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Retiro o que disse em relação aos galos. Esta noite foi uma festa. Um deles estava especialmente excitado, e cantava de 10 em 10 minutos. Acho que até incomodou os outros, que responderam nas primeiras vezes, e depois deixaram de se manifestar.

Bem, antes de prosseguir, pretendo fazer dois esclarecimentos que acho imperativos. O primeiro, é relativo às fotografias que publiquei referentes ao dia 18 de janeiro. A cidade de São Tomé está um pouco degradada, não há que o negar ou esconder. Há muito lixo, estradas esburacadas e edifícios devolutos. Já de outras vezes fotografei a Avenida Marginal, mas quis mostrar de novo um pouco desta zona da cidade. Não é de todo possível fazê-lo sem mostrar a degradação em que se encontra o muro, algumas partes do passeio e o muito lixo que abunda na pequena praia da Baía Ana Chaves. Algumas pessoas usam o pontão como retrete durante a noite, e, acreditem, cheira pior do que se pode presumir pelas fotografias.
O segundo esclarecimento prende-se com aquilo que tenho experienciado com a função pública santomense e a exagerada burocracia. Há episódios que de bizarros que são, chegam a ser cómicos, mas quero deixar claro que não é de todo minha intenção denegrir as regras deste país. Em Portugal acontecem coisas inacreditáveis também, noutros países ditos evoluídos também, não existem sistemas perfeitos. O objectivo aqui é apenas relatar aquela que tem sido a minha vivência por cá.

Em maio, havia entregue toda a documentação, pago todas as taxas, selos fiscais e reconhecimentos de assinaturas, e o meu processo seguiu para o gabinete do Ministro da Justiça. O meu irmão havia feito o mesmo em Abril. Passo a explicar o porquê destes processos. Tendo nascido em São Tomé, tanto eu como o meu irmão, e com mãe santomense, temos direito a pedir a nacionalidade. Com a nacionalidade podemos ter passaporte santomense, e aí deixar de necessitar de vistos para estadias superiores a quinze dias. Quando entreguei o processo, foi requerido o contacto telefónico de alguém residente, para que fosse informado quando houvesse despacho do processo. Depois desse momento há mais passos a dar. Até ao momento, ninguém havia dito nada ao meu primo Hamilton. Dirigi-me ao Registo Civil, e o senhor reconheceu-me mal entrei. Dei as minhas informações, de quando tinha sido entregue o processo e o meu nome. Levei logo um raspanete. O processo teve despacho em Julho e eu não havia acompanhado o mesmo. Informei o senhor de que estava em Portugal. Perguntei pelo processo do meu irmão. Entregue um mês antes do meu, não teve despacho ainda. Foi-me entregue um papel com o número do processo, para que seja mais fácil saber algo sobre o mesmo nas próximas vezes. Como o meu processo teve despacho, foi-me indicado o passo a seguir. Ir ao Ministério da Justiça comprar Diário ( para que o despacho seja publicado em Diário da República, pelo que percebi ). Depois de entrar em dois portões errados, lá encontrei o certo, perto da Alfândega. Nasci em São Tomé, sinto-me santomense, mas para todos os efeito, sou um europeu em África, e com este calor e humidade, calções e sandálias são quase que uma obrigação para que se tenha um mínimo de bem estar. Mas aqui é tudo muito formal. As crianças usam farda para ir à escola, muita gente anda de gravata, por aí em diante. Percebo perfeitamente, e acho que em Portugal também não seria de etiqueta ir a um Ministério de calções e sandálias. Pois claro, tive a minha entrada barrada pelos militares junto ao portão, e não tive remédio senão ir a casa vestir umas calças e mudar o calçado. Todo eu era suor de calções e sandálias, mas ainda queria tratar das coisas durante a manhã, portanto podem imaginar como me senti após mudar de roupa. A senhora do Ministério após muito procurar, lá encontrou o processo. Agora, todos os pagamentos de impostos ou serviços relacionados com a função pública, são feitos no Banco Central, através de depósito numa conta que é fornecida. A senhora informou-me que após entrega do comprovativo do depósito, o Diário sairia dentro de um mês. Um mês? Mas eu vou para Portugal dentro de semana e meia. Com pagamento de taxa de urgência fazem em quarenta e oito horas. Tudo bem, eu pago. Mas a taxa de urgência é para depositar numa outra conta. Correcto. Chego ao Banco Central, tiro a minha senha e aguardo a minha vez. Quando chamam pelo meu número, vou a um guichet onde está um senhor com a flexibilidade do Guarda Serôdio, aquele dos Amigos do Gaspar. Quem sabe quem é percebe o que estou a dizer. Quem não sabe, que procure no Youtube. Acabo de perceber, para mal dos meus pecados, que para fazer o depósito para vir a ter documentação santomense, tenho que já ter essa documentação santomense. Perceberam? A princípio eu também não, e por muito que tentasse mostrar ao Guarda Serôdio que o que ele me estava a dizer não tinha lógica, ele só me respondia que eram as regras e que não podia fazer nada. O que faço eu da minha vida? Estava perante uma impossibilidade cósmica. Eu tenho que ter já o documento, pelo qual tenho que fazer um depósito para o ter. Seja por que ângulo for que eu tente analisar esta equação, não chego a conclusão nenhuma. Um rapaz que estava à espera de vez, e que conhece o meu primo, lá disse ao Guarda Serôdio para procurar pelo nome do meu primo o número de contribuinte dele, e fazer o depósito com essa informação. O Guarda Serôdio só dizia que isso era contra as regras, e que tinha que ser o beneficiário do processo, ou seja, eu, a dar o meu número de contribuinte santomense, sendo que eu não posso ter número de contribuinte santomense sem ter nacionalidade santomense, assunto pelo qual o referido depósito é um pressuposto. A muito custo o Guarda Serôdio seguiu a recomendação do rapaz, e lá fui eu com o comprovativo dos depósitos finalizar mais esta etapa de um processo mais árduo que a escalada da encosta norte do Monte Evereste. Vou estar no Príncipe até sexta feira à tarde, por isso, só segunda vou levantar o Diário. Depois ainda tenho que regressar ao Registo Civil, pois há mais etapas a cumprir. Será que o objectivo do sistema é a desistência do candidato por cansaço físico e psicológico? Mas eu sou persistente!! Entretanto, até chegar a casa devo ter destilado um camião cisterna de suor.

Para explicar o clima de São Tomé, vou fazer um exercício com base no sotaque algarvio. É assim, explicando por alto, não tem nada que saber. É verão o ano todo, mas há duas estações: a época das chuvas, de setembro a junho, e a gravana, de junho a setembro. Na época das chuvas, chove. Na gravana, quase não chove, mas faz mais vento, e as noites são um pouco mais frescas. Para alguém que não seja do Algarve, o sotaque é todo igual. Mas para qualquer algarvio, isso não é verdade. Qualquer algarvio consegue saber a localidade de onde é outro algarvio apenas pelo seu sotaque. Sem ir muito a fundo, o sotaque de Alvor não tem nada a ver com o de Portimão, que é logo ao lado, e nenhum dos dois tem nada a ver com o sotaque de Ferragudo. Ferragudo fica no concelho de Lagoa, e o sotaque não tem nada a ver com o do resto do concelho. E ainda não saí de localidades que estão geograficamente juntas. Se começo a falar do monchiquense, olhanense ou farense, nunca mais saímos daqui. Em São Tomé, o clima não é tão complexo, mas tem mais que se lhe diga. Por esta altura há dois fenómenos, que às vezes se sobrepõem. Há a gravaninha, que não é como a gravana, mas que por volta de meados de dezembro e janeiro, faz com que as noites não sejam tão quentes. E há algo que se chama de Bruma Seca, que ocorre em vários períodos de dezembro a março. A Bruma Seca, é uma corrente de ar que vem do deserto do Saara e que traz consigo poeira, um calor de morrer, e alguma neblina. Entre outras coisas, provoca um calor abrasador e pescadores a se perderem no mar. Não é uma coisa muito simpática.
Prometi fazer este relato ontem à noite e não cumpri. Fiz depois a promessa de que valeria a pena. Quem sobreviveu à leitura até este ponto, pode nos comentários do FaceBook deixar a sua decepção caso seja esse o caso. Ou o contrário. Não é que eu faça seja o que for para ser recompensado com elogios, mas que afagam o ego, tenho que reconhecer que sim.

Houve um motivo pelo qual não consegui fazer este relato ontem ( estou a fazê-lo na sala da Santa Casa da Misericórdia do Príncipe, onde vou ficar a pernoitar nesta minha estadia, e onde tenho conhecido das pessoas mais simpáticas que alguma vez conheci, sem desprimor para todos vocês, amigos simpáticos ).

Fui jantar a um restaurante de um rapaz que conheci pessoalmente em maio quando estive cá. Na altura o restaurante ainda não estava aberto. Já estávamos no entanto conectados pelo FaceBook anteriormente. O João foi chef no Omali Lodge, um resort entre o Aeroporto e a cidade de São Tomé, e decidiu lançar-se neste projecto com muito bom gosto, que se chama o Restaurante 5entidos. Ele faz uma cozinha de fusão, com bases na comida tradicional portuguesa, na comida santomense, e com alguma modernidade à mistura. O restaurante também está muito bem decorado, e todas as mesas e cadeiras foram feitas pelo João. A segunda feira é dia de francesinha. Então, o que se passou, foi um algarvio/santomense a vir comer uma francesinha em São Tomé. Podia ter-me dado para pior. A acompanhar, algo mais tropical. Um sumo natural de goiaba e cája-manga. A sobremesa foi uma mousse de limão com amendoim moído e raspas de lima, servida numa pequena casca de côco. Estava tudo divinal.
Seria um jantar não muito prolongado e um regresso a casa ainda cedo. Aí, teria dedicado algum tempo a digitar o episódio do dia. Entretanto chega um jovem casal, estrangeiro, que demonstrava alguma dificuldade a interpretar a ementa, e o inglês do empregado de mesa andava próximo da flexibilidade do Guarda Serôdio. Da minha mesa, comecei a traduzir-lhes alguns dos pratos que eles liam num português tão arcaico como a civilização suméria. Foram-me fazendo perguntas, pedindo explicações sobre os pratos que estavam na ementa. Entre eles diziam “camarão deve ser calamari”. E dizam “bolinhas de alheira” como alguém com um sotaque cerrado de São Miguel ( Açores ) diz esternocleídomastóideu. Ele chama-se Nicolas e é belga, ela Madi e é escocesa. Trabalham no Gabão, e estão em São Tomé a passar uns dias para renovar o visto. Ou seja, para poderem continuar a trabalhar no Gabão, tiveram que sair do país, para depois voltarem a entrar e receber novo visto. Alguém lhes aconselhou o restaurante, e lá foram à descoberta. Estão completamente apaixonados por São Tomé, e garantem que além de voltar, vão promover o país por todos os amigos e conhecidos. Outra coisa não seria de esperar. Quando algum de vocês vier a São Tomé, após regressarem aos vossos destinos de origem, vão estar a contar os dias até um eventual regresso. O que toda a gente estranha, principalmente estrangeiros ( neste caso leia-se estrangeiros não portugueses ), é como é possível São Tomé e Príncipe ser ainda um destino tão desconhecido. É que não faz sentido mesmo. Entre sangrias especiais de champagne e calda de morango, gravaninhas, gin tónicos e outras delícias, o momento alto da noite foi a sobremesa na mesa. É mesmo um must see, must taste ( publiquei uma foto tirada com o telemóvel ). Após lavar a mesa de vidro com álcool, o João acende o fogo, e depois espalha com mestria sobre a mesma todas as sobremesas do cardápio. Mel, amendoim moído, mousse de limão, mousse de chocolate ( de cacau do bom ), calda de morango, raspas de côco e de lima, entre muitas outras iguarias. Quando se fazia bastante tarde, regressei a casa, que é mesmo ao fundo da rua, e tentei dormir, pois às seis e meia da manhã teria que estar de pé, para viajar para o Príncipe. Eu disse bem, tentei. O galo cantava de dez em dez minutos, os cães competiam entre eles quem ladrava mais alto. Os mosquitos picavam-me e zumbiam de cada vez que eu apagava a luz e tentava dormir, mas desapareciam de cada vez que acendia a luz para os tentar matar. Às quatro da manhã, a vizinha francesa maluca da casa ao lado, liga a televisão em altos berros. Sem deixar de referir, que mesmo havendo electricidade, a senhora tem um gerador a trabalhar a noite toda. É como ter um camião a trabalhar mesmo ao lado da janela do quarto. Entretanto, já era manhã.