois há pássaros sem fim, enxames de pequenas borboletas de cor azul clara, e muitos lagartos, ou lagartixas, como lhes queiram chamar. Eu acho que são pequenos lagartos, pois são maiores que as lagartixas que há em Portugal, e têm uma textura que é quase brilhante, e chega a parecer quase como a dos peixes. Bem, a imaginação tem um grande papel a exercer nas nossas percepções, e quando se anda sozinho no meio da selva, com aqueles sons todos da natureza, os lagartos na berma da estrada a fugirem por debaixo das folhas, começamos a nos sentir um pouco desconfortáveis. A última pessoa que havia visto, devia estar a uns dois kilómetros de distância pelo menos, pelo que me apressei no caminho de volta. Estranho que ainda não vi um único papagaio no Príncipe, mas tenho a certeza de alguns dos sons que ouvi, eram deles. Quando cheguei à bifurcação onde penso ser o caminho de Ponta Mina, lembrei-me que estava de sandálias, e decidi que não me ia meter num trilho, no meio das ervas, sem outro tipo de calçado, pelo que decidi que logo voltaria noutra altura, com outra vestimenta. Pouco depois já estava na estrada pavimentada, e desta vez o caminho fazia-se a descer.

Depois de um duche para tirar o sal e o suor, ainda tinha que fazer um pouco de tempo para o almoço. No Príncipe, tudo se faz mais cedo do que em São Tomé. Meio dia é a hora para se almoçar, e entre as dezoito e as dezanove janta-se. Fui de novo ao Mira Rio, beber uma tónica, e tentar, apesar da internet não ser grande coisa, publicar as fotografias do dia anterior. Foi uma tarefa hercúlea, mas consegui. Cerca de quarenta minutos depois estavam publicadas. Calhou bem, era hora de me dirigir ao restaurante Paraíso, perto da Assembleia, para comer uma feijoada à moda da Terra. É uma feijoada feita com vários peixes, dos nomes que consegui reter, pargo, bonito, peixe seco. Para a sobremesa, como não podia deixar de ser, ananás. E deixem que vos diga, eu podia levar o resto do meu tempo aqui a comer ananás. Nunca comi ananás tão bom. Já ontem ao almoço no Mira Rio o ananás era tão doce que chegava a fazer impressão. De regresso, perto da ponte sobre o Papagaio, vi pela primeira vez jaca a ser vendida, mas não estando arranjada, e só com as mãos, iria ficar todo peganhento, pelo que resolvi não arriscar.

A Maria Correia era filha bastarda do Rei D. Luís, e em meados do século dezanove, por se portar mal na corte ( consta que a rapariga era uma libertina ), como castigo, o Rei, seu pai, deu-lhe a ilha do Príncipe, e desterrou-a para cá, que assim já não seria um embaraço. Hoje em dia a Assembleia fica no edifício que servira de palácio à Maria Correia, embora a sua residência oficial fosse na Roça Belo Monte. Para satisfazer o seu voraz apetite, escolhia um escravo viçoso que lhe proporcionasse uma noite bem passada, mas como não ficaria bem que um escravo depois andasse por aí a dizer que tinha passado a noite com a filha do Rei, pela manhã, o desgraçado era atirado do precipício que existe na roça, junto ao mar. Dizia-se da Maria Correia, que tinha requintes de malvadez, e algum bandido que fosse apanhado tinha como destino ser atado a uma estaca no meio da baía, durante a maré baixa. Depois, a maré enchia. Só voltaria a ser retirado quando a maré estivesse vazia de novo, pelo que podem perceber, que a menos que tivesse guelras, só saía dali para um buraco no chão. Pensou o Rei D. Luís que na ilha do Príncipe se livraria dos embaraços causados pela filha, mas depressa começou a ter que se justificar, principalmente com a corôa inglesa. Talvez seja essa a origem do ódio de estimação que a família Cadbury ( sim, aqueles mesmo dos chocolates Cadbury’s ) passou a ter pelo comércio português de cacau. Passavam pelo Príncipe navios negreiros, de esravos, ou navios carregados de mercadorias. A Maria Correia convidava as tripulações a terra, e oferecia-lhes grandes banquetes, enquanto os seus lacaios pela calada assaltavam os navios, roubando a carga, fosse ela de mercadorias ou de escravos. As queixas sobre estes actos de pirataria começaram a chegar à corte portuguesa. Em relação ao facto do ódio da família Cadbury’s para com Portugal, há um episódio, muito mais para a frente, em que um dos membros dessa família foi apontado internacionalmente para verificar os moldes em que se fazia a produção de cacau, e denegriu completamente Portugal, acusando de praticar a escravatura quando essa mesma estava abolida. Não é que o sistema de contratados não fosse uma espécie de escravatura, mas num dos próximos dias explico como tal se processava.