Crianças em Ponta Baleia.

Hoje são apenas umas pequenas linhas, só para não dizer que fica sem nada. Passei o dia de ontem ( a que se refere este texto ) literalmente sem fazer nada a não ser dormir, e trabalhar no computador. Também, choveu mesmo muito durante toda a manhã e grande parte da tarde.

Estou a fazer umas montagens fotográficas para o meu primo imprimir uns quadros para colocar no Pirata, e então esse trabalho consumiu-me grande parte da tarde.

Para compensar e conforme havia prometido, segue a primeira parte da história da volta à ilha a pé em Agosto de 1964.

Participaram nela o meu pai, Manuel Sebastião Correia, mais conhecido como Leão, o Elvido Viveiros, o já falecido Carlos Heitor, o Isaías, o Sebastião, que era conhecido como Jaca, e finalmente, o Esteves, a quem tratavam por Doutor, e que por ter conhecimentos de Enfermagem, ficou, entre outras coisas, encarregue de transportar o antídoto para a picada da cobra preta.

Eram todos rapazes dos seus dezassete, dezoito, dezanove anos na altura da aventura, e toda a viagem teve uma afincada preparação, que passou pela procura de patrocinadores até à recolha de comida enlatada e massas.

Ao segundo dia de viagem, nas Neves, decidiram fazer uma peladinha de futebol, e entreteram-se na jogatana durante um bom bocado. No final do jogo, alguns sentaram-se no chão, e outros, por ser mais confortável, usaram as mochilas para se sentarem, sendo mais confortável. Continuaram viagem, e tal como agora, o pavimento termina em Santa Catarina. Ainda é uma boa extensão até Porto Alegre, no sul, em que se tem que atravessar mato, em plena floresta Obô por pequenas veredas. São três dias de caminhada, a subir e descer encostas junto ao mar, algumas bastante perigosas. Noutras partes é necessário embrenhar-se na selva, e o machim ( catana ) é um instrumento muito importante para ajudar a desbravar caminho. O grupo demorou cinco dias, pois vinha das Neves.

Pela forma como organizaram a viagem, pernoitavam em roças, telefonavam para a cidade, para o Rádio Clube, que informava na emissão sobre o local onde se encontrava o grupo, e qual a roça de destino no dia seguinte. O objectivo era anunciar a sua chegada ao final de cada dia, e também sossegar as famílias.

Depois de Santa Catarina, o admninistrador da Roça Bindá, o senhor Amaral, um fulano muito gordo e barrigudo, mandou um guia ao encontro do grupo. Eles iam já a meio caminho pelas veredas quando o guia os encontrou, e chegaram à Roça Bindá ao anoitecer, pois o guia andava muito depressa. Estavam exaustos devido à célere caminhada.

Dos seis do grupo, o meu pai, o Elvido e o Jaca eram brancos, e o Doutor, o Heitor e o Isaías eram de cor. O admninistrador manda chamá-los para os conhecer, e diz para o servente dirigindo-se aos brancos “Estes três senhores jantam comigo, os outros três rapazes comem na sala de jantar dos empregados”. Ficaram todos a olhar uns para os outros, e dizendo que o grupo são seis, recusaram a oferta para jantar. O Amaral ficou furioso, dizendo que quem manda na roça é ele, não tendo outra opção eles senão sair sem jantar.

Dirigiram-se aos quartos que lhes haviam sido destinados, e mesmo os quartos tinham sido preparados de forma diferente, um para os três brancos e outro para os três de cor. Acabaram por ficar os seis no mesmo quarto, e tiveram que fazer uso das suas provisões para se alimentarem.

A minha avó Bárbara, havia ensinado ao meu pai uma sopa de ervilhas. Que bela oportunidade para se armar perante os colegas. Vamos fazer sopa de ervilhas. Pediram uma panela na cozinha, e seguiram ao trabalho. O meu pai armado em cozinheiro, lá fez um refogado, como a minha avó ensinara, meteu as ervilhas, e quando chega a parte do arroz, o artista espeta com o saco de um kilo todo lá para dentro. Ah pois, o resultado seria de prever. A água desaparecia, e o arroz crescia. Metiam mais água, a mesma sumia, e o arroz crescia. Às tantas já saía arroz para fora da panela. Acabou tudo a gozar com os dotes culinários do meu pai, e aproveitaram o que se podia comer do arroz, juntando rodelas de chouriço e outras coisas.

No dia seguinte não viajaram, pois estavam ainda cansados e a recuperar da caminhada do dia anterior. Passearam pela roça e descansaram, voltando a comer no quarto. Com o nascer do sol do dia seguinte, saíram em direcção à roça de Porto Alegre, desta vez sem guia, pois por represália à recusa do jantar, o admninistrador Amaral não lhes disponibilizou guia.

Seguiram pelas veredas, até que foram parar a uma praia, em se sentiram perdidos. Não havia vereda para sair. Já era tarde e pouco havia a fazer na altura. Montaram as tendas e por ali ficaram. Por sorte deles, o admninistrador Esteves, da roça de Porto Alegre, já havia mandado um guia ao encontro deles também. Viram um rapaz a chegar pela praia, que lhes disse ter sido enviado pelo amninistrador da roça, e desmontaram as tendas. Não tinham visto o trilho em direcção ao sul, pois o mesmo encontrava-se um pouco rio acima. Tiveram que subir um pouco o rio, dentro de água, até que voltou a aparecer a vereda.

Chegaram a Porto Alegre, e estava feita toda a costa ocidental da ilha de São Tomé. Era também a parte mais perigosa, pois além de encontros com macacos e armadilhas do terreno, há também cobras, que são fatais.

O resto do caminho, até à cidade de São Tomé, já seria feito por estrada pavimentada. O Doutor, aliviado por tudo ter corrido bem, chamou-os a todos. “Tenho uma coisa para vos dizer”. Como havia dito no início, o Doutor era o “médico” de serviço, e o transportador do antídoto para a cobra preta. O que se tinha passado, foi que fizeram 5 dias de caminhada, selva dentro, sujeitos a serem mordidos, sem as âmpolas do antídoto. Após o jogo de futebol nas Neves, quando no final descansaram, o Doutor sentou-se na mochila por ser mais confortável e partiu as âmpolas. Não lhes disse nada, pois se o tivesse feito, nunca eles se teriam aventurado sem protecção contra as cobras. Ficaram todos exaltados e chateados com o Doutor, pois foi de uma grande irresponsabilidade, e podia tudo ter corrido para o torto. Felizmente que não, e agora o que restava da viagem já era mais simples.

Havia apenas um senão. Tinham fome, e já haviam acabado as provisões. E alguma coisa teriam que comer. Mas essas história fica para uma próxima vez.