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Pouco passava das cinco da manhã quando o Ricardo me veio acordar. A minha tia Carmo e o meu primo Ricardo iriam ser a minha companhia na visita ao Ilhéu das Rolas. O plano seria sair às sete da manhã, pois o barco que faz a ligação entre Ponta Baleia e o Ilhéu sai às dez da manhã. É uma viagem de sessenta e poucos quilômetros até Ponta Baleia, mas a estrada tem muitas curvas, e como havia explicado no ano passado, é como conduzir na serra, fazendo o trajeto lembrar-me de quando se vai de Portimão até à Fóia de Monchique, mudando, claro a vegetação, e o mar, a pique de um dos lados da estrada, a ver-se aqui e ali lá em baixo. Alguns morros e picos são impressionantes, esmagando-nos com o poder da natureza.

No ano passado, em que fiz esta viagem sozinho, demorei por volta de duas horas, mas em certas partes apanhei a estrada em muito mau estado. Ainda fomos ao Pirata levar peixe que o Hamilton comprou, e por volta das sete horas já estávamos de caminho em direção ao sul.

A azáfama era muita, e o movimento, até chegarmos a Santana é sempre muito também. Muitos táxis, carros e carrinhas Hiace amarelas, cheias de gente, e muito motoqueiros também. Muita gente a pé pelas bermas da estrada, mulheres com alguidares, caixas e roupa na cabeça. A roupa lava-se no rio, e muitas mulheres chegam a fazer muitos quilômetros de casa até ao ribeiro mais próximo. Meti a GoPro no tablier e aqui e ali ia gravando, com o intuito de mostrar muito daquilo que escrevo aqui.

Paramos pouco depois de Água-Izé para comer qualquer coisa. Umas bolachas, um pão e um sumo, e tratar de algumas necessidades fisiológicas, e pelas minhas contas, estávamos a viajar num bom ritmo. A quase metade do caminho e apenas tinham decorrido quarenta minutos de viagem.

Será uma daquelas imagens que nunca deixará de impressionar, mas quando se faz aquela curva em que depois nos aparece o Pico Cão Grande pela frente, é, por muitas vezes que se faça esta viagem, algo esmagadoramente belo. A imponência daquele pedaço de rocha com seiscentos metros de altura, ali a irromper na paisagem, majestoso. A estrada anda ali um pouco aos esses, e durante um bom bocado o pico está sempre lá. Desparece por meia dúzia de quilômetros, e muitas curvas depois, de repente, ali está ele à nossa frente de novo, desta vez muito perto mesmo.

Apanhamos algumas pontes em construção ou reparo, e já muito perto do nosso destino é que apanhamos alguns troços em mau estado, havendo mesmo lá uma subida que tem uns 40 metros sem alcatrão, com o chão mesmo em pedra, e que culmina numa rampa íngreme e esburacada, que me leva a indagar como é que as hiaces ou o autocarro do Pestana conseguem subir aquilo.

Eram nove e meia quando passamos por Ponta Baleia, e pouco depois, após uma curva em que está um enorme pedragulho a tapar uma das vias da estrada, está o acesso para o cais onde se apanha o barco. A viagem demorou menos do que tinha previsto, e tal facto prende-se também com as reparações que foram feitas. Entre Água-Izé e Angolares a estrada está mesmo muito boa, e mesmo até ao Pico Cão Grande.

Tinhamos tempo, e fomos até Porto Alegre, onde demos uma volta na roça, e voltamos. Paramos em Malanza, onde perguntei pelo senhor Miguel. Por coincidência o rapaz a quem perguntei reconheceu-me logo do ano passado, e era o Silvano, filho do senhor Miguel. O senhor Miguel é pastor de bois, e estava no mato. Combinamos voltar ao fim do dia no regresso do Ilhéu, e fomos para Ponta Baleia.

O acesso da estrada até ao cais é mais um pedaço de má estrada, um trilho de pedras e terra, com alguns sulcos profundos.

Já lá estavam umas pessoas, estacionei o carro e o guarda pediu-me algum dinheiro para tomar conta do carro. Estavam por lá muitos miúdos, a tomar banho e a brincar. Ainda meti conversa com algumas meninas pequenas, que tomavam conta de outras ainda mais pequenas, que envergonhadas me disseram os nomes.

Era sábado, muita gente vai passar o dia ao Ilhéu, e o barco só leva dezasseis pessoas de cada vez. Entretanto aparecem mais pessoas que me conheciam e se lembravam até do facto de no ano passado ter o pneu furado. “Os teus primos estão à tua espera no Ilhéu” diziam-me, e também diziam que a dona Umba já havia morrido, em Setembro. Eu entretanto já sabia, pois tinha telefonado a um dos meus primos do Ilhéu, o Beba, de quem tinha ficado com o número de telemóvel. Eles eram para nos preparar um almoço na praia, mas como o preço que pagamos ao Pestana pelo transfer já inclui almoço, ficou para uma outra vez.

Quando o barco chegou, fiquei a indagar do porquê que no Hotel Miramar me disseram que tinha que fazer reserva de lugar para o barco. O guarda e o responsável que vinham no barco diziam que as pessoas entravam no barco por ordem de chegada ao cais, mas assim que começou o embarque, algumas pessoas começaram a passar à frente e a saltar para o barco sem esperar a sua vez.

Lá nos sentamos e seguimos viagem. Agora o barco é um grande bote, uma vez que o pequeno iate que fazia antes a viagem, avariou. O ajudante do barco também é um primo meu, o Xico. A GoPro ainda tinha bateria, e fui fazendo mais uns filmes durante a viagem, que dura cerca de vinte minutos. A bateria entretanto acabou, e fiquei arrependido de não ter trazido o portátil, pois poderia recarregar a bateria e fazer umas filmagens debaixo de água no ilhéu.

Fomos recebidos com umas toalhas frescas e água de côco, fui cumprimentar o Pedro, que estava lá junto ao cais, e fomos para o resort. Aventurei-me um pouco na praia que fica junto à piscina do resort, a água estava bem quente, mas arrependi-me pouco depois.

A praia tem muitas pedras, e só uns metros mais à frente tem, dentro de água, uma parte com areia. Comecei a andar sobre as pedras, e até eram daquelas, que tendo musgo, não escorregam, até parece que têm mais aderência. Descansado fui andando em direção à parte onde o fundo é de areia mais à vontade. Até que mandei um grito para dentro. De repente, as pedras são bicudas, e picam, e já nem sabia para que lado meter os pés.

Voltei a para trás e desisti desta praia. Após um pouco na piscina, fomos até à praia de Santo António, que fica perto do restaurante. É uma praia muito perigosa, mas também muito bonita. A corrente marítima é muito forte, e também tem muitas pedras. Mesmo com a água pelos joelhos se sente a corrente a puxar com muita força.

Voltamos para o resort, pois o Ricardo só queria piscina, e como ainda faltava uma hora para o almoço, resolvi ir explorar um pouco mais da ilha e fazer umas fotos.

Como uma das praias que referiam como muito boa supostamente era perto, fui para lá. Passei a Praia Pesqueira, que fica junto à comunidade que habita o Ilhéu, os quais são quase todos meus primos, e segui para a Praia Café. Areia branca, árvores que fazem sombra até quase ao mar, e a água, bem a água…fiquei 15 minutos dentro de água e já não queria sair. Límpida e quente, nem sei explicar. Já meti um vídeo ( que por acaso foi feito na parte da tarde ). Entretanto fazia-se hora de almoçar e voltei ao resort. Fomos almoçar com vista para o sul de São Tomé. Da mesa onde ficamos viam-se as sete pedras, que é uma pequena formação rochosa que sai do mar em frente a Ponta Baleia. O almoço era buffet, tinha carne, polvo e várias saladas. Algumas das pessoas que estavam a almoçar faziam valer os vinte e cinco euros da travessia, e tinham os pratos atulhados a fazerem pico e tudo.

Depois do almoço, fui com a minha tia e o Ricardo de novo até à Praia Café. O Ricardo ficou o tempo todo dentro de água. Entretanto chegou o Pedro e o Augusto. Com o machim o Pedro subiu a um coqueiro e fez cair alguns côcos. Depois descascou-os e deu-nos para beber a água e comer a polpa. A minha prima Xiquita, que trabalha na cozinha do hotel, saía às duas e meia, e então, pouco depois das três, fomos até à comunidade, onde ela e o tio Januário nos esperavam.

A minha tia distribuiu rebuçados e bolachas pelas crianças, e eu fiquei a conversar com o Pedro, o Beba e o Augusto enquanto bebíamos umas Rosemas bem geladas. Depois despedimo-nos de toda a gente e fomos para o cais, pois já se fazia hora de partir.

Ainda fomos a Malanza, e o tio Miguel estava lá, junto à curva. Falamos um pouco com ele. Por ali é o último da família. Todas as pessoas mais velhas já morreram, só está ele e os filhos. Alguns estão no Gabão. O engraçado desta viagem, foi ver como as pessoas ainda se lembravam de mim, tanto no Ilhéu como em Malanza, após quase um ano de ali ter estado. Enquanto falávamos com o tio Miguel, passavam pessoas que diziam “olha, é o neto do senhor David”.

Já eram cinco da tarde, o sol põe-se às seis, e aqui o sol posto, tal como o nascer do sol, é um instante. Estamos em cima do equador. Voltamos e curva após curva após curva, íamos deixando o caminho para trás e o cansaço entrar. Após Água-Izé já era noite, e ainda tinha muito caminho pela frente.

Já vos falei do stress que é conduzir à noite em São Tomé. A partir de Santana já há muito movimento, e a atenção já não é apenas para com as curvas, subidas e descidas. Não há iluminação. Há pessoas e crianças nas bermas que quase não se vêem, e pior, motas sem luz, e até passei por carros, e um camião cheio de gente na caixa, sem iluminação também. Atrás de cada curva pode estar um carro parado no meio da via, de luzes apagadas e nas localidades as pessoas estão todas no meio da rua. Além das pessoas, há sempre cães, galinhas, porcos e cabras a passar, e esses nem sempre se desviam com a chegada de um carro. Metemos pelo Pantufo, o que depois percebi que foi um erro, pois aí então a estrada é mais estreita, e está literalmente toda a gente no meio. Depois há carros estacionados de um lado e de outro, e motoqueiros a passar. Acho que estes poucos quilómetros até à cidade me custaram mais que toda a viagem anterior.

Enfim chegamos. Um bom banho para tirar a areia e jantar. Eu tinha resolvido não fazer mais nada de noite, mas enquanto o Benfica ganhava, comecei a editar as muitas fotos, e acabei por terminar esse trabalho. Depois foi mesmo hora de dormir, que o cansaço era muito.

Os cães, esses, continuam a ladrar, mas cada vez incomodam menos. Talvez seja de estar exausto, mas o ladrar dos cães está cada vez mais ao fundo, cada vez mais distante.