Embondeiro e árvore de tamarindos na Praia da Lagoa Azul.

Levantei-me por volta das dez da manhã. Acordei bastante cedo até, deviam ser umas sete, mas voltei a adormecer entretanto. Vesti-me e esperei a minha tia. O Adilson já estava lá fora à espera. Entretanto foi levar a Ita ao Pirata, e também o Ricardo, o Jimmy e a Aline que estão cá a passar o dia hoje. Iam para a praia em frente ao Pirata.

Eu, a minha tia e o Adilson fomos fazer compras. Primeiro paramos no Intermar, na Pereira Duarte. Parece uma daquelas vendas do antigamente, apesar de já ter caixas computorizadas. O balcão dá a volta a quase toda a loja, e os produtos estão do lado de dentro do balcão. O empregado acompanha a compra do cliente do início ao fim, até ao pagamento. O sábado é um dia de compras, e havia algum movimento na loja.

Entretanto aproveitei e fui ao lado, ao Café & Companhia, que ao que me parece agora chama-se Xico’s Café. Já havia dito, mas repito, que foi até agora, o sítio onde bebi melhor café em São Tomé. Estar na rua na Pereira Duarte é sinónimo de aturar meninos de rua. Sempre a pedirem dinheiro, colados que nem carraças, e ainda por cima malcriados. O pior é que as mães é que os mandam pedir. Cada vez que vêem brancos, lá vão eles, como um enxame a rodear as pessoas.

Seguimos para o mercado velho, e fomos ao Pingo Doxi. O sistema é o mesmo que no Intermar, as coisas dentro do balcão e os empregados a servir o cliente do início até ao pagamento. Só que aqui não há caixas computorizadas, está lá o libanês que é um dos donos, com uma calculadora e um saco com dobras.

Às vezes o meu cérebro parece que para. A sério. Tenho com cada uma que me deixa receoso pela minha sanidade. São Tomé já tem um híper mercado. Chama-se Super CKdo, e até já lá tinha estado na semana passada com o Hamilton. É uma espécie de Pingo Doce. Já vi chamarem-lhe uma espécie de Lidl, mas acho que este consegue estar num patamar acima. Parece que é de capital gabonês. Até está bem organizado, deve ter uns oitocentos metros quadrados e o ar condicionado torna mais agradável estar lá dentro do que na rua. Bem, desde que cá estou, que tenho ouvido várias pessoas a falarem em ir ao “secador”. Com sotaque santomense, “sécadô”. Sempre pensei que fosse algum sítio ( aqui também há um supermercado chamado Colombo ). Foram precisas quase duas semanas para o meu cérebro fazer faísca e perceber que “sécadô” era “CKdo”. No comments.

O almoço era calulu. Como hei-de explicar o que é o calulu. Penso que a forma mais simples é tentarem imaginar um caril, mas com muito molho, com uma cor que anda entre o verde escuro e o amarelo. Leva muitas ervas, e pode ser de peixe ou de galinha, embora saiba que há zonas em São Tomé onde o fazem ( ou faziam ) com macaco. É acompanhado de fuba, que é uma espécie de papa de milho que fica quase sólida, e farinha de mandioca. Não gosto nem desgosto. Apenas acho complicado perceber os pedaços da galinha no meio do molho, e estou sempre a morder ossos.

Da parte da tarde tinha planeado ir à praia. Desta vez não seria a Lagoa Azul, mas sim Fernão Dias. Até é mais perto. E tem um enorme barco encalhado mesmo na praia, que deverá ser um excelente motivo para fotografar. Mas fazer planos em São Tomé nem sempre dá resultado, e entre a chuvada que de repente caiu após o almoço, e a saída para visitar as filhas do meu falecido tio Mindo, saímos de casa já um pouco tarde.

Encontrar a casa de alguém sem saber onde a mesma fica também não é pêra doce. Mas há sempre alguém que conhece alguém. Meti algumas t-shirts que trouxe de Portugal e a mochila com o material fotográfico na carrinha, e lá fomos para Manga Manga.

Seguimos na direcção do aeroporto, e ainda na marginal já podíamos ver a azáfama na zona de São Pedro, onde o meu tio Orlando tem o Paraíso dos Grelhados. Onde antes costumava estar isolado, agora há barracas por todo o lado, e duas discotecas improvisadas com chapas. Discoteca móvel Dj Cabelo na Área, pintado a spray amarelo, pude ler numas chapas. Gente por todo o lado. Viramos para a estrada que vai para o norte, ou seja, Guadalupe, depois Neves.

Manga Manga fica ainda na cidade, um pouco depois de se passar o quartel. Paramos para perguntar a algumas pessoas junto à estrada, mas ninguém parecia conhecer a dona Gina, que vive com um senhor mulato chamado António. Metemos mais para dentro e voltamos a perguntar. Um rapaz disse saber e pediu para o seguir. Quando se sai do pavimento e se entra na terra batida, mesmo com um todo o terreno, não é fácil, e é preciso ter alguma perícia na condução. Há partes em que ter estrada ou não ter, vai dar ao mesmo, os buracos e sulcos no chão são autênticas crateras ou vales, e com a chuvada que caiu, as poças de água e a lama, a viatura muitas vezes dá de lado, o que num caminho pouco mais largo que a viatura, pode dar azo a entrar para dentro do quintal de alguém. As casas aqui são todas de madeira e chapa de zinco. Colocadas sobre pilares, onde na parte de baixo as pessoas têm latrinas e os animais comuns, como cães, porcos, galinhas ou pombos. Entre as casas há fruteiras ( a árvore da fruta-pão ), bananeiras ou mangueiras. Outro dos problemas quando se entra para dentro destes caminhos, é que para voltar para trás, é um ver se te avias. Ou se segue em frente até descobrir uma saída, ou numa qualquer encruzilhada lá se consegue fazer inversão de marcha. Com algum cuidado, que com a lama, os constantes motoqueiros, animais ou pessoas a passar, e o pouco espaço, cheio de buracos e sulcos cada manobra é um desafio. Afinal a senhora que o rapaz dizia, não era a pessoa que procurávamos.

Voltamos para a estrada, e após perguntar a mais umas quantas pessoas, já estávamos a pensar desistir. Até que quando estávamos quase de novo na estrada de Guadalupe, a minha tia resolveu perguntar a um taxista que estava parado no cruzamento.

Não sabiam, mas ao passar um senhor, perguntaram, e finalmente se fez luz. O senhor entrou no carro e lá nos deu indicações. Subimos um pouco mais a estrada e lá entramos num caminho, daqueles que já descrevi anteriormente, onde de vez em quando quase se tem que parar, e devagarinho ir encostando os pneus às bordas dos buracos, para voltar a subir os sulcos. A senhora tinha acabado de sair. Estava o filho em casa, a quem o senhor que estava connosco pediu para pegar na mota e ir chamar a mãe. Foi buscar a chave e foi isso que fez.

Passados três ou quatro minutos estava de volta com a dona Gina. A dona Gina é mais uma das irmãs da minha mãe, já tem sessenta e quatro anos, e além dos seus filhos, está a tratar das filhas do meu falecido tio Mindo. A mãe das crianças abandonou-as, e é esta senhora que as está a criar. As meninas têm oito e dez anos, são a Gina e a Mila. O marido da dona Gina é o senhor António, que me disse ter andado na tropa com o meu pai e ter trabalhado na câmara para o meu avô. Agora está um pouco doente, tem uma hérnia discal, e nem sempre pode trabalhar.

Ficamos à conversa, entreguei as camisolas e umas bolachas para as meninas, e a minha tia Carmo e a tia Gina ficaram a falar sobre as peripécias da família, dos familiares que estão na europa, em Angola, no Gabão, nos terrenos mal vendidos pelo meu avô David ou pelos meus tios Mindo e Cristo. As asneiras de mais alguns familiares e as dificuldades e problemas criados para os outros que cá ficaram. Como interrompemos a viagem da tia Gina e das crianças para a cidade, para casa de uma outra familiar, oferecemos boleia. Despedimo-nos do senhor António e do filho, mais uma manobra para fazer inversão de marcha, e seguimos rumo à cidade.

Como a minha tia tinha compras a fazer no CKdo, fomos lá antes de seguir para o mercado para comprar pão. Ao passar pela festa de São Pedro, reparei que estavam a fazer uma representação do Auto de Floripes, ou a tragédia do Imperador Carlos Magno. É o Tchiloli, e espero no domingo ainda conseguir apanhar uma destas representações. É uma peça de teatro que dura horas e que é uma tradição santomense. As personagens são todas representadas por homens, e as vestimentas são muito castiças.

Entretanto atravessamos a cidade toda, e entregamos a tia Gina e as miúdas ao seu destino antes de voltarmos para casa. Já estava a começar a anoitecer. E dá para perceber que a Lagoa Azul ficou fora de plano.

Entretanto acabei por planear com o Hamilton o dia de amanhã. Vamos a ver se aproveito bem o domingo, não só para praia, como para fotografia. A correr bem será um dia intenso, e acordando cedo, a manhã será para a Lagoa Azul. É um lugar paradisíaco, onde tirei umas fotos no ano passado. Uma cratera de água límpida com um grande embondeiro. A minha GoPro também precisa de actividade, e está com a bateria carregada para fazer uns filmes sub-aquáticos. O fundo submarino na Lagoa Azul também é algo de fenomenal, pelo que conto fazer uns filmes e umas fotos dignos de registo. Depois de almoço, conto fazer a zona de Fernão Dias, e as fotos do barco com o Ilhéu das Cabras em plano de fundo. Depois é passar pela festa de São Pedro e ver se apanho o Tchilóli.

Eu já tenho juízo o suficiente para saber que não se fazem planos em São Tomé, mas também, que tenho a perder? Está tudo organizado, e a correr bem, será fantástico. Se não correr como planeado, é leve-leve, nada passa. Kidaleó.