Homem a pescar à linha com vista para a cidade de São Tomé, perto do Hospital.

Participaram na volta à ilha o meu pai, Manuel Sebastião Correia, mais conhecido como Leão, o Elvido Viveiros, o já falecido Carlos Heitor, o Isaías, o Sebastião, que era conhecido como Jaca, e finalmente, o Esteves, a quem tratavam por Doutor, e que por ter conhecimentos de Enfermagem, ficou, entre outras coisas, encarregue de transportar o antídoto para a picada da cobra preta.

Eram todos rapazes dos seus dezassete, dezoito, dezanove anos na altura da aventura, e toda a viagem teve uma afincada preparação, que passou pela procura de patrocinadores até à recolha de comida enlatada e massas.

Ao segundo dia de viagem, nas Neves, decidiram fazer uma peladinha de futebol, e entreteram-se na jogatana durante um bom bocado. No final do jogo, alguns sentaram-se no chão, e outros, por ser mais confortável, usaram as mochilas para se sentarem. Continuaram viagem, e tal como agora, o pavimento termina em Santa Catarina. Ainda é uma boa extensão até Porto Alegre, no sul, em que se tem que atravessar mato, em plena floresta Obô por pequenas veredas. São três dias de caminhada, a subir e descer encostas junto ao mar, algumas bastante perigosas. Noutras partes é necessário embrenhar-se na selva, e o machim ( catana ) é um instrumento muito importante para ajudar a desbravar caminho. O grupo demorou cinco dias, pois vinha das Neves.

Pela forma como organizaram a viagem, pernoitavam em roças, telefonavam para a cidade, para o Rádio Clube, que informava na emissão sobre o local onde se encontrava o grupo, e qual a roça de destino no dia seguinte. O objectivo era anunciar a sua chegada ao final de cada dia, e também sossegar as famílias.

Depois de Santa Catarina, o admninistrador da Roça Bindá, o senhor Amaral, um fulano muito gordo e barrigudo, mandou um guia ao encontro do grupo. Eles iam já a meio caminho pelas veredas quando o guia os encontrou, e chegaram à Roça Bindá ao anoitecer, pois o guia andava muito depressa. Estavam exaustos devido à célere caminhada.

Dos seis do grupo, o meu pai, o Elvido e o Jaca eram brancos, e o Doutor, o Heitor e o Isaías eram de cor. O admninistrador manda chamá-los para os conhecer, e diz para o servente dirigindo-se aos brancos “Estes três senhores jantam comigo, os outros três rapazes comem na sala de jantar dos empregados”. Ficaram todos a olhar uns para os outros, e dizendo que o grupo são seis, recusaram a oferta para jantar. O Amaral ficou furioso, dizendo que quem manda na roça é ele, não tendo outra opção eles senão sair sem jantar.

Dirigiram-se às habitações que lhes haviam sido destinadas, e os respectivos quartos tinham sido preparados de forma diferente, um para os três brancos e outro para os três de cor. Acabaram por ficar os seis no mesmo quarto, e tiveram que fazer uso das suas provisões para se alimentarem.

A minha avó Bárbara, havia ensinado ao meu pai uma sopa de ervilhas. Que bela oportunidade para se armar perante os colegas. Vamos fazer sopa de ervilhas. Pediram uma panela na cozinha, e seguiram ao trabalho. O meu pai armado em cozinheiro, lá fez um refogado, como a minha avó ensinara, meteu as ervilhas, e quando chega a parte do arroz, o artista espeta com o saco de um kilo todo lá para dentro. Ah pois, o resultado seria de prever. A água desaparecia, e o arroz crescia. Metiam mais água, a mesma sumia, e o arroz crescia. Às tantas já saía arroz para fora da panela. Acabou tudo a gozar com os dotes culinários do meu pai, e aproveitaram o que se podia comer do arroz, juntando rodelas de chouriço e outras coisas.

No dia seguinte não viajaram, pois estavam ainda cansados e a recuperar da caminhada do dia anterior. Passearam pela roça e descansaram, voltando a comer no quarto. Com o nascer do sol do dia seguinte, saíram em direcção à roça de Porto Alegre, desta vez sem guia, pois por represália à recusa do jantar, o admninistrador Amaral não o disponibilizou.

Seguiram pelas veredas, até que foram parar a uma praia, em que se sentiram perdidos. Não havia vereda para sair. Já era tarde e pouco havia a fazer na altura. Montaram as tendas e por ali ficaram. Por sorte, o admninistrador Esteves, da roça de Porto Alegre, já havia mandado um guia ao seu encontro. Viram um rapaz a chegar pela praia, que lhes disse ter sido enviado pelo amninistrador da roça, e desmontaram as tendas. Não tinham visto o trilho em direcção ao sul, pois o mesmo encontrava-se um pouco rio acima. Tiveram que subir um pouco o rio, dentro de água, até que voltou a aparecer a vereda.

Chegaram a Porto Alegre, e estava feita toda a costa ocidental da ilha de São Tomé. Era também a parte mais perigosa, pois além de encontros com macacos e armadilhas do terreno, há também cobras, que são fatais.

O resto do caminho, até à cidade de São Tomé, já seria feito por estrada pavimentada. O Doutor, aliviado por tudo ter corrido bem, chamou-os a todos. “Tenho uma coisa para vos dizer”. Como havia dito no início, o Doutor era o “médico” de serviço, e o transportador do antídoto para a cobra preta. O que se tinha passado, foi que fizeram 5 dias de caminhada, selva dentro, sujeitos a serem mordidos, sem as âmpolas do antídoto. Após o jogo de futebol nas Neves, quando no final descansaram, o Doutor sentou-se na mochila por ser mais confortável e partiu as âmpolas. Não lhes disse nada, pois se o tivesse feito, nunca eles se teriam aventurado sem protecção contra as cobras. Ficaram todos exaltados e chateados com o Doutor, pois foi de uma grande irresponsabilidade, e podia tudo ter corrido para o torto. Felizmente que não, e agora o que restava da viagem já era mais simples.

Havia apenas um senão. Tinham fome, e já haviam acabado as provisões. E alguma coisa teriam que comer.

O grupo já tinha consumido praticamente todos os mantimentos. Discutiam o que haviam de fazer, apanhar fruta, pedir comida, qualquer coisa, quando avistam uma vara de porcos da roça de Porto Alegre. Era uma família inteira. Os grandes e os leitõezinhos atrás. Um leitão vinha mesmo a calhar. O Elvido tinha uma pistola do pai, e escondido, enquanto os restantes distraiam o guarda, lá disparou tendo atingido um alvo. Entretanto tiveram que esperar que o guarda fosse embora ao fim do dia, para não serem apanhados.

Quando finalmente isso aconteceu, lá foram buscar a sua presa, o seu leitãozinho que planearam assar numa fogueira. Bem, o que se passou, foi que o membro da família abatido, não foi nenhum leitão, mas foi o maior porco do grupo, enorme e gordo, um autêntico mastodonte.

E agora? Seis rapazes, por volta dos dezoito anos, com um porco quase do tamanho deles. Nenhum deles sabia arranjar um porco sequer, e mesmo transportar aquele monte de carne e banha não seria tarefa fácil.

Lá perceberam que a única saída daquela situação seria tentar apagar quaisquer provas do sucedido e zarpar. Com algum custo, carregaram o animal até à praia, cavaram uma cova bem funda, e meteram lá o porco. Taparam a cova, e ficaram descansados, ninguém iria dar por nada. Até que a maré começa a subir, e a pouco e pouco vai levando a areia. E não tardou muito que as quatro patas do porco, que havia sido enterrado de barriga para cima, já estivessem à vista.

Exaustos após tanto trabalho, sem comer, e já a noite ia bem dentro, a única solução seria estarem bem longe dali quando alguém desse com a carcaça do porco. Eram quatro da manhã, e fizeram-se à estrada. Na manhã seguinte, o admninstrador da roça de Porto Alegre, Esteves, andou à procura deles, furioso. Se os tem apanhado, nem se sabe o que teria feito. Entretanto foi à cidade apresentar queixa, e o meu avô Sebastião, o pai do Elvido e os pais dos restantes tiveram que pagar o porco para que as coisas acalmassem e o admninstrador Esteves ficasse descansado e não fizesse nenhuma represália para com o grupo, que por essa altura, caminha para norte no lado nascente da ilha, talvez por caminhos secundários para não serem apanhados.

As peripécias desta aventura não se ficam por aqui, e até chegarem à cidade, ainda haveriam de fazer mais das suas. A seguir.