Praia Pesqueira, Ilhéu das Rolas.

E bem ladraram os cães, eram três da manhã e eu ainda rolava de um lado para o outro na cama a ver se dormia. Choveu toda a manhã, o que frustrou os meus planos de fotografar os edifícios do centro da cidade. Acabei por passar a manhã a tentar recuperar da noite mal dormida, alapado no sofá.

Depois de almoço mantive a moleza, e sendo que estou de férias, achei por bem procrastinar neste dia, pois terei ainda bastante tempo para fazer coisas que planeei. Lá fora também o dia estava cinzento, e aqui e ali ainda chovia. Entre a internet e a televisão lá ia queimando tempo, até que me lembrei que era quinta feira, dia em que se fazem as visitas na fábrica de chocolate do Claudio Corallo. Saí com o Adilson, motorista da casa, que ajuda a Ita com as voltas para as coisas do Pirata, a minha tia Carmo e leva o Ricardo à escola.

Fomos levar o Ricardo a casa de um colega para ficar lá a fazer um trabalho e passamos pela casa do Corallo. A visita era às 16h30. Como ainda faltava mais de uma hora, acompanhei o Adilson enquanto ele fazia alguns recados na cidade, e arrependi-me logo de não ter trazido a máquina fotográfica comigo. Mas marquei logo algumas pérolas publicitárias para fotografar posteriormente. O grupo de turistas que hoje apareceu para a visita e degustação no laboratório do Corallo era um pouco tímido e envergonhado. Quando sobravam amostras em cada prova de cada tipo diferente de chocolate, ficavam todos envergonhados e ninguém queria tirar o que sobrava. Lá me fazia eu aos bocaditos. Alguns americanos, espanhóis, angolanos e um casal de portugueses. Como o Corallo não fala inglês, uma americana que arranhava português ofereceu-se como tradutora.

No final fiz as compras que me haviam sido encomendadas, e lembrei o Claudio de que havia estado ali no ano passado, e ele confessou que tinha a certeza que me conhecia, mas não se lembrava de onde.

Voltei a pé, e resolvi ir pelo centro da cidade. Fui ao mercado e aproveitei para entrar na Gelidoxi. Como havia falado ao telefone com o meu pai e lhe disse que estive lá com a dona Elisabete, ele pediu-me para passar lá de novo e dar-lhe os meus cumprimentos. Saí de lá com um gelado de manga, e pus-me a caminho de casa. Eram já quase dezoito horas, e como o meu primo mora perto do liceu, no sentido contrário ao que eu ia, enormes grupos de adolescentes, com os seus uniformes escolares, passavam por mim após o final de mais um dia de escola.

Chegado a casa preparei a máquina, carreguei a bateria, e verifiquei tudo. Esta noite iria haver um jantar para quarenta pessoas no Pirata, um grupo internacional de quadros na Nestlé que está reunido em São Tomé. A Ita e o Hamilton seguiram para lá, e eu fui com o Adilson buscar o Ricardo e deixar o Adilson a casa dele. Se conduzir na cidade de São Tomé, em condições normais já é um teste a todas as nossas capacidades, concentração, paciência, atenção, improviso, à noite ainda é pior. A iluminação nas estradas é escassa, e para ajudar muitas viaturas, motas ou carros, circulam sem iluminação. A cada entroncamento pode surgir um carro que não respeita prioridades, apanham-se carros fora de mão ou mesmo parados no meio da estrada após uma curva. As motas são piores, pois ainda respeitam menos as regras do que os automóveis. Por exemplo, chego a um cruzamento e quero virar para a esquerda, mas vêm carros e tenho que esperar. Entretanto chega uma mota que quer ir para a mesma direcção que eu. Esperar? O que é isso? Vira logo em contramão e segue como se nada fosse entre o carro e a berma, aproveitando quando já não vêm viaturas para se meter então na via correcta.

Fui ter ao Pirata, e ainda não tinha chegado o grupo do jantar, mas comecei logo a fotografar. As mesas estavam todas prontas, o buffet preparado e bem bonito e o grupo de danças tradicionais já esperava pela chegada dos convidados.

Não sou fotografo profissional, mas acho que já tenho alguns conhecimentos e alguma experiência, e sei as limitações que tenho a nível de equipamento. A luz era pouca, e senti uma grande necessidade de ter um flash em condições. Lá tive que fazer o que foi possível, mas mesmo assim penso ter conseguido algumas boas fotos. Uma senhora do grupo da Nestlé veio falar comido, perguntando quem me tinha contratado. Ninguém, estou ali porque estava à mão, e porque gosto de fotografar. Não estou em trabalho, estou de férias. Ainda assim eles querem as minhas fotos.

Após fazer um número considerável de imagens, desci até à praia e aproveitei para fazer umas experiências com longas exposições. O raio do comando não estava a funcionar. Já no outro dia era o raio da GoPro que estava a atrofiar. Ainda conseguia fazer exposições a 30 segundos. Metendo o disparo após 2 segundos, dava tempo para retirar a mão e não tremer a máquina, mas para fazer mais que isso, com bulb, era para esquecer. Mais tarde após chegar a casa, voltei a testar o comando, e agora estava a funcionar em perfeitas condições. Vá-se lá perceber. Enfim.

Após algumas fotos, e alguns resultados que achei bem satisfatórios, subi, e o meu primo já tinha preparado uns couverts com camarões do rio, peixe cru com gengibre e limão e linguiça assada. Tudo acompanhado por umas Superbock. O prato principal para mim foi bife de atum com molho de côco. Uma mousse de chocolate para sobremesa, e estávamos prontos para regressar a casa. A Ita ficou a tomar conta do evento, pois após o jantar a malta do grupo da Nestlé queria ficar a dançar e a beber uns copos.

Em casa e apesar do forte cansaço, comecei logo a editar algumas das fotos. Parecem estar melhores do que eu temia, o que é sempre positivo. Entretanto o corpo já protestava, e era mesmo hora de ir ao descanso. E os cães a ladrar.