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Apesar do check-in só começar às oito, aproveitei o facto do Cesaltino ir levar o meu primo Ricardo à escola, Instituto Diocesiano de Formação João Paulo II, que fica quase no caminho para o aeroporto. Mais uma vez, agora não de forma propositada, era o primeiro a chegar. O céu estava limpo e, pasme-se, via-se o pico de São Tomé. Também, foi sol de pouca dura, trinta minutos depois já estava coberto de neblina. Uma senhora aproveitou o facto de eu ter apenas um saco de viagem para despachar, e pediu-me para levar uma mala para o Príncipe. Ao todo devíamos ser uns doze passageiros, e na sala de espera começamos a conversar uns com os outros. Um casal britânico, dois casais alemães, um dos quais já com uma certa idade, e uma rapariga portuguesa a viajar sozinha, que depois dos três dias que vai passar no Príncipe, segue viagem para Luanda. Haviam três senhores santomenses que se mantiveram à parte e não entraram na conversa. O mais certo seria que não falassem inglês. O embarque começou mais cedo que o planeado, e foi engraçado de observar o espanto dos estrangeiros ao verem o avião que faz a ligação entre as ilhas, o Africa’s Connection. É um pequeno avião de dezoito lugares apenas, com uma hélice em cada asa. O voo foi calmo, e pouco depois de se observar as Tinhosas, dois bocados de rocha perdidos no meio do oceano, aparece a Ilha do Príncipe pela frente. O voo segue a ilha pelo lado poente, esse bocado de massa verde que sai do mar, curva após o Ilhéu Bom Bom, e pouco depois faz a aterragem no aeroporto, que fica na zona norte da ilha.
Após todos os turistas serem recebidos pelos transferes para os hóteis, um senhor santomense que veio no voo perguntou-me se eu precisava de boleia. Deixou-me mesmo à porta da Santa Casa da Misericórdia do Príncipe, que vai ser o meu poiso nestes três dias e meio que vou passar cá. A Dona Iáia veio receber-me e indicou-me o quarto. Cerca de dezena e meia de pessoas idosas estavam na sala a ouvir a Rádio Regional do Príncipe, que parecia estar a transmitir a sessão da assembleia regional, uma espécie de canal parlamento português, mas aqui em versão rádio. Instalei-me no quarto, e quase sem dar por isso, piso uma centopeia com cerca de dez centímetros. Escusado será dizer que agora, de cada vez que entro no quarto, passo o chão e as paredes a pente fino. O quarto tem duas camas com rede mosquiteira por cima, e as condições são excelentes para o preço que se paga, no meu caso, doze euros por noite. A senhora diz-me que o único senão é não haver água quente, o que neste clima tropical não faz a mais pequena diferença.

Pego no material fotográfico, e vou explorar a cidade capital mais pequena do mundo, título garantido pelo facto de a Ilha do Príncipe ser considerada uma região autónoma. Ao voltar ao alojamento, aproveito para me sentar na sala, e digitar o episódio do dia anterior. Mesmo quando estava a terminar, liga-me o meu primo Hamilton, a dizer que contactou um amigo que vive no Príncipe para me dar algum apoio por cá. Pergunto onde há sinal wifi que se possa usar, e sou encaminhado para um restaurante/pensão chamado Mira Rio. De caminho ligo para o Celestino, o amigo do meu primo, e digo-lhe que vou almoçar no Mira Rio.
Aproveito para publicar o diário de viagem, ver os emails de trabalho, e de repente acaba-se a internet, apesar de ter o sinal wifi no máximo. A ementa é porco assado no forno, com banana frita e arroz. Bebo uma água tónica, que por conter quinino é uma boa prevenção para a malária, e é-me apresentado o molho picante mais bombástico que já provei nestas ilhas. A referir que o ananás que foi servido de sobremesa estava divinal. Parecia que tinha açúcar! Voltei à Santa Casa, comecei a editar as fotografias que tirei na cidade, e depois fui descansar um pouco, para tentar recuperar da caótica noite passada. Sempre com um olho no burro e outro no cigano, pois a centopeia que me recebeu de manhã não me saía da cabeça.

Ao que parece, no edifício só estou eu e o guarda, um senhor cabo-verdiano chamado Gustavo, que está há muitos muitos anos no Príncipe. Diz-me que estava um outro senhor que saiu esta manhã. Ficamos quase uma hora à conversa. Aqui, tenho que fazer outro reparo antes de continuar. Apesar de me preocupar com o futuro deste país, e seguir dentro do possível os seus trâmites, há certas coisas relacionadas com o processo de descolonização e a forma como foram geridos os destinos deste povo durante estas quatro décadas de independência, que me abstenho de comentar em público. Existe uma versão da história que é a oficial, e existe outra versão da história, que sei de cor, porque foi vivida pelo meu pai na primeira pessoa. Os factos são tão díspares entre si como a diferença entre um mirtilo e uma barracuda. Para quem não sabe, um é um fruto/baga silvestre, e o outro um peixe mau como as cobras. Numa das minhas viagens anteriores, falei sobre este tema, e como me espanta alguma juventude, nascida em plena independência, ter uma linha de pensamento tão radical-nacionalista, apontando armas ao colonialismo, que diga-se de passagem, já lá vai há mais de quarenta anos, não vai voltar, e apesar de haver pessoas que viveram essa época ainda entre nós, quem poderia personificar essa imagem de colono, que os houve homens muito maus, de mau carácter com toda a arrogância da sua suposta superioridade, há muito que se foi. Dito isto, a primeira frase que o senhor Gustavo me disse, foi: “Isto era tão lindo, tudo arranjado, sabe, esta estrada aqui era para dar a volta à ilha, as roças produziam, os portugueses tratavam de tudo e estavam a fazer estradas melhores…sabe, depois veio o 25 de Abril e estragou tudo.” Atenção que não tomo o partido do colonialismo, mas quando observo pessoas que viveram o período colonial a maldizerem a independência, e miúdos que nasceram em plena e firmada autodeterminação a culparem os portugueses por tudo o que o país não conseguiu firmar em quatro décadas de governo do seu próprio destino, percebo que algo está errado nestas linhas de pensamento radicais.

Começou a chover, mas o céu parece limpo no local onde estamos, e forma-se um arco-íris sobre a baía de Santo António. Nunca tinha visto por cá uma chuva assim, gotas enormes, grandes, e muito espaçadas entre si. O senhor Gustavo explica-me o caminho para as ruínas do forte de Ponta Mina, onde há alguns canhões portugueses, caídos no meio da vegetação, e que o meu tio Armando, militar de carreira e estudioso destas peças bélicas do antigo império colonial, me pediu para fotografar. “Aqui ninguém quer trabalhar, só querem festa”, adicionou, “ainda hoje, quem faz aqui alguma coisa são os estrangeiros.”. Despedi-me e segui para o Mira Rio, para beber uma água tónica, e ver se apanhava internet. Fiquei-me pela tónica, pois não há internet. Soube que o menu para o jantar é o mesmo que foi ao almoço. Não me apetece. Vou ver se o Celestino aparece e me aconselha outro local, ou então como uma tosta ou algo assim. Ele ficou de ver um carro para alugar por bom preço, para amanhã de tarde, após sair do trabalho, irmos visitar as roças e os pontos mais interessantes da ilha. A cidade de Santo António fica no sopé de um vale. De cada um dos lados duas paredes de verde intenso, denso, de ar majestoso e impenetrável. Pelo meio passa o rio Papagaio. Para o interior, três imponentes massas de rocha. Três picos, segundo alguém por aqui me disse, o Infante D. Henrique, o Maria Correia e o Morro Papagaio. Tenho que vos contar a história da Maria Correia, mas fica para outro episódio, não devo gastar já os trunfos todos. Do outro lado, a baía, rumo ao mar. Falarei mais sobre a baía quando contar a história da Maria Correia.

Ao final da tarde o Celestino veio encontrar-se comigo ao alojamento, e depois seguimos a pé para o centro da cidade. Mostrou-me onde fica o mercado e locais baratos para comer. Já fiquei a conhecer alguns sítios. Na praça central, frente à Assembleia, há internet grátis, um pouco melhor que a do Mira Rio, quis-me parecer, mas com muitos jovens a usar, encalha um bocado. Depois fiquei num local perto da loja da Unitel e o Celestino foi para casa. Comi vermelho grelhado com banana frita, e, de facto, a diferença de valores em relação ao almoço no Mira Rio é significativa. Paguei duzentas e cinquenta mil dobras pelo almoço, dez euros, enquanto que o jantar me ficou por sessenta mil dobras, o que nem chega a dois euros e meio. Aqui janta-se cedo, por volta das dezanove. Depois de jantar voltei para a Santa Casa da Misericórdia, e pelo caminho descobri mais um restaurante bem mais perto. Já tenho várias opções em conta para me alimentar enquanto cá estou. Amanhã vou conhecer um pouco a ilha, entretanto esta noite será para recolher com as galinhas, que por estes lados parece que os dias começam cedo. Com o sol.