Vista sobre a cidade de São Tomé, perto do Hospital.

A pedido de muitas famílias, com mais uma viagem a São Tomé, está de regresso o diário, e apesar de hoje ser dia 22, o relato começa no dia anterior.
Após 3 horas de autocarro, de Lagoa até Lisboa, apanhei o Aerobus que faz o trajecto Sete-Rios – Aeroporto, e cheguei ainda não tinha começado o check-in. Entretanto apareceu a minha prima Nila com algumas coisas para eu trazer. É algo muito comum, e vi lá muitas pessoas a pedirem a quem ia embarcar para trazer coisas de Portugal para São Tomé.

Tudo começou por correr bem, e acompanhei um jantar de comida de plástico com o meu clube a mandar duas “mêmo no pescoce”, enquanto com o telemóvel recebia desejos de boa viagem e encomendas para fotos, relatos, chocolates, jaca, safu e outras coisas.

Não havia muita gente na porta de embarque, que em cima da hora foi mudada, e lá seguimos no autocarro que nos levou ao avião.
Na mesma fila em que eu seguia, ia o Rui Reininho, vocalista dos GNR, com a sua companheira. Como já o conhecia pessoalmente, devido a um livro que ele apresentou na Fnac AlgarveShopping, meti conversa até começarem as instruções habituais nos voos de avião, só que desta feita, em castellano. Assim que me foi possível, já em pleno voo, liguei o portátil para me safar do filme foleiro em ecrã minúsculo e legendas em espanhol que passava para entreter os passageiros. Já me tinha precavido para a situação, e de fones nos ouvidos lá vi o Django Unchained, que há quase duas semanas guardava no disco do portátil para esta ocasião. O voo foi extremamente pontual, fui das primeiras pessoas a sair, e não tive problemas desta vez com o senhor do serviço de estrangeiros. Fez as perguntas da praxe, e mandou seguir, sempre de forma cordial. Nada a ver com a experiência do ano passado.

Enquanto esperava pelas malas, o Rui Reininho meteu conversa comigo, dizendo que era a primeira vez que cá vinha, que alguns amigos lhe haviam falado muito bem de São Tomé e Príncipe, mas que seriam apenas 3 dias, pois regressava a Portugal na sexta. Olhando para um painel publicitário do grupo Pestana, disse-me que ia para o Ilhéu das Rolas. Falei-lhe do documentário do Tó Trips e da mulher e ele confidenciou-me que ainda no fim de semana passado haviam estado juntos no casamento do Zé Pedro dos Xutos e Pontapés. Até um casal de góticos chegou no mesmo voo. Como eu vinha num dos lugares da frente, não vi mais do que as pessoas que seguiram no mesmo autocarro para o avião em que fui. Engraçado também foi ver a malta portuguesa que embarcou em pleno inverno em Lisboa, todos encasacados e com montes de roupa, a escorrerem suor pernas abaixo, e seguiu-se um festival de tirar roupa e meter nas sacolas, mochilas, etc. Só depois de sair do aeroporto é que vi que o Jorge, que conheci através do meu amigo Hugo quando cá estive em Março passado, também veio neste voo. Com um “havemos de nos ver por aí” nos despedimos, e tudo o que tinha corrido tão bem até aqui começou a descarrilar um pouco. A multidão ia ficando cada vez mais pequena na confusa saída do aeroporto, amigos, colegas, transferes dos hóteis e taxis iam levando os passageiros chegados, e eu ali, a ver se via o meu primo Hamilton. Tal como aquelas moscas que teimam em nos chatear, apesar de por várias vezes quase as emagarmos com uma palmada, os taxistas rodeavam-me e ofereciam-me os seus serviços como se eu fosse mel. “O meu primo vem buscar-me, deixe estar”. Mas às tantas só lá estava eu e meia dúzia de locais a ver passar o tempo. Liguei várias vezes para o Hamilton e para o Michel, e ninguém atendia. Entretanto, no outro telemóvel encontrei o número da Ita, e ela atendeu. Devido a uma falha de comunicação, eles pensavam que eu chegava no voo da sexta, e ficaram surpreendidos de eu já cá estar. Lá esperei um bocado e a Ita veio-me buscar. Já me começava a sentir desconfortável com os olhares dos agentes do serviço de estrangeiros que estavam na parte de fora do aeroporto.

Ainda passamos pelo centro da cidade, para fazer umas comprar e onde aproveitei para trocar dinheiro, dobras para o dia a dia local. Aquela confusão de sempre, que já havia explicado no ano passado, mas outra forma de tentar mostrar o que se ouve e vê, pensem numa pequena cidade de província, pequena e pacata, com ruas esburacadas e edifícios em mau estado, ali em meia dúzia de quarteirões, uma autêntica multidão que mais parece a praça do Rossio em Lisboa quando está cheia de gente. E mais uma vez aquela sensação de que o tempo aqui é diferente. Parece que o dia já vai longo, e olha-se ao relógio, e ainda são 8 e pouco. Chegamos a casa, e o Hamilton estava à minha espera. Fomos ao Passante tomar um café, encontrei o João Carlos Silva, com quem troquei umas palavras, e voltamos a casa. Ajudei a preparar o meu quarto, pois toda a gente tinha feito planos para me receber apenas na sexta, e como a minha tia precisava de comprar umas coisas, seguimos para o centro da cidade. Ainda demos umas boas voltas, lojas dos chineses, fui cumprimentar a dona Zizi na pastelaria Caju, encontrei o Miguel que trabalhava na Fundação da Criança e da Juventude, mas agora trabalha numa agência turística, fomos comprar jaca e aproveitei para comprar bananas vermelhas. Nunca tinha visto, deram-me uma a provar, e aprovei. Fomos pela estrada do aeroporto para comprar vinho da palma, e passamos no contentor azul, “restaurante” do meu tio Orlando, para marcar jantar para hoje. Para mim vão ser dois concons com fruta pão. Falo no futuro, porque à hora a que estou a escrever, ainda não saímos para jantar, mas não me fico por aqui que ainda tenho mais coisas para contar, pois este tem sido um dia meio torto. Após o almoço, fui ter com a Ita ao restaurante dos meus primos, O Pirata, para o qual eu fiz o logotipo. Peguei na minha nova GoPro para fazer uns filmezitos, e o raio da câmara estava a passar-se. Não me gravava mais de 10 segundos seguidos, bloqueava, o telemóvel perdia o contacto com a câmara, já me estava a passar. Tirei o cartão de memória e a bateria, e lá trabalhou decentemente. Fiz algo só para testar, nada de mais, e peguei na máquina fotográfica e comecei a fazer mais uns bonecos. De repente começo a ver um bichinho minúsculo, que pensava eu estar na lente. Qual o meu espanto quando percebi que o bicho estava no espelho da máquina, lá dentro. Era mesmo minúsculo, muito mais pequeno que um grão de areia. E ao tentar removê-lo, com o material de limpeza que tenho, ficaram umas manchas estranhas que se viam pelo visor. Fiquei passado. Quanto mais tentava limpar, pior ficava. Sabem como é, quanto menos se consegue resolver, mais se stressa. Entretanto, fiz a asneira de usar o líquido de limpeza, e ficou pior, de umas manchas pequenas, ficou uma mancha grande. Já pensava ter lixado o sensor da máquina. Passei a tarde toda a tentar resolver isto, e nada, lá consegui reduzir a mancha. Desisti e fui editar as fotos que havia tirado antes. Mais tarde voltei à limpeza, e lá consegui melhorar o caso, sendo que o estado atual é que o sensor está bem, pois está protegido atrás do espelho ( percebi isso quando no menu meti a limpeza manual ), e após alguns testes, percebi que apesar de quando meto o olho no visor, ainda ver lá umas coisitas, as fotos ficam bem. Fiz uns testes e passei fotos para o computador, e lá fiquei mais descansado, mas mesmo assim, ainda terei que tentar limpar o que falta. Sem líquido!!!

E pronto, que a conversa já vai longa, e já vai sendo hora de ir atacar no concon com fruta pão. Ainda vou passar pelo O Pirata para fazer umas longas exposições ( desta vez não ficou a peça do tripé em Portugal ), e passar no Miramar para meter isto na internet.

O concon estava bem bom. Chegamos lá ao Paraíso dos Grelhado, conhecido por muita gente como o Contentor Azul, e cumprimentamos o meu tio Orlando. Fui com a minha tia Carmo e o meu primo Ricardo. A fruta pão já estava assada, e os concons temperados e à espera de ocuparem o seu lugar na grelha. Vários clientes jantavam, e um grupo de portugueses conversava e bebia umas Rosemas numa das mesas. Os cães escanzelados passeavam-se de um lado para o outro, à espera que uma espinha ou outra fossem parar ao chão. Na pequena televisão do contentor, sintonizada na TVS, passavam videoclips de artistas locais. A TVS é um mimo, e o amadorismo com que deve ser feita transpira por todo e cada minuto de emissão. Os spots publicitários então, são de se ir às lágrimas, e nos dias de hoje, em que a publicidade passa por dias tão complicados em que quase é preciso ir ao ridículo para algo ser notado, no meio de tanta ingenuidade e falta de meios da televisão local, é digna de registo a imaginação e a capacidade de improviso de quem cria aqueles momentos épicos de mau gosto televisivo. Atenção, que eu digo mau gosto, mas não é de forma pejorativa, mas mais como algo castiço, mal feito, mas que tem o seu quê de encanto.
Entretanto, a martelo, começam a transmitir o Argélia – Tunísia, da Taça Africana das Nações, já o jogo ia a meio da segunda parte. Ora digam lá se interromper um momento de publicidade épica da Pensão Avenida, com um jogo de futebol já a meio da segunda parte não tem, só em si, um pouco de magia!

Sentamo-nos, e alguns lobos teimavam em chatear-me e subir-me as pernas. Aqui em São Tomé, lobos, são uma formigas pequenas que há por todo o lado. Enquanto a minha tia Carmo metia a conversa em dia com a cunhada, eu e o Ricardo esperávamos pelo concon que víamos lá ao fundo em cima das brasas. Desviamos o olhar para a estrada, para de repente assistirmos ao atropelamento fatal de um pequeno cão. Em defesa do condutor, era impossível evitar aquele desfecho, e até me parece que nem deu pelo que aconteceu, apenas deve ter sentido que pisou algo. Em relação ao pequeno canídeo, quase que a situação poderia passar por um suicídio. O animal estava no passeio, a observar, e assim que a Toyota lhe chegou à frente, quase poderia ter dito “é agora, adeus mundo cruel” e atirou-se autenticamente para debaixo da viatura, mandou dois ganidos, correu uns dez metros e caiu inanimado. A ideia com que fiquei, foi que só eu é que reparei no sucedido, e só eu parecia ter pena da pequena criatura, estranhando até a forma desinteressada com que os transeuntes passavam junto ao corpo do cão. Mesmo uma pessoa que estava a poucos metros do atropelamento quase nem pestanejou, e parecia-me que toda aquela situação tinha tanta importância como o facto de alguém atravessar a estrada, o sol nascer todos os dias ou o concon estar quase no ponto.

Isto leva-me a outra análise, que já havia feito no ano passado, sobre a importância dos animais domésticos aqui. Quem tem cães em casa, normalmente tem carinho pelas criaturas, mas os cães e gatos vadios, que não são poucos, magros que quase se pode tocar xilofone nas suas costelas, são como se fossem uma sub-espécie, literalmente abaixo de cão, completamente ignorados por quase toda a gente. Outra coisa que sempre reparo, é que este cães de rua são extremamente tímidos e desconfiados e frios. Austeros mesmo, não valorizando sequer algum carinho. Vidas inteiras de luta por um pouco de lixo, completamente desprezados, sem nunca lhes terem feito uma festa sequer, deixaram-nos assim. Em Portugal não se vêem muitos cães abandonados nas cidades, mais nas pequenas vilas e aldeias, e mesmo assim, quando alguém passa por um cão vadio, normalmente faz uma festa, ou assobia, ou tem um qualquer gesto de afecto. Aqui não, aqui é como se os cães nem lá estivessem ou fossem invisíveis. Quando assobio a algum cão, bato com a palma da mão na perna como que chamando, recebo em troca um olhar desconfiado e antagónico, às vezes um pequeno rosnar até, entendo logo a mensagem de que me devo é meter na minha vida e seguir caminho.
O corpo do cão lá estava, a arrefecer no passeio, do outro lado da estrada, onde nós estávamos, ali em plena baía de Ana Chaves, na marginal. Indiferente a quem passava, tal como quem passava lhe estava indiferente. Comemos o concon, pagamos e seguimos, e ao passar pelo animal apenas confirmei o que já sabia. Estava mesmo morto, de boca e olhos abertos, mas lá já não morava.

Fomos até junto do mercado, à gelataria Gelidoxi, que é propriedade de uma senhora amiga da minha família, a quem a minha avó e tias me tinham pedido para ir lá dar cumprimentos. Perguntei pela dona Elisabete Pires, e tinha acabado de sair. Só amanhã. Entretanto chegou lá o Hamilton, aproveitamos e comemos um gelado. Eu escolhi um cone com uma bola de jaca e voltamos para casa. Ainda fui ao Hotel Miramar fazer upload das fotos e meter algumas conversas virtuais em dia. Saí de lá com mais umas belas picadas de mosquito. Em Portugal os mosquitos, onde os há, nem me tocam, aqui, em todo o lado, é o mesmo, mas os do Hotel Miramar são especiais e não me largam, alimentando-se fervorosamente do meu sangue.