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Alguns meus amigos, a partir do momento em que lhes disse que vinha de novo a São Tomé, a primeira coisa que me disseram, foi que queriam ler as minhas crónicas de viagem. Refleti um pouco sobre se iria escrever estas minhas memórias dentro do mesmo esquema das viagens anteriores. Quando se repetem os mesmos lugares e as mesmas pessoas, as descrições não têm a mesma intensidade da primeira vez. Assim, o que decidi, é que iria escrever à medida que o tempo me deixasse, e que sentisse que teria algo a dizer.

Não gosto de chegar atrasado a nada, e prefiro sempre chegar cedo de mais e esperar. Na espera, entretenho-me a pensar, a planear. Ouço música ou leio um livro. Dito isto, não será de estranhar se disser que fui a primeira pessoa a chegar ao check-in no aeroporto de Lisboa. Não fui o primeiro a despachar-me, pois o computador do balcão não queria colaborar. Mas voltemos atrás, à fila do check-in, ainda antes do mesmo abrir. Estava eu e mais um casal quando chegou um senhor nos seus sessenta anos. Bem vestido, notava-se que o fato era caro. Já o bom gosto nem tanto. Camisa rosa deslavada e gravata rosa berrante não faziam o melhor pandam com o cinzento dia-de-chuva do casaco e das calças. Tinha ar de ser alguém importante, um ex-ministro qualquer de um dos governos que geriram o país nas primeiras décadas pós-independência. Mal chegou estava a resmungar. Para já é isto que se deve reter deste personagem. Mais tarde volto a ele.

Após o check-in, estou livre, apenas com a minha mochila, ando mais à vontade, vejo as lojas onde não vou comprar nada, pois os preços até assustam, e decido onde comer qualquer coisa. Uns quinze minutos depois de andar a queimar tempo, deparo-me com o senhor da gravata cor-de-rosa a resmungar sozinho. Com ar reprovador testemunhado pelo seu abanar de cabeça, olhava para a imagem dos hambúrgueres do MacDonalds. Resmungou qualquer coisa imperceptível, e seguiu caminho. Eu fui à loja da Fnac comprar um livro para a viagem ( e para os dias em que vou ao Príncipe ), pois esqueci-me de colocar o que já tinha pensado para a viagem na bagagem. Ficou em casa no Algarve. Comecei a minha leitura junto à porta de embarque, ainda faltava cerca de uma hora. A determinado momento, chega o senhor da gravata, olha para a máquina de vending onde as garrafas de água custam quase dois euros, e resmunga algo, de forma audível, mas ainda assim imperceptível.

Tudo o mais que eu possa acrescentar referente à viagem até São Tomé, são trivialidades e não há episódios de especial relevância que mereçam ser descritos, excepto que o senhor da gravata cor-de-rosa, resmungava sozinho e de forma imperceptível de cada vez que era servida uma refeição, ou café ou algum membro da tripulação lhe pedia para apertar o cinto. O abanar de cabeça de forma negativa enquanto olhava para a refeição, que diga-se de passagem, como qualquer refeição de avião, merece toda a reprovação que lhe possamos dedicar, não deixava de ser cómico. Escusado será dizer que o senhor resmungou quando o avião aterrou e enquanto aguardou pelas bagagens na passadeira. Era capaz de apostar um rim que neste preciso momento deve estar a resmungar com qualquer coisa.
Entre dormir, ir ao Passante, e ir às compras com a minha prima Ita ao Super CKDO ( vulgo Sé-cá-dó ), do resto do dia, de realce, só mesmo o final da noite.

O Pico Mocambo, é um bar, que há uns anos se chamava Chez Pierre ou Le Bar de Pierre. Fica numa antiga casa colonial, muito característica, que por imperdoável lapso meu nunca fotografei, e que parece que serviu de sede à PIDE até ao 25 de Abril. Para quem gosta de Gin, ou como eu, aprecia um bom rum, no Pico Mocambo tem uma boa variedade de rum de fabrico artesanal, santomense. A gravaninha é uma espécie de caipirinha, mas com rum, que pelas vezes que já fui ao Pico Mocambo, é a bebida que mais sai do bar. Ontem explorei o rum de maracujá, o rum banana-café e o rum de baunilha. Há também rum de pepino ou rum picante, entre outros. Ainda tenho mais dias pela ilha. Não tendo combinado nada com ninguém, apareceram pessoas que já conheço, e entretanto conheci outras pessoas. Saí de regresso a casa, que por sinal até é bem perto, com a cabeça mais leve e o sabor do rum na boca.
Em relação à noite, e a noites passadas de outras viagens a São Tomé, devo assinalar que não dei por galos ( que noutras ocasiões cantavam de hora em hora em despiques que ecoavam por várias partes da vizinhança ). Mas cães a ladrar não faltaram, embora a partir de certa hora já nem os ouvisse.

Em relação ao dia de hoje, tive um momento embaraçoso, que descrevo mais à frente. O meu primo Hamilton veio buscar-me para irmos dar um mergulho a Santana. Vesti os calções de banho, peguei na toalha e na mochila com a máquina fotográfica e as objectivas. Paramos no Hotel Pestana, e só aí percebi que o mergulho não era relativo a uma ida à praia, mas sim a fazer mergulho mesmo, daquele com fato e botija de oxigénio. Devo referir que na mesma proporcionalidade em que adoro ver filmagens e fotografias do fundo do mar, os meus níveis de stress aumentam só de pensar na disciplina de controle da respiração que o mergulho implica. Nunca fiz mergulho, e apesar de ter na família e em amigos algumas pessoas que fazem pesca submarina, nunca me deu para experimentar. De repente, estava ali numa situação em que o ia fazer. O meu pensamento de início foi: vamos a isso. Vestir o fato, levar as botas e as barbatanas para o barco e fazermo-nos ao mar. Esta actividade foi oferta de um amigo ganês, O Nii, que alugou a casa de praia do meu primo por uns dias. Lá fomos nós, eu, o meu primo Hamilton, o Nii, o instrutor de mergulho e o ajudante, rumo ao ilhéu Santana. O meu primo nunca tinha feito mergulho também, mas o Nii já é um mergulhador com experiência. Recebemos todas as instruções necessárias, e logo aí começou o meu desconforto. Bastou meter os óculos na cara, que tapam o nariz, para começar a sentir algum desconforto. Talvez seja psicológico, mas por muito que tentasse manter o controle, os níveis de ansiedade tinham uma opinião diferente. Não sei como, naquela queda que se faz de costas do barco para a água, o respirador soltou-se da minha boca e engoli uma boa porção de água salgada. O meu objectivo de vida, naquele momento, passou a ser apenas chegar à superfície e tirar a máscara. Estava completamente apavorado, e quando o instrutor disse que a botija de oxigénio do meu primo não estava boa, ofereci logo a minha. Estava safo!! Depois ainda nadei um pouco, mas não me estava a sentir bem, pelo que subi para o barco, e fiquei a recuperar. De facto, parece-me melhor ideia fazer primeiro numa piscina, com calma. Acredito que depois das primeiras vezes, o mergulho já seja feito de uma forma natural, mas para já parece-me algo que não é para mim.

Amanhã tenho umas voltas a dar pela cidade, e havendo algo de relevante, penso escrever mais umas coisas. É bem possível que depois só haja relato no próximo fim de semana, pois vou estar quatro dias na ilha do Príncipe, e tudo vai depender do acesso à internet. Sendo o Príncipe uma novidade para mim, posso desde já garantir que terei muito a escrever sobre tudo o que vou ver e experimentar. Até mais!!