Vista para o Ilhéu das Cabras, perto do Hospital.

Hoje não foi um dia muito produtivo. Como choveu, acabei por não sair durante o dia, mas vou compensar com uma estória, que é mais uma história, pois é verídica, embora possa ter um ou outro facto empolado. Chegou até mim através de relatos de várias pessoas, não sei se há algo mesmo escrito, mas foi-me confirmado que existem fotografias do evento principal do que vou contar. O meu pai falou-me num pequeno estabelecimento, junto ao mercado, que é o Marques dos táxis. O Marques tinha um busto em gesso do meu avô Sebastião na estante por detrás do balcão. Vendia peças de automóvel, óleo, sandes, petiscos, café, e tudo o mais que pudesse vender. Ao que soube, já morreu, eu não encontrei a loja, e o meu primo disse que já deve ter morrido.

A história que vou contar não é deste Marques, mas sim do seu pai.
Para vos situar, há que explicar um pouco do que era o São Tomé colonial, e uma boa comparação, uma vez que em Portugal acabou de passar a telenovela Gabriela, ou no passado telenovelas como Pantanal, são aqueles coronéis latifundiários que basicamente eram a lei do local. Em São Tomé era assim. Os grandes proprietários das roças e os grandes senhores andavam de pistola à cintura, qual faroeste americano, e tinham palavra de lei. Pode parecer exagero, mas alguns destes senhores tinham das maiores fortunas da época, Portugal, através de São Tomé, era o maior produtor mundial de café e cacau, e a mão de obra barata e todo o sistema de dependências e transportes ( incluindo caminhos de ferro ) entretanto à sua disposição, tornavam ainda mais lucrativo um negócio que já estava por si só no auge. Para se perceber também o poder destes senhores, nem mesmo o governador da província ultramarina, representante do estado, poderia entrar nas roças sem antes se fazer anunciar.
Estes senhores vivam nas suas roças e poucas vezes vinham à cidade. Não frequentavam as tabernas nem os cafés, mas quando tinham assuntos a tratar na cidade e apareciam, faziam questão de mostrar a sua posição, e mostrar as armas que traziam no coldre era uma dessas formas.

O Marques era um desses senhores. Mais tarde morreu na miséria, mas nos anos vinte e trinta era um senhor poderoso e temido. Nasceu na fortaleza da Praia da Rocha, tinha família em Portugal, e não me recordo bem desta parte, mas a sua vinda para São Tomé penso ter tido algo a ver com algum tipo de castigo, ter sido desterrado ou algo assim. Deixou filhas em Portugal.

Estava na altura muito em voga umas revistas/jornais com uma espécie de classificados, e em que as pessoas se correspondiam. Como nem toda a gente tinha casamentos arranjados, metiam anúncios para procurar companhia, nem que fosse apenas de correspondência. Um fulano, solteiro, que estava sozinho e trabalhava em São Tomé, colocou um anúncio, referindo o facto que se encontrava em serviço na ilha. São Tomé e Príncipe despertou a curiosidade de uma filha do Marques que se encontrava em Portugal. Era a terra onde o pai dela estava, e isso levou-a a responder ao anúncio. Para o rapaz, receber uma carta da filha do Marques, era mais do que o simples sucesso do seu anúncio, pois caso culminasse em conquista, seria uma entrada para um mundo superior ao seu, e a entrada na família de um grande senhor da ilha. Entrou na taberna eufórico, de carta em punho, e a dizer “sabem quem me escreveu? Sabem quem me mandou uma carta? A filha do Marques, a filha do Marques, ainda me vou casar com ela!!”.

Num meio pequeno, nem seria preciso qualquer grande senhor frequentar estes estabelecimentos para saber qualquer assunto que por lá fosse falado. Como tal, numa das noites seguintes, o burburinho habitual de um estabelecimento muito frequentado interrompeu-se, qual saloon quando entrava um forasteiro misterioso armado e toda a gente olhava. Desta vez não era devido a um forasteiro, mas não deixava de ser motivo de espanto. Entrou o Marques, fazendo questão de desviar o casaco para que os revolveres que levava à cintura, de um lado e outro, fossem bem visíveis. Fez-se um silêncio ensurdecedor, interrompido pelo Marques, “quem é o fulano que diz que vai casar com a minha filha?”. Qualquer um apontaria logo para a pessoa em questão, mas deve ter sido apenas nesse momento que o rapaz percebeu o sarilho em que estava metido, e sendo que pouca escolha teria, mais valia acusar-se logo. “Com que então o senhor quer casar com a minha filha?”. “Ah vai casar sim, vai casar, e ai de si que não apareça no casamento que é melhor meter-se ao mar e começar a nadar antes que eu o encontre!!!”.

E marcou a data do casamento. Toda a gente percebeu que boa coisa dali não iria sair. Quanto ao rapaz, pouca hipótese teria senão comparecer e esperar que fosse o que fosse que lhe estivesse destinado, que não fosse muito mau. Fugir não era opção, não haviam navios todos os dias a recolher passageiros na ilha, e sendo uma terra pequena, seria difícil esconder-se, e qualquer pessoa não hesitaria em denunciá-lo ao Marques.

Diz-se que foi a maior festa até hoje já feita em São Tomé, que superou em muito qualquer das festas que anteriormente o Marquês de Valle Flor fazia no jardim botânico da sua Roça Rio do Ouro. O Marques foi o primeiro senhor da ilha a ter um Ford, aqueles carros clássicos, descapotáveis, dos anos 20. O Ford iria ser a frente do desfile, e toda a ilha foi convidada. Pessoas nas varandas do edifícios da cidade atiravam flores e uma multidão em êxtase aplaudia e ria. Sim ria. É que a filha que o Marques ia casar, não era nada mais nada menos que a sua macaca, a quem mandou fazer um vestido de noiva, e colocou sobre uma caixa no banco de trás para ficar à mesma altura do miserável noivo, que por esta altura devia maldizer toda a sua vida e a situação em que se havia metido. Foi a maior festa que São Tomé alguma vez viu, teve cerimónia na igreja e tudo, e consta que há fotografias do acontecimento.

O noivo, ao que se diz, nunca mais se deixou ver, e assim que houve navio saiu da ilha, tal foi a sua vergonha. O que é certo é que o velho Marques viria a morrer na miséria, perdeu tudo em maus negócios. Gostava de colocar as mãos nessas fotos.

Hoje era noite de Happy Hour no Pirata, e fui para lá pouco depois do jantar. Encontrei lá pessoal conhecido a jantar, um grupo de portugueses onde estavam o Miguel e o Jorge que antes trabalhava na Copinet. Enquanto fazia tempo por lá, ia fotografando umas coisas. A ideia era fotografar a festa no Pirata, mas no dia seguinte teria que me levantar muito cedo e conduzir até ao sul da ilha. Acabamos por adiar as fotos para a semana seguinte e o Hamilton veio trazer-me a casa. Começava a chegar muita gente, e pelo que soube depois foi um sucesso e uma grande enchente. Entretanto preparei as coisas para a viagem, carreguei a GoPro, e fiz-me ao sono. Amanhã há Ilhéu das Rolas.