Sé de São Tomé.

Logo quando cheguei, trazia uma encomenda da UPP ( United Photo Press ) para entregar a um jornalista local, de nome Adilson Castro. O número de telefone que me veio fornecido devia ser já antigo, e faltava um algarismo, pelo que não consegui contactar a pessoa telefonicamente, restando-me perguntar pelo nome a ver se alguém conhecia. Aqui em São Tomé diz-se solicitar. Quando se procura alguma informação, sobre uma pessoa ou assunto, diz-se “vou solicitar”. Foi só um aparte.

Lá me disseram que o rapaz trabalhava na Cacau. Bem que quando entreguei as coisas, mostrou-se surpreendido, mas pronto, aceitou o material e ficou-se por aí. Esta semana, recebo o contacto da irmã do tal jornalista Adilson Castro a perguntar-me quando entregava o material. Fiquei confuso. Mas eu já não entreguei as coisas? Afinal não. Entreguei-as ao Adilson Castro errado. Bem, lá terei que resolver a questão, ir à Cacau e pedir o material de volta. Agora já tenho o contacto certo do Adilson Castro correcto.

Ontem de manhã ainda andei um bom bocado a pé. A actriz portuguesa Isabel Damatta nasceu em São Tomé, numa casa junto ao mercado municipal, que era um antigo restaurante chamado Yong, explorado pelos seus pais. Através do Facebook pediu-me que fotografasse a respectiva casa no seu estado actual. Fui à Cacau e o Adilson Castro, pintor, e pessoa a quem entreguei as coisas que se destinavam ao seu homónimo, não estava. Então segui para a baixa da cidade e procurei o tal edifício onde a Isabel nasceu. O meu pai falou-me do restaurante Yong, que era muito conhecido e onde iam lá comer camarão da serra. Não faço ideia que camarão é esse. Aqui já comi camarão do rio, que tem uma carapaça dura, mas não gostei muito. Até agora prefiro mesmo o do mar.

De caminho, na Pereira Duarte, parei no Café & Companhia para tomar um café, esse hábito bem português. Ainda estou para perceber porquê que no país que já produziu o melhor café do mundo, que ainda tem as antigas e originais árvores de Libérica, que depois viriam dar origem às variadas castas de Arábica, nos sítios onde tenho tomado café, tem sido uma autêntica porcaria. Por acaso no Café & Companhia, soube-me bastante bem o café. Mas a máquina parecia-me ser daquelas da Nespresso ou similar.

O Claudio Corallo, além do chocolate, tem feito sucesso com o seu café Libérica e a sua mistura de castas Arábica. Não sei se fazem ideia, mas estas qualidades de café já não existem em mais parte nenhuma do mundo. As razões comerciais e de produtividade falam mais alto que a qualidade, e enquanto um hectar dos híbridos modernos produz 4 toneladas por ano, o mesmo hectar de libérica ou arábica antiga, produz setenta kilos. Penso não ser nada difícil perceber o caminho que a produção comercial de café tomou. A diferença, é que os setenta kilos têm aroma, sabor e cheiro, e não há comparação possível em termos de qualidade. Se alguém estiver a moer café deste, do bom, sente-se o cheiro a cem metros de distância, e até desafio alguém a pegar num grão e metê-lo na boca, e trinca-lo e degustá-lo. Não é amargo. É mesmo agradável. Agora, comprem uma embalagem de café num qualquer hipermercado em Portugal, mesmo do mais caro, premium, gourmet, ou algo assim, e façam o mesmo. Sou capaz de apostar que vão fazer uma careta e cuspir.

Entretanto cheguei à zona do mercado, e pelas referencias que me haviam dado, não encontrei a casa. Dei duas voltas aos dois mercados, o novo e o velho, fiquei desconfiado de que era um edifício ( que agora já sei que não era ), mas entretanto já andava um bocado farto dos candongueiros e taxistas e afins, que não me largavam. Já estava farto de dizer não quero, não preciso, e eles que nem moscas atrás de mim. À medida que nos aproximamos do mercado, não só aumenta o número de pessoas que encontramos, até ser uma autêntica multidão, como o som ambiente começa cada vez mais a se parecer com o zumbido de uma colmeia. Desta vez até tomei mais atenção a isso, e às tantas até me parecia white noise, aquele barulho de quando a televisão não está a sintonizar nenhum canal e só tem moscas.

Apesar de agora já estar um bocado bronzeado do sol que apanhei, e tirando esse mesmo facto no verão em Portugal, até tenho a pele ligeiramente clara, e aqui, toda a gente me chama de branco. Andava de um lado para o outro junto ao mercado, e vendedores, candongueiros, miúdos, dirigiam-se a mim “branco, cambio?”, “tio, dá dinheiro”. Andar com uma mochila às costas, uma máquina fotográfica semi-profissional ao pescoço e uma segunda objectiva na mão também não ajuda a manter a discrição.

Resolvi que voltaria no dia seguinte com alguém que sabe mesmo qual é o edifício do antigo restaurante Yong. Possivelmente também conseguirei fotografar a fachada do supermercado Pingo Dóxi. Na parte da tarde dormi um bom bocado. Estou a sofrer as consequências do jogo de futebol de ontem à noite, e, literalmente, dói-me tudo.

À noite, há jam session na Cacau. Saí um pouco antes das vinte e fui a pé. Cheguei lá e só ainda tinha chegado o rapaz cabo-verdiano que ia tocar percussão. Entretanto pedimos os pratos para o jantar. Apetecia-me peixe, e dos que a empregada me falou, escolhi o dourado, que, pensava eu que seria dourada. Quando chegou o prato, vi que era outra coisa diferente, mas era bom, e isso é o que interessa. Começou a chegar mais pessoal. Dos que tínhamos ensaiado ontem, era o Miguel na bateria, o Miguel na guitarra e no baixo também, o Miguel na guitarra e o irmão Alexandre na guitarra também. Supostamente seria o Pierre no teclado, mas não chegou a aparecer. Foi um tal João que depois ocupou o teclado. Eu só fui tocar guitarra em duas músicas enquanto o Alexandre foi fumar um cigarro.

Com tanto Miguel, lá percebi porquê que ontem não me lembrava do nome da malta. Entretanto, enquanto jantávamos, foram chegando mais pessoas, e aqui aconteceu mais uma daquelas coincidências de mundo pequeno. Enquanto mostrava fotografias antigas do meu avô, da colocação da placa no Pico Gago Coutinho e falávamos de São Tomé, surgiu a história do velho Marques que já aqui vos contei. A do casamento entre um homem e uma macaca. Quando falei o nome Marques, uma rapariga interrompeu-me. “Marques? O velho Marques era o pai da minha avó”. Também ela conhecia bem a história. O meu pai falou-me que o senhor Fernando Marques, gerente da Pereira Duarte, tem fotografias do tal casamento, a maior festa alguma vez vista em São Tomé, e que até tem a data no verso das fotografias. Ainda não tinha ido perguntar pelo Fernando Marques lá na loja da Pereira Duarte. Mas a Ana, esta rapariga, bisneta do velho Marques, informou-me que o Fernando Marques já morreu. Ela desconhecia também a existência das fotografias, mas ficou de tentar saber com a esposa do Fernando Marques.

Entretanto começou a música, e após o futebol, começaram a chegar mais pessoas e até já estava uma boa casa. Como vim sem chave de casa, acabei por sair mais cedo do que a maioria da malta, vim a pé para casa, pelo lado do mar. Passei o museu, o náutico e o liceu nacional. Era hora de ir descansar.