Criança, em Manga Manga, cidade de São Tomé.

Não é para me queixar, juro. É mais por uma questão de curiosidade mesmo. Quando não são os cães, são galos a cantar à uma da manhã. Go home rooster, you’re drunk. Mas sim, os cães ladraram de novo.

Entre editar vídeo, fotos e escrever o diário da viagem ao Ilhéu das Rolas, passei a manhã entretido até à hora de almoço. Mesmo antes de almoçar ainda fui ao Miramar, parando no Café O Passante, para tomar um café na esplanada de frente para aquele mar imenso que nesta insularidade parece maior ainda do que alguma vez foi. Talvez seja apenas a sensação de sabermos que estamos numa ilha, mas parece que aqui o mar é mais mar e é maior.

No ano passado o mau tempo no dia que havia escolhido para ir ao interior, frustrou-me os planos, mas desta vez como estava bom tempo na cidade, saí com a minha tia a caminho da Trindade. À saída da cidade via-se que estavam mais negro lá para cima para a serra, mas já não era tempo de voltar para trás. A cidade da Trindade até não é muito longe da capital.

Antigamente todos os grandes senhores da ilha tinham segunda residência aqui, o que fez com que a Trindade crescesse. Se não estou enganado, é a segunda maior cidade do país, e aqui e ali vê-se o legado colonial português, que diria mesmo está mais bem tratado do que em São Tomé. Continuando a subir, a próxima localidade de registo é Bate Pá, conhecida pelo massacre de 1953 da responsabilidade do governador Gorgulho. Uma suposta revolução de serviçais foi esmagada pelo exército português por ordem do governador.

Continuamos a subir, e começa a adensar-se o nevoeiro. Começam também a aparecer grandes quintas e vivendas ao lado da estrada, propriedade dos senhores ticos actuais. A estrada tem alguns buracos, mas nada de muito preocupante, e em comparação com o que virá mais para a frente, esta até poderia ser a melhor estrada do mundo. Até que chegamos ao final da estrada pavimentada. Para a direita, está uma curva com um pavimento cheio de crateras que sobe íngreme. A placa diz Jardim Botânico Bom Sucesso três virgula oito quilômetros.

Em frente um caminho de picada que vai para a cascata de São Nicolau. Nota-se que tem chovido, o chão tem muita lama e poças de água, e o caminho serpenteia com montanha de um lado e um precipício íngreme a caminho das profundezas do outro. Muitas galinholas esvoaçam de um lado para o outro da estrada, e após meia dúzia de curvas apertadas e estreitas a uma velocidade muito reduzida ( quem tem vertigens não convém olhar para o lado de baixo ), lá chegamos à cascata. Imensa, a água cai de uma altura de uns 50 metros e despenha-se cá em baixo. Podem ver algumas fotos, mas as mesmas não testemunham a dimensão da cascata, que não sendo nenhuma Niagara, não deixa de ser a maior cascata onde já estive. A ponte está em mau estado, mas está um contentor e sinais de que, ou houveram obras, ou estão a decorrer. Após umas fotos, e como começou a chover um pouco mais, voltamos para trás.

Ainda tínhamos duas horas de luz do dia, e resolvi então subir até ao jardim botânico. Passando as primeiras crateras, e fazendo a contracurva, até parece que a estrada não é tão má como previa. Mas estamos em São Tomé, e fazer previsões sai quase sempre ao contrário. Um pouco mais à frente os solavancos testemunhavam que a estrada piorava a cada metro. Depois, de repente, a banda sonora mais inútil e absurda que já vi ( haveria de ver mais no resto do caminho. Conheço, tanto em Estombar onde vivo, como nos Montes de Alvor, umas quantas bandas sonoras assassinas, que quase mais parecem obstáculos, mas o absurdo desta e das seguintes, e a sua inutilidade, é que é virtualmente impossível alguém, aqui nesta estrada, conseguir andar a mais do que, diria eu, uns trinta quilômetros por hora. E de repente, uma parede com uns trinta ou quarenta centímetros de altura seguida de um empedrado ( que também haveriam de vir uns quantos troços iguais ), que só vos posso explicar como se fosse uma estrada de calçada ( para a malta do norte, paralelos ), mas em que as pedras usadas para fazer a mesma são enormes, e nada planas, e estão desalinhadas, e não bate a bota com a perdigota. A sensação de conduzir nestes troços, em que vinte quilômetros por hora já é uma velocidade alucinante, é como estar num daqueles sofás de massagens, que vibram. Mas aqui além da vibração, também se abana de um lado para o outro. Coitados dos pneus, da suspensão e da direção. Será que as Hiace amarelas sobem até aqui? Os motoqueiros sim, que mais lá para a frente vimos um ou outro. Ainda não tínhamos andado muito, e chegamos a Nova Moka, que eu já conhecia de nome por ser onde o Claudio Corallo tem uma plantação de café. Paramos num entroncamento e perguntamos se estávamos no caminho certo para o Jardim Botânico. E, por ser domingo, até perguntamos se estava aberto. A menina confirmou e disse que era só mais um bocado. Não estamos no Alentejo, mas o bocado demorou um bom bocado a chegar. Alguns dos troços que apanhamos daqui para a frente foram os piores caminhos onde alguma vez conduzi, e a estrada está salpicada de grandes pedras, como se fossem pepitas de chocolate, as quais praticamente não se conseguem evitar. Passamos umas duas ou três pequenas comunidades agrícolas, e em alguns pontos o nevoeiro era denso. As pessoas por quem passávamos acenavam, e passado um bocado o céu já estava limpo e o sol brilhava, mas víamos o nevoeiro lá para baixo. Estávamos literalmente sobre as nuvens, e os três quilómetros e oitocentos metros da placa já pareciam ter passado à muito, ou talvez fosse ilusão provocada pela condução em que o ponteiro da velocidade quase nem descolava do número 10. Passamos Bom Sucesso, e um pouco depois chegamos ao jardim botânico. Portão fechado. Ainda apitamos, mas parecia não haver vivalma ali.

Bem, meia volta e descer. Se subir foi difícil, descer não é mais fácil. Muito trabalho para o travão, uma escorregadela aqui e ali, e escolher sempre as trajectórias que parecem ser as menos más. Entre o subir e descer os supostos três mil e oitocentos metros, gastamos quase uma hora. No meu plano tinha uma visita à roça Monte Café, mas já se aproximava o anoitecer, e ainda tínhamos umas visitas a fazer. Fica para outra altura. Quanto ao Jardim Botânico do Bom Sucesso, por muito que o queira visitar, não será desta vez, acho que não tenho paciência de momento nem nos próximos dias para voltar a fazer aquela estrada. Olhando para o mapa da ilha, estivemos mesmo no seu coração, e ao que parece, é pouco mais de um dia de caminhada até ao pico. Essa sim, é uma viagem que tenho nos meus planos para uma próxima visita a São Tomé.

Descemos para a Trindade e voltamos à direita. Ainda andamos um pouco, e chegamos a Almeirim, já nos arredores da cidade de São Tomé, onde iria conhecer mais primos, desta vez do lado da minha mãe, e a casa onde ela cresceu. Tirei umas fotos, a minha tia tratou de alguns assuntos, as pessoas ficavam espantadas ao saberem quem eu era e cumprimentavam-me. Depois andamos mais um pouco e fomos visitar o senhor Genaro, que é padrinho da minha mãe, e creio que não sendo família, foi criado com o meu avô David. O engraçado foi que ainda antes de a minha tia dizer alguma coisa, o senhor à porta da sua casa, mal olhou para mim, disse logo “Correia”, e deu-me um abraço. Conheceu bem o meu avô e o meu pai, convidou-nos a entrar, e estivemos todos à conversa durante um bom bocado. Ficou muito feliz pela visita, e no final deu-nos uma jaca.

Já era praticamente noite, e voltamos para casa. O resto da noite passei a editar fotos e vídeos da viagem ao Ilhéu. Um pouco mais tarde saímos para ir à roulotte que está na marginal, e compramos uns hamburguers e cachorros, demos uma volta pela cidade e voltamos para casa.

À uma da manhã, estavam os galos a cantar de novo. Era sinal de que era hora de ir para a cama