Praia da Lagoa Azul.

Pela manhã coube-me a tarefa de resolver o problema dos Adilson Castro. O Adilson Castro, pintor, percebeu a situação, e sem problemas nenhuns devolveu o material que era destinado ao Adilson Castro jornalista. Liguei logo a este, e combinamos no largo dos correios. Chegou logo um pouco depois, e ficou todo contente por receber as coisas. Despedimo-nos e vim até casa.

Ainda fui depois ao Miramar, aproveitando pelo caminho a tomar café no Passante, embora este café aqui me saiba sempre a queimado. Depois de almoço, a minha tia ia ter uma consulta no hospital, e aproveitei a ir com ela e com o Adilson. Assim, além de conhecer a zona do hospital, depois com a ajuda do Adilson poderia ver outros bons sítios para fotografar, e mesmo tratar das fotos do antigo restaurante Yong. Passamos ao aeroporto, e fomos à antiga gare, onde mesmo em frente, vive o Comandante Ferro, Esteves, que na altura da história da volta à ilha que já aqui contei, era conhecido por Doutor. Foi o tal que partiu as ampolas do antídoto da cobra. É, também, o único que tem uma foto dessa aventura. Falamos um pouco, trocamos cumprimentos, e informou-me que quem está com a foto, é o Armando Correia, para fazer mais cópias.

Despedimo-nos e seguimos para ocentro da cidade, para junto do mercado finalmente fotografar o antigo restaurante Yong. Passamos também em frente ao Pingo Doxi, e finalmente fiz uma foto da fachada. Voltamos à zona do Hospital, estacionamos e andamos um pouco a pé. Este hospital é composto por muitas casas espalhadas pelo terreno, sendo cada uma destinada a um tipo de serviço. Tirando alguma degradação dos edifícios e do pavimento, tal como a cidade de São Tomé em termos de planeamento foi muito bem pensada, também o hospital parece muito bem organizado, e acredito que com boa manutenção, bom equipamento e tudo em bom estado e a funcionar em pleno, seria uma unidade de saúde de excelência. Infelizmente sabemos que não é bem assim, e que as carências são muitas, e pelo que tenho reparado, manutenção é uma palavra e actividade um pouco desconhecidas nesta ilha.

Saímos do hospital e ainda fomos dar uma volta pelo exterior, até à praia, onde se consegue ver, tanto para norte, para o aeroporto e Ilhéu das Cabras, como para sul, para a baía Ana Chaves e toda a marginal da cidade de São Tomé.

Quando a minha tia saiu da consulta, paramos no Paraíso dos Grelhados, pois ela havia encomendado um concon com fruta pão, e ainda bebemos uns sumos, enquanto um grupo de miúdos mergulhavam para a água que naquela zona é tudo menos limpa. Este fim de semana há uma grande festa nesta zona, é a Festa de São Pedro, e vem gente de toda a ilha. Já se nota alguma azáfama na preparação da festa, e com folhas de palmeira e barrotes de madeira, alguns homens vão montando barracas. Em frente ao chalé do Claudio Corallo, que nas traseiras tem o laboratório onde fabrica o chocolate, já se encontra um grupo de turistas, à espera da hora para a visita. É quinta feira, e às dezassete horas todas as quintas feiras, há visita guiada com explicação. Como são quase dezassete horas, o trânsito começa também a ficar caótico. É a hora de ponta, e nesta zona, a confusão de hiaces, carros todo o terreno e motoqueiros com as suas Sukidas, é muita, e é vê-los passar para um lado e para o outro, num ritmo nada leve-leve.

Ainda demoramos um bom bocado a atravessar a estrada, e seguimos para o mercado para comprar pão. O Adilson ficaria por aqui e seria eu a levar o carro para casa. Entre lanche, tratar as fotos, tomar banho e jantar, já era noite avançada, e ainda fui ao Miramar gastar algum do tempo de internet que ainda tenho para consumir.

Como o que resta é ir para casa e dormir, deixo aqui mais um pouco da saga da volta à ilha de Agosto de sessenta e quatro.

Tinhamos ficado em Porto Alegre, e o grupo já tinha consumido praticamente todos os mantimentos. Discutiam o que haviam de fazer, apanhar fruta, pedir comida, qualquer coisa, quando avistam uma vara de porcos da roça de Porto Alegre. Era uma família inteira. Os grandes e os leitõezinhos atrás. Um leitão vinha mesmo a calhar. O Elvido tinha uma pistola do pai, e escondido, enquanto os restantes distraiam o guarda, lá disparou tendo atingido um alvo. Entretanto tiveram que esperar que o guarda fosse embora ao fim do dia, para não serem apanhados.

Quando finalmente isso aconteceu, lá foram buscar a sua presa, o seu leitãozinho que planearam assar numa fogueira. Bem, o que se passou, foi que o membro da família abatido, não foi nenhum leitão, mas foi o maior porco do grupo, enorme e gordo, um autêntico mastodonte.

E agora? Seis rapazes, por volta dos dezoito anos, com um porco quase do tamanho deles. Nenhum deles sabia arranjar um porco sequer, e mesmo transportar aquele monte de carne e banha não seria tarefa fácil.

Lá perceberam que a única saída daquela situação seria tentar apagar quaisquer provas do sucedido e zarpar. Com algum custo, carregaram o animal até à praia, cavaram uma cova bem funda, e meteram lá o porco. Taparam a cova, e ficaram descansados, ninguém iria dar por nada. Até que a maré começa a subir, e a pouco e pouco vai levando a areia. E não tardou muito que as quatro patas do porco, que havia sido enterrado de barriga para cima, já estivessem à vista.

Exaustos após tanto trabalho, sem comer, e já a noite ia bem dentro, a única solução seria estarem bem longe dali quando alguém desse com a carcaça do porco. Eram quatro da manhã, e fizeram-se à estrada. Na manhã seguinte, o admninstrador da roça de Porto Alegre, Esteves, andou à procura deles, furioso. Se os tem apanhado, nem se sabe o que teria feito. Entretanto foi à cidade apresentar queixa, e o meu avô Sebastião, o pai do Elvido e os pais dos restantes tiveram que pagar o porco para que as coisas acalmassem e o admninstrador Esteves ficasse descansado e não fizesse nenhuma represália para com o grupo, que por essa altura, caminha para norte no lado nascente da ilha, talvez por caminhos secundários para não serem apanhados.

As peripécias desta aventura não se ficam por aqui, e até chegarem à cidade, ainda haveriam de fazer mais das suas. A seguir.