São Tomé e Príncipe – Nas Ilhas do meio do Mundo – 2016 – Episódio 7

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Primeiro que tudo peço desculpa pelo enorme atraso neste sétimo e último episódio. Desde que cheguei de São Tomé, com o regresso ao trabalho, algumas outras coisas para fazer e, também, admito, alguma procrastinação fizeram com que fosse adiando esta parte.
Antes de passar à parte com mais “sumo”, vou falar sobre o resto da minha epopeia de recuperação da nacionalidade santomense. Este episódio não terá uma linha de acontecimentos cronológica, pois prefiro fechar este capítulo, e, depois sim, passo à parte mais mística da coisa.

Quando cheguei ao Registo Civil, já a senhora que me tinha atendido antes tinha feito a transcrição da minha certidão de nascimento para os livros, e pediu a um rapaz que me pareceu ser um estagiário, que faz por lá recados, para me acompanhar ao outro lado do edifício, onde se tira o Bilhete de Identidade. A porta de alumínio, de correr, não estava em muito boas condições e ficou mal fechada quando entrei. Há outra porta ao lado, e um senhor que estava por detrás de uma espécie de púlpito/mesa alta de madeira disse-me que a usasse quando fosse sair. Quando mostrei os papéis que havia trazido do outro lado, informou-me que teria que depositar cento e oitenta mil dobras numa conta do BISTP ( Banco Internacional de São Tomé e Príncipe ). Em maio já tivera de o fazer para uma fase anterior do processo, e neste banco não houve a confusão pela qual passei no Banco Central. Nem me foi fornecido um número de conta, apenas que chegasse lá e dissesse o assunto, que eles no Banco já saberiam o número da conta. A chuva abrandou um pouco, e aproveitei para ir à agência da Praça da Independência. Penso que a Caixa Geral de Depósitos é acionista do BISTP, e nota-se na decoração desta agência, pois parece-se com as de Portugal continental. Tirei a senha, aguardei a minha vez e fiz o depósito. Voltei com o comprovativo, e desta vez entrei pela porta que não estava avariada. O empregado preencheu ele mesmo o impresso, e no cartão em si, na parte que diz “assinatura”, quando me preparava para assinar, disse-me para não o fazer, e escrever o nome completo. Mandou-me besuntar o dedo em tinta e marcar a minha impressão digital tanto no cartão como no impresso, pediu-me duas fotografias, e instruiu-me a passar lá na sexta-feira de manhã para levantar o cartão. Aqui, como já havia dito, salto por cima dos importantes acontecimentos que se seguiram nesta quarta-feira. Ao chegar lá na sexta de manhã, uma senhora mal me viu entrar, perguntou-se se já trazia fotografias novas. Fiquei confuso. Quais fotografias novas? Quando de lá saí dois dias antes, só me tinham dito para ir lá levantar o cartão hoje. Afinal, nas minhas fotografias vêem-se os brincos nas orelhas, e não pode ser. Já havia falado sobre a importância da formalidade na sociedade santomense, e com estas coisas não se brinca. Lá me indicaram onde podia ir tirar fotografias tipo passe, e saí a toda a velocidade. Fui a uma loja de fotografia, que me surpreendeu pela variedade e qualidade do material que tem para venda, e por quarenta mil dobras, em cinco minutos, ficava com oito fotografias tipo passe. Além de loja de fotografia, fazem lá outros serviços, tais como instalação de programas em computadores, limpeza de vírus e afins. Deviam era ter um pouco mais cuidado, e não ter um portátil aberto virado para os clientes que estão no balcão, com uma data de ficheiros a sacar da internet, com títulos sugestivos acabados em XXX. Passando à frente, voltei ao Registo, entreguei as fotos, e menos de quinze minutos depois, já saí portador de um Bilhete de Identidade da República Democrática de São Tomé e Príncipe. Agora só me restava fazer algumas compras, fruta, doces, e outros produtos de São Tomé para levar para Portugal, não havendo muito mais a dizer sobre o resto da estadia, a não ser uma directa na Happy Hour do Pirata, onde graças a alguns Rum Cola com mais rum do que cola, até me abanei ao som da “Anna Julia” dos Los Hermanos, mas em versão kizomba. Não há provas deste acontecimento, e é melhor que assim seja. Depois foi aeroporto, check-in, seca, embarque, viagem, aterragem manhosa em Lisboa, e finito.

Voltamos à quarta-feira. Quando saí do Registo Civil, voltei a casa, e mandei mensagem a uma amiga minha a dizer que já estava livre das tarefas que tinha, para saber como estava ela de trabalho para combinarmos algo. A mensagem que recebi de volta, até me trouxe um brilhozinho aos olhos. Numa das minhas viagens passadas, escrevi sobre o mundo místico e espiritual e a sua importância para o santomense. O Djambi, como aqui se chama, é uma espécie daquilo que conhecem como “voodoo”. Há por toda a ilha muitos curandeiros, que na realidade se podem chamar mais é de feiticeiros. Já tinha ouvido falar muito sobre rituais de feitiçaria por aqui, mas nunca tinha tido qualquer oportunidade de assistir. Era, sem dúvida, algo muito importante para toda esta pesquisa que faço relativamente à vivência destas ilhas, e uma oportunidade de preencher esta lacuna, era algo que não poderia recusar. A minha amiga disse-me que tinha ido visitar um feiticeiro com outra amiga, e que ia ser feito um ritual. Quando lhe disse o quanto queria testemunhar algo do género, passou-me a localização, e que por umas vinte mil dobras qualquer motoqueiro me levaria lá. Peguei na máquina fotográfica, saí ansioso, e logo em frente ao Parque Popular estava um grupo de motoqueiros. Tantas vezes em São Tomé e nunca tinha andado de motoqueiro, e desta vez, em poucos dias, tanto no Príncipe como na cidade capital, ia repetir a experiência.

Aqui, abro um parentesis, pois é necessário fazer um enquadramento. Normalmente, aqui, aquilo a que se chama de Djambi, é um ritual mais complexo do que aquele a que iria assistir. No Djambi, há mais gente, há tambores, há danças. Aqui, seria apenas um curandeiro a executar um ritual mais simples. Não deixa de ser Djambi naquilo que é o seu conceito e o seu propósito. Já devem ter visto em filmes, lido em livros, coisas sobre “voodoo”. Normalmente ligado ao Haiti, ou ao sul dos Estados Unidos, principalmente à cidade de New Orleans, estas manifestações de espiritualidade estão ligadas ao comércio de escravos, e foi dessa forma que chegaram à América Central e América do Norte. As suas origens são africanas, e presumo por coisas que já li, que tinham muita força nas tribos da foz do Rio Zaire e mesmo em todo o Golfo da Guiné. O voodoo haitiano está muito ligado aos mortos-vivos, que depois são usados pelo feiticeiro como escravos para cumprirem missões que este lhes confia. Esta face do voodoo está muito ligada em trabalhos com objectivos maldosos. Em relação à versão santomense, o Djambi, o mesmo pode ser usado tanto para o bem como para o mal. No seu âmago, acaba por funcionar praticamente da mesma maneira. O uso dos mortos, neste caso os seus espíritos, para efectuarem tarefas pedidas pelos feiticeiros.
Tenho então que referir a teoria da reencarnação, pois tem um papel fulcral na forma como tudo funciona. Para quem acredita, e vamos então presumir que todos acreditamos piamente, para que o discurso flua de forma mais fluída, a vida terrestre serve apenas para as almas evoluírem, sendo que cada alma vai passando por diferentes estados espirituais. De cada vez que uma alma reencarna, o tempo que passa na vida terrena é como que uma aprendizagem, mais um estágio de evolução. Há almas mais fortes e evoluídas, e há almas frágeis, fracas. Essas almas mais frágeis, são mais vulneráveis aos vícios e a ficarem presas à vida terrena. É nisso que os curandeiros conseguem ter poder sobre elas. Almas que estragaram as suas vidas no jogo, nos vícios, alcoolismo, ganância, gula, luxúria. Quando morrem, como continuam presas aos vícios terrenos, não evoluem, não reencarnam, ficam agarradas à vida, mesmo não estando vivas. Não é bem como um limbo ou purgatório, porque não é um lugar intermédio entre o mundo dos vivos e dos mortos, são mesmo almas errantes que continuam no mundo dos vivos. Supostamente, têm poder de interferir com os vivos, embora não seja esse o seu propósito, estão cá porque não se conseguem libertar dos seus vícios. Nos rituais, os curandeiros atraem-nas com as coisas terrenas que esses espíritos almejam, daí os altares com oferendas, comida, vinho, tabaco. Apesar de desejarem essas coisas, não as podem ter, não têm forma humana, já não são de carne e osso. Mas não sabem isso. E os curandeiros usam isso em seu favor, prometem-lhes essas coisas em troca de missões que os espíritos têm que executar. Essas missões, tanto podem ser a proteger pessoas de outros espíritos, como fazer mal. Mesmo entre essas almas mais frágeis, há algumas mais e menos poderosas, e ao que parece, o poder dos feiticeiros também está na sua capacidade de conseguirem obter os préstimos dos espíritos mais fortes e capazes de entre as almas errantes. Podendo ser usado tanto para o bem, como para o mal, é também considerado que é sempre perigoso, pois da mesma forma que o curandeiro ilude o espírito para trabalhar para si, a alma pode a qualquer momento perceber que está a ser iludida, e ao ficar irada, procura a vingança. A sua fúria pode abater-se sobre a pessoa sobre a qual foi feito o feitiço de protecção, que deveria defender, como pode até nem atacar essa pessoa, simplesmente abandonar a missão, e voltar a sua raiva para com o feiticeiro, que afinal foi quem o usou. Nunca a expressão “virou-se o feitiço contra o feiticeiro” fez tanto sentido. Muitas vezes após um ritual, os curandeiros têm que pontualmente fazer reforços e continuar os trabalhos de protecção, para que a ilusão se mantenha e os espíritos continuem focados nas missões que lhes são dadas.

Ao chegar à localização que havia sido dada, lá estavam elas junto à estrada à minha espera. Tinham ido comprar mais coisas que o curandeiro havia pedido. Arroz, fuba, vinho, fruta, peixe, petróleo, velas, incenso. Saímos da estrada principal e entramos na mata. Pouco depois chegamos a um terreno vedado com canas e plantas, e ao entrar, num pequeno terreiro, pude ver logo alguns símbolos místicos, uma pequena mesa que servia de altar, e algo parecido a uma sepultura singela com uma cruz. Soube depois que eram mesmo uma sepultura. Perto do altar, uma pequena casa com símbolos, que era uma espécie de capela. Mais abaixo, um pequeno telheiro a que podemos chamar de sala de espera. No cimo do terreno, uma pequena moradia. Na sala de espera, duas mulheres aguardavam. Entretanto, o Pedro Miguel, o curandeiro, ia preparando a mesa, com rezas, palavras soltas, algumas em português, outras num dialecto que eu não entendia. Às vezes metia petróleo na boca e cuspia sobre as coisas. Chamou uma das minhas amigas, levou-a para a pequena capela, cheia de livros, ícones, cruzes, palavras escritas, velas queimadas, colocou-lhe um véu por cima, e começou a recitar orações. A pedir a santos e entidades que lhe prestassem auxílio e que intercedessem por aquela pessoa. Pouco depois, disse-nos que alguém vinha do hospital. Segundos depois chega um motoqueiro com um rapaz muito debilitado, ainda com um penso onde teria estado a receber soro. O Pedro perguntou-lhe se vinha do hospital, ao que o rapaz respondeu que sim. Não sei dizer se estava combinado ou não, o que é facto é que ele sabia o exacto momento em que ia chegar alguém. Também não sei qual o propósito em que ele ia combinar algo assim só para três brancos que nem ligam muito a estas coisas verem. Pode apenas ter sido coincidência. Segundo as senhoras que lá estavam nos contaram, já o pai do Pedro era curandeiro, e ele, desde pequeno que tinha o dom, e então, tinha ido alguns anos para o Brasil, onde aprendeu mais e desenvolveu os seus dons. O rapaz que chegou do hospital estava em muito mau estado, muito magro e debilitado, tinha mesmo cara de doença. Movimentava-se com dificuldade, tossia, e diria eu que no estado em que estava, devia estar numa cama de hospital e não ali. O Pedro levou-o para a capela, recitou orações, cuspiu-lhe petróleo em cima, a certo ponto, acendeu uma tocha, e cuspiu-lhe mesmo fogo em cima. Esfregou-lhe o tronco com petróleo, e enquanto o fazia, meteu num prato, dois parafusos, depois uma espécie de âmpolas, e finalmente umas ervas, que pareciam umas espécie de caldo-verde meio digerido. Eu não vi o rapaz a vomitar aquilo, ou aquilo a ser-lhe retirado da boca, mas também não vi de onde o Pedro tirou as coisas. O Pedro disse que as tirou do e pelo tronco do rapaz, mas também não vi isso. Tenho que referir desde já, que nada do que vi durante todo o tempo que estive naquele sítio, teve fosse o que fosse de sobrenatural. A indução psicológica tem muita força nestas coisas, e não é por acaso que eles dizem que os feitiços não funcionam com quem não acredita. No final o rapaz foi embora, ele pediu ao motoqueiro que quando voltasse lhe trouxesse algumas coisas, vinho branco, mais petróleo, e entretanto o motoqueiro seguiu viagem com o rapaz. Assim que saíram o Pedro virou-se para nós e disse que ele ia morrer, que tinha um feitiço de mal muito poderoso, feito por um curandeiro com muito poder, e que para o conseguir ajudar teria que ter a ajuda de outros curandeiros.
Depois chamou a outra das minhas amigas, tapou-a com o véu, colocou-lhe umas palhas por cima, e por fim um ovo sobre a cabeça. Começou com as orações, e a certo ponto começou a falar em dialecto. Meteu-a à porta da capela, virada para fora, e cuspiu-lhe fogo por cima, pegou no ovo e atirou-o para a entrada do terreiro onde se partiu todo e a clara e a gema ficaram espalhadas. Os trabalhos estavam feitos. Disse que teria que fazer umas orações passados uns dias, que o trabalho não estava completo, mas que elas não precisavam voltar, que seria ele sozinho a fazer. Voltamos à cidade.

Volto a referir, não vi nada de inexplicável, não senti presenças nenhumas, mas respeitei sempre tanto o curandeiro, o Pedro, como aquilo que ele lá fez. Não sou eu que vou julgá-lo ou acusá-lo de ser uma fraude, tal como não vou dizer que acredito naquilo que faz. Se as pessoas o procuram, tal como procuram outros, é porque acreditam que aquilo as pode ajudar. Para mim foi uma experiência importante no lado da pesquisa que faço, mas ainda hei-de procurar assistir a um Djambi, daquele que em São Tomé chamam mesmo de verdadeiro, à noite, com tambores e danças e fogo e todo o aparato que lhe dão a reputação que tem. Para já, foi interessante, mas apenas isso.

São Tomé e Príncipe – Nas Ilhas do meio do Mundo – 2016 – Episódio 6

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Para o último dia no Príncipe, havia pensado fazer o trajeto a pé até Ponta Mina, para fotografar os canhões portugueses que lá se encontram. Voltei a levantar-me cedo, e adiantei logo a arrumação do saco de viagem. Vesti-me e fui tomar o pequeno almoço ao Mira Rio mais uma vez. O Mira Rio é uma pensão/supermercado/café/restaurante. O supermercado e a recepção ficam no rés-do-chão, no primeiro andar tem os quartos, e numa varanda coberta o bar/restaurante. Não tem janelas, o espaço é mesmo aberto. Das mesas pode observar-se o rio Papagaio e ao fundo a baía. Bastou um breve olhar para ver uma mancha de negro que vinha do mar em direção a terra. Depois de comer, saí e voltei à Santa Casa da Misericórdia, e enquanto caminhava, a mancha negra já tapava toda a baía e começava a entrar na cidade. Nunca tinha visto nada assim, a baixa altitude, uma nuvem gigantesca, carregada, de um cinzento escuro, negro como bréu. Não chovia ainda, mas em pouco minutos cobria todo o vale de Santo António. Parecia quase noite, pouca era a luz do sol que passava. A Dona Iáia, responsável pela Santa Casa da Misericórdia, dizia que o melhor que poderia acontecer, seria se chovesse, pois em caso contrário, os voos do dia seriam cancelados, mas a haver chuva, depois o céu ficaria limpo. Nem dois minutos depois, abateu-se sobre a ilha a maior tempestade que alguma vez testemunhei. Ao mesmo tempo que caía, com um som ensurdecedor, uma massa de água considerável, levantou-se um vento impressionante, e de um lado do rio Papagaio não se via o outro, apenas uma neblina cinzenta. Já tinha assistido a uma tempestade tropical em São Tomé, em que o vento vergava palmeiras e coqueiros, mas como esta, nada. Ao mesmo tempo que chovia torrencialmente, do telhado dos edifícios caiam autênticas cascatas de água. Pude observar que o sistema de escoamento das águas junto ao rio é bastante eficiente, e a quantidade de água que se acumulava na estrada era menor do que seria de esperar. Os meus planos mais uma vez haviam sido frustrados. Com um pé de água destes, o caminho de terra batida para Ponta Mina deveria ser um mar de lama. A sala do edifício é aberta, não tem portas, apenas uma pequena parede ao meio com dois espaços de cada lado que dão para a frente, e na parte de trás um pequeno jardim. Lá dentro, alguns utentes ouviam a Rádio Regional do Príncipe, outros jogavam às cartas. Um senhor de cinquenta e tal anos que ia a passar de mota quando começou a chover, abrigou-se no edifício, e sendo esta cidade tão pequena, lembrava-me de o ter visto passar várias vezes pelas ruas da cidade na sua mota Sukida, a marca de motorizadas de Taiwan que quase toda a gente usa em São Tomé e Príncipe. Havia reparado que este senhor tinha um ar diferente, assim meio motoqueiro, careca de com uma pêra branca no queixo. Quando decidi meter conversa e lhe ia dirigir a palavra, perguntou-me se era português.

Chama-se Nicolau Lavres, viveu vinte anos em Aveiro, em Portugal, até que há cerca de cinco decidiu regressar à ilha. Disse que é animador cultural, e está a escrever um livro com a mulher, uma espécie de pontuário/dicionário/gramática sobre o linguí, o crioulo do Príncipe. Começamos por falar sobre Ponta Mina. Em novembro pediu um subsídio ao governo regional, fez uns lanches, arranjou alguns voluntários, e fizeram uma limpeza ao forte que está em ruínas. Confirmou-me que os canhões estão lá, amontoados. Diz que são pesados, são maciços. Por esta altura a chuva começou a abrandar, mas desaconselhou-me a lá ir, pois o caminho seria, como eu já tinha suspeitado, um mar de lama. Disse que se estivesse bom tempo, iria lá comigo, tal como me levaria a outros pontos de interesse na ilha. Falamos sobre quase tudo, desde a presença portuguesa até à história e ao misticismo locais. No meio de tudo, aprendi algumas coisas, mas em relação a outras acabei por ficar um pouco confuso, e por conhecer algumas das lendas de São Tomé, percebi que o senhor Lavres estava a confundir alguns mitos. Refutou a minha versão da história da Maria Correia. Segundo ele dizia, ela não era filha de nenhum Rei, mas sim uma nativa. Quando descreveu que ela desaparecia e viajava para a metrópole ( Lisboa ) num cavalo branco na praia de Izé, através de artes mágicas, pois era Maçónica, como ele dizia, reparei que estava a contar a história de João Maria de Sousa e Almeida, 1º barão de Água Izé. No entanto, acabei por pesquisar, e há de facto fontes que apontam a Maria Correia como nativa do Príncipe, filha de um imigrante brasileiro e com ligação ao Barão de Água-Izé, através do seu marido, que era padrinho de João Maria. De facto, houve uma época, por volta do Séc. XVIII, entre o fracasso da plantação da cana do açúcar e a importação do cacau e do café do Brasil para as ilhas, em que a presença portuguesa foi menos intensa, e algumas Roças e Companhias foram geridas por nativos, como o caso da Roça Água-Izé pelo Barão, que era mulato e filho bastardo do anterior dono da Roça. A minha versão é desmentida também pelas supostas datas em que viveram estes protagonistas, pois D. Luís só nasce em 1838, enquanto que é atribuída a data de 1788 para o nascimento de Maria Correia. Apesar da fama de mulherengo de D. Luís, não consta que tenha tido alguma filha ilegítima, embora haja quem defenda, que por ter sido a vários níveis um embaraço para a coroa, e também ilegítima, a sua existência tenha sido omitida da história de Portugal. A introdução do cacau no Príncipe é atribuída a José Ferreira Gomes, proprietário de navios negreiros e marido de Maria Correia Salema, em 1822. Há artigos, que o referem como nascido no Brasil e não o pai de Maria Correia. As evidências apontam todas para a improbabilidade da versão de D. Luís, embora o período áureo do comercio do cacau se dê já sobre o seu reinado. Maria Correia Salema morre em 1861. O que é no entanto de realçar, é que o folclore e os mitos urbanos permitiram que a lenda e a história seguissem caminhos diferentes, e nas coisas destas ilhas, os mistérios revestem-se de uma importância capital, até mesmo aos dias de hoje. Seja como for, estes meus relatos não se propõem a ser nenhuma tese de mestrado, pelo que assim, ficam a conhecer duas versões distintas de lendas que sempre se contaram nas ilhas.

Tudo isto leva-me a outro ponto, este sim mais oculto, e que ainda durante o dia em que escrevo estas palavras, ouvi relatos e testemunhos contraditórios com o que o Nicolau Laves me relatou. O povo africano, sempre foi muito dado ao mundo mágico, espiritual e oculto, e o grande comércio de escravos, durante os séculos em que se globalizou, levou a várias partes do mundo essa magia cobre várias formas. O mais conhecido pelo senso comum, é o voodoo, que tem como base o Haiti, embora presente com outros nomes por todas as Caraíbas e forte presença no sul dos Estados Unidos, com relevância para New Orleans, no Mississipi. Os feiticeiros e curandeiros africanos sempre fizeram também parte de lendas e contos. A versão santomense, provavelmente originária da Nigéria, chama-se Djambi, e segundo me contaram, há o bom, e o mau, que é chamado de Fumo. Em São Tomé, há um respeito muito grande pelo Djambi do Príncipe, que é considerado muito poderoso. De facto, muitos santomenses confirmam esse facto. Aproveitei a conversa com o senhor Lavres para saber um pouco mais sobre o assunto, e o que ele me disse, é que isso são coisas de São Tomé. Disse-me que no Príncipe não existe Djambi, e que o poder do Príncipe, vem todo do seu santo protetor, o milagreiro Santo António. Além de dar nome à capital da ilha, dá nome à igreja, e tem vários santuários e altares espalhados pela ilha. O cacau foi introduzido apenas no Príncipe, e só numa segunda fase em São Tomé, e a determinada altura, mesmo sendo uma ilha pequena e com uma quantidade muito menor de Roças e Companhias, esta ilha teve um sucesso económico e de influência tão esplendoroso que a cidade de Santo António chegou a ser a capital do arquipélago. Há uma versão, que não me atrevo a chamar de história, pois parece que a tradição oral trata de traçar caminhos diversos para os mesmos intervenientes, que diz que tal facto causou inveja em São Tomé, e que a determinada altura a figura do Santo António foi retirada do Príncipe e levada para a ilha maior. Tal levou a alguns acontecimentos inóspitos e mau agoiro, e sem ninguém conseguir explicar, a imagem apareceu, sozinha, numa praia da ilha do Príncipe. Há também a lenda do Bala de Pedra, um cognome atribuído a Santo António, num episódio em que a ilha se viu atacada por corsários franceses e dos Países Baixos. A baía de Santo António era protegida por dois fortes, de quem entra pelo mar, do lado esquerdo, Santa Mina, e do lado direito o forte de Santana. Um dos factores que levou a que Portugal, com uma população a rondar um milhão de habitantes, se tenha tornado a potencia colonial que foi, esteve no avanço tecnológico sobre as outras nações. Se não demorou muito a que a armada espanhola desenvolvesse navios tão rápidos como os portugueses, os nossos canhões estiveram por vários séculos muito à frente de todos os outros. Esqueçam tudo o que já viram nos filmes de piratas. Os canhões dos navios ficavam inutilizados com um disparo. Os canhões portugueses não. Mesmo quando a frota portuguesa foi inserida na armada espanhola na guerra com Inglaterra, esse segredo manteve-se connosco. Por temerem a artilharia portuguesa, os corsários dos Países Baixos e de França uniram-se para um ataque em conjunto, bloqueando os dois fortes, enquanto era feito um bombardeamento central à cidade de Santo António. Diz a lenda que das águas, surgiu reluzente o Bala de Pedra, ( nome relativo às balas dos canhões ), e nenhuma bala de canhão passava a sua imagem, caindo todas a seus pés, afundando-se em seguida nas águas da baía. Segundo o Nicolau lavres, é na proteção de Santo António à ilha do Príncipe que surge o grande respeito a nível espiritual e místico em relação à ilha. Em São Tomé, várias pessoas, não só locais como portugueses, me testemunharam já terem assistido a rituais na ilha do Príncipe. E acaba por fazer algum sentido, pois como me foi dito, onde há curandeiros, há Djambi. E no Príncipe há curandeiros. Foi-me dito que pelo menos em Porto Real e em São Joaquim os há. Não deixa no entanto de ser importante referir toda esta riqueza do folclore místico das ilhas, de como o fantástico remete os locais para o respeito e devoção perante o oculto. O santomense teme o Fumo, e é tremendamente crente perante o Djambi.

Parou de chover, e soube logo depois que o voo da manhã tinha sido atrasado e seria feito ao meio dia. O seu horário deveria ser às nove e trinta da manhã. Almocei de novo no Beira Mar, com o Celestino, e desloquei-me depois à loja, para saber junto do rapaz a que horas me podiam levar ao aeroporto, como tinha ficado combinado no dia anterior. A loja estava fechada, por ser hora de almoço. Na praça central, frente ao edifício da Assembleia regional, vi um senhor que sabia trabalhar no aeroporto, e meti conversa. Toda a gente é muito prestável e simpática no Príncipe, e estivemos um pouco à conversa. Estava de folga, mas confirmou o atraso no voo, pois com o temporal da manhã não havia condições para o mesmo se realizar. Entretanto viu um rapaz de mota conhecido a passar, chamou-o, e disse que ele me ia levar ao aeroporto. Foi a primeira vez que andei de motoqueiro em São Tomé e Príncipe, e mesmo carregado com a mochila da máquina fotográfica e o saco de viagem, o caminho fez-se sem a mínima perturbação. Cheguei ao aeroporto por volta das treze e trinta, e só nesse momento estava a descolar o voo da manhã. O que é certo é que não houve mais atrasos, e o voo da tarde saiu mesmo dez minutos antes da hora. No aeroporto de São Tomé, estava a rapariga portuguesa que tinha viajado comigo para o Príncipe e havia encontrado no resort Bom Bom. Ia apanhar o voo para Luanda, e foi inevitável falarmos sobre a tempestade da manhã e o atraso no voo dela. Houve temporal também em São Tomé, e o avião fez quatro aproximações à pista até conseguir aterrar. Não foi nada fácil e não ganhou para o susto. Pouco depois já estava a caminho de casa, e sendo que faço os possíveis por não meter muita palha, em todo fim de semana não houve nada que faça grande sentido referir, por isso, voltará a haver episódio quando houver justificação para tal.

São Tomé e Príncipe – Nas Ilhas do meio do Mundo – 2016 – Episódio 5

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Começo este texto com um pedido de desculpas aos galos da cidade de São Tomé. Os galos da cidade de Santo António do Príncipe são mais esquizofrénicos, e levam a noite toda a festejar. Não sei dizer bem qual a média aritmética de manifestação galinácia nesta cidade, mas até ter conseguido adormecer, a sua intervenção sonora era contínua, quando acordei para ir à casa de banho, a meio da noite, em pleno corte energético que ocorre todos os dias entre a meia noite e as seis da manhã, os galos continuavam a cantar. Assim que o sol raiou e despertei, a cantoria continuava.

Levantei-me relativamente cedo, tomei um duche, e saí rumo ao Mira Rio para tomar o pequeno almoço. O Dimitri havia combinado comigo às sete da manhã para ir buscar o carro, e pouco passava ainda das seis e meia. Uma tosta mista, um copo de sumo atestado a partir de uma garrafa de Compal familiar, daquelas que só devem ser consumidas às refeições, e fui até à pequena loja onde devia ter a viatura para explorar a ilha. Ninguém por lá, porta fechada. Acho que foi logo mau augúrio. O rapaz da loja chegou por volta das sete e meia, e a primeira coisa que me disse, foi que o carro não tinha bateria. De qualquer forma, deu-me a chave e pediu-me para tentar. Supostamente na noite anterior, acendia as luzes do tablier e buzinava. Dei à chave e nem sinal. Estava mesmo descarregada. Já uma outra vez havia falado sobre o perigo de se fazer planos em São Tomé. Não se devem fazer. É ir andando leve-leve. Sempre que se organiza tudo muito ao pormenor, nunca nada corre como esperado. Na minha cabeça tinha tudo muito bem alinhavado. De manhã, partia rumo ao sul, Roça Abade, Miradouro, e quem sabe Terreiro Velho. Regresso à cidade e almoço, e da parte da tarde, norte. Belomonte, Bom Bom, Sundy, e, caso desse tempo, ainda pelo menos Porto Real. Ainda houve quem me aconselhasse a Roça Infante, mas há quem diga que já só tem ruínas devoradas pela selva. O que não deixa de ser um bom motivo fotográfico. Liguei ao Dimitri, que me disse estar em Bom Bom, e que assim que conseguisse, iria buscar uma outra bateria e depois seguiria para a cidade. Disse-me para ir para a Santa Casa da Misericórdia, e assim que tivesse a situação resolvida me ia lá entregar o carro. Onze da manhã, e nada. Liguei ao Dimitri. A bateria que arranjou não servia, era maior. Iria usá-la para carregar a da viatura e depois logo me dizia algo. Respirei fundo, engoli em seco, e pensei, o que tiver que ser, será. Resolvi ir almoçar ao restaurante Beira Mar, e quando cheguei, estava lá o Celestino. Como trabalha até às catorze, havíamos combinado que de manhã eu iria sozinho para o sul, e de tarde apanhava-o na cidade, e guiava-me pelo norte. Expliquei-lhe tudo o que se tinha passado, e ele começou logo a fazer conversa com os locais que estavam no restaurante. No Príncipe não existem serviços de aluguer de viaturas. O que acontece, é que os locais que têm carros, ou porque estão a trabalhar, ou porque não têm nada para fazer, alugam-nos e sempre têm um rendimento extra. Houve logo uma solução alternativa. Um senhor ofereceu-se para me levar pelo norte, Belomonte, Bom Bom e Sundy, por seiscentas mil dobras, ou como se diz em São Tomé e Príncipe, seiscentos contos. Entretanto eu aguardava por notícias do Dimitri. O senhor da opção B teve que ir fazer algo e disse que já voltava. Nesse preciso momento telefona-me o Dimitri a dizer que já tinha o carro e a perguntar-me onde estava. Situação resolvida e a promessa de desconto relativamente aos cinquenta euros combinados para o aluguer do dia todo. Apesar de no dia anterior ter visto o carro de relance no quintal onde estava estacionado e de pela manhã ter entrado nele para testar a bateria, nem tinha reparado bem que tipo de viatura seria. Quando o Dimitri chegou com o Toyota Avanza ao restaurante Beira Mar, pensei para mim, que se apanhasse estradas em mau estado, não seria a viatura indicada para esse tipo de aventuras. Não havia de ser nada. Deixou a viatura a trabalhar e aconselhou-me para durante a primeira hora de uso, de cada vez que parasse, para deixar sempre a mesma em funcionamento. Assim fiz. Rumei à Santa Casa da Misericórdia para ir ao quarto buscar a mochila da máquina fotográfica, e parti rumo ao sul.

Miradouro

A primeira parte da viagem já eu conhecia, de quando fui a pé à Praia Évora. A estrada principal até ao desvio para essa praia está em condições bastante boas, e logo a seguir, curva para a direita e sobe. Cerca de um ou dois kilómetros a seguir, acaba o pavimento, e começa a terra batida. Uma espécie de barro vermelho escuro, duro, cheio de fendas, rasgos e socalcos. Com um carro de cidade, com umas rodinhas pequeninas, comecei a pensar em que aventura me estava a meter. A minha ideia seria ir primeiro à Roça Abade. Pelo que sabia pelo mapa que tinha na cabeça, haveria de ter um desvio para a esquerda algures. Do aeroporto para a cidade todos os locais estava bem assinalados com placas, pelo que fui andando à espera de ver alguma que referisse Roça Abade, ou mesmo apenas Abade. A certo ponto a estrada começa a piorar. Os sulcos eram maiores, e tinha que andar de uma margem da estrada para a outra, em slalom para escolher as trajetórias menos más. A certo ponto, comecei a duvidar de onde estaria. O Príncipe é pequeno, e é difícil alguém se perder por aqui, caso me enganasse numa estrada, não seria grave, era fazer inversão de marcha e voltar pelo mesmo caminho. Neste ponto, já tinha percebido que havia falhado o desvio para a Roça Abade, e assim que vi uma pessoa junto à estrada, perguntei se o Miradouro era por ali. Afirmativo. Segui viagem. Numa pequena subida, ainda em pior estado do que qualquer parte do trajeto, cruzei-me com a primeira viatura desde que saí da cidade. O caminho menos mau era pelo lado esquerdo, pelo que tive que espera que o jipe descesse, para depois passar eu. No cimo da subida, do lado esquerdo, um espaço não muito grande, mas aberto o suficiente para estacionar alguns carros, e não muito difícil de perceber de que aquilo, era o Miradouro. Via-se o Ilhéu Boné de Jóquei dali. Fiz algumas fotografias, fiz inversão de marcha, e voltei para trás. Antes ainda olhei e pensei que mais para a frente, haveria uma clareira mais perto do Ilhéu, em que o pudesse fotografar mais imponente. Depois pensei que caso isso fosse verdade, me haviam informado. Talvez só da Roça Terreiro Velho, mas com o secretismo do Claudio Corallo relativamente à sua plantação de cacau, presumi que me fossem colocados obstáculos lá. Não tomei essa opção.

Roça Abade

Pouco depois de passar a placa da Roça Nova Estrela, há uma entrada para sul, e pensei ser essa a estrada para a Roça Abade. O meu instinto não me deixou descansado, e após umas crianças me encolherem os ombros, encontrei um adulto, que me disse que ali era Nova Estrela. Para a Roça Abade, teria que voltar para trás, e o caminho para Abade estaria assinalado por uma placa, onde tinha uma estrada para a direita ( na direção em que devia seguir, como se voltasse para a cidade ). O que é facto, é que não havia placa nenhuma. Nem numa nem no outro sentido. Sei porque verifiquei. Estava um camião com uns rapazes a carregar uns sacos, e disseram-me que sim, era por ali o caminho. Estava em bom ritmo, e deveria conseguir ir à Roça Abade, voltar à cidade, e ver o norte da ilha ainda. A Ilha do Príncipe é como um bolo. Um grande planalto, em que junto ao mar, é alto, íngreme. Por dentro tem vales esculpidos, e alguns picos e formações vulcânicas. Junto à costa, descidas a pique leva-nos até junto do mar. O caminho para a Roça Abade é assim, a descer, com uma inclinação razoável, curva e contracurva, e a estrada cada vez pior. Coitado do Toyota Avanza. Aqui e ali uma mota passava por mim. E eu continuava a descer. E o mar que nunca mais aparecia. O caminho, pontualmente era cortado por uma vala, com umas barras de ferro para que as viaturas pudessem passar. Algumas dessas valas não estão em bom estado, e o terreno antes e depois das mesmas, em certos pontos, esta mesmo muto mau. Algumas tinha mesmo que parar, meter primeira, e passar devagar. E continuava a descer. Deve ser depois da próxima curva, pensava eu. Mas a estrada continuava. Quando já começava seriamente a pensar fazer inversão de marcha, chego junto ao mar, e a estrada começa a seguir a costa. Uma pequena ponte sobre um riacho, mais curva menos curva, e chego à comunidade de Praia Abade. Já começava algo a bater certo. A estrada aqui começa a entrar para o coração da ilha de novo, e a subir. O estado, que já era mau, começa a piorar. Mais curva menos curva, vira de novo para o lado do mar, até que, quando eu pensava que não estava a ir a lado nenhum, chega a uma ruína. Para cima, acaba a estrada, e para a direita, segue um caminho, coberto de ervas entre cinquenta centímetros e um metro de altura e dois sulcos à medias das rodas das viaturas. Pensei que não seria por ali. A muito custo faço inversão de marcha, e começo a descer. Aparece um pastor com umas cabras, e pergunto-lhe onde estava. Roça Abade. E diz-me ele que no final da estrada há um hotel. Final da estrada? Pensava eu que o final da estrada era onde fiz a inversão de marcha. Não. Afinal era para seguir pelo capim. O caminho contorna um edifício em ruínas, faz uma curva de noventa graus junto a uma das esquina, e sobe em direção a um pequeno terreiro, e do lado esquerdo aparece uma casa colonial. Estava na Roça Abade. Só lá se encontravam uns clientes, e os empregados da roça. Tirei umas fotos, e pelo caminho longo, mais longo ainda pelo estado da estrada, regressei. Liguei ao Celestino, que me disse que conseguia sair mais cedo do trabalho, e assim quem eu chegasse à cidade, já estaria pronto para seguir comigo para norte. O regresso não foi tão duro. A dificuldade na condução era a mesma, algum cuidado a descer, o carro escorregava com as pedras, muito cuidado a usar os travões, a prudência dizia que o mais certo era meter primeira e deixar o motor do carro travar. Depois da Praia Abade, seria subir, subir e subir, até chegar ao topo do bolo. Aos poucos, com a prática de escolher os sulcos menos profundos para as rodas do bolinhas, já fazia o percurso com mais mestria, e quando cheguei ao topo, senti aquele orgulho de trabalho bem feito, e segui rumo à cidade com as janelas bem abertas e o vento no rosto.

Belomonte

Parei no Mira Rio, e pouco depois chegava o Celestino. Saímos da cidade pela estrada que segue para o aeroporto. Ficando Santo António do Príncipe num vale, o caminho para o aeroporto é feito a subir, estrada de montanha, curva e contracurva. Algumas das viragens são autênticos cotovelos, e há que ter cuidado com os veículos em sentido contrário, que aproveitam para cortar nas curvas. Quando cheguei à ilha, no caminho para a cidade, reparei que os locais estavam todos bem sinalizados, mas reparei que, por exemplo, o sentido Roça Paciência e Belomonte, só é visível a caminho da cidade, no sentido contrário não são visíveis as indicações. Uma certa parte do percurso é plana, estamos na cobertura do bolo, mas a determinado momento, quando já estamos perto do mar, o terreno torna-se mais acidentado. Pouco depois acaba o alcatrão e começa a terra batida. Desce-se e sobe-se. Curva e contra curva. Logo ao início passamos umas ruínas que presumi serem relativas à Roça Paciência, e mais à frente, uma laca que diz já estarmos em terras de Belo Monte. Tal como na ilha de São Tomé, com a diferença do tipo de árvores que encontramos aqui, a paisagem nesta arte chega a lembrar a serra de Sintra, para quem conhece. Passamos uma árvore Ocá com um diâmetro impressionante, que nos leva a pensar sobre os milhares de anos há que as suas raízes rasgam o chão. Imaginei também o século XIX, em que estes caminhos se faziam a cavalo, e se usavam carroças para transportas mercadorias. Na parte final do caminho, começamos a subir de novo, até que voltamos à parte de cima do bolo, mas desta vez num dos seus extremos. Nordeste. A roça Belomonte fica num plano alto, um terreiro plano, e transparece logo à chegada como a Roça mais bem cuidada que já vi nas ilhas de São Tomé. Esta roça é hoje um hotel de luxo, e é evidente todo o cuidado com os detalhes presente deste a entrada no espaço. Após a nossa chegada, são-nos dadas as boas vindas por algum do staff e um dos responsáveis, e sou informado que só não é possível mostrarem-nos os quartos porque o hotel se encontra cheio. Mas a casa grande está aberta e é-me dada toda a liberdade para circular pelo espaço. O bom gosto e o requinte abundam nesta unidade hoteleira, a parte de trás do restaurante, dá para um pequeno patamar que serve de miradouro, e de onde se pode ver o mar e mesmo o ilhéu Bom Bom. A casa grande, que serviu de residência à Maria Correia, de que voltarei a falar no próximo episódio, pois na ilha do Príncipe ouvi versões alternativas à sua história. Mantenho a versão que contei num dos episódios anteriores, e na altura certa explicarei o porquê.
O mobiliário, os materiais, os acabamentos, o requinte, estão num nível impressionante em todo o edifício. No terreiro da roça, as árvores, o jardim, todas as plantas, a relva, tudo certinho e apurado ao ínfimo detalhe. Saímos rumo à famosa Praia Banana, que de caminho, tem o não menos famoso precipício. A roça Belomonte, como havia referido, encontra-me num plano elevado, embora já bastante perto do mar. Para a praia, começa-se a descer, de forma íngreme. Quando a estrada passa de novo junto à Roça, podemos observar que a mesma está em expansão. Há uma aposta no turismo na Ilha do Príncipe, a modernização estradas, o aumento da pista do aeroporto, e os recentes planos para mais unidades hoteleiras são prova da aposta nesta atividade. Pouco depois, mais perto do mar, surge um pequeno espaço, com um muro e alguns bancos. É o precipício. Literalmente. Com uma altura considerável, a terra parece ter sido cortada abruptamente, e a rocha negra irrompe , perpendicular ao solo, rumo à floresta que está lá em baixo, ao nível do mar. O nosso olhar é no entanto impelido na direção da Praia Banana. Do lado esquerdo, uma camada de verde intenso, seguida de uma camada de areia dourada e brilhante, à qual se segue uma camada de azul turquesa, claro e transparente e de seguida outros tons de azul, do mar mais fundo, do negro das rochas que se encontram no fundo e depois o azul profundo rumo ao mar alto. Mais à esquerda observa-se ao longe o ilhéu Bom Bom. A descida para a Praia Banana continua íngreme. Deve ser feita com cuidado, pois a estrada de terra batida está coberta de pequenas pedras, que fazem as viaturas deslizar por cima ao mais pequeno toque no travão, curva e contra curva cortadas na encosta profunda. A descida termina num pequeno espaço, em que a terra dá lugar a areia, coqueiros e palmeiras enormes e esbeltos, elegantes, que tapam a luz do sol, criando um ambiente de sombra cortado pelo som das ondas. Aqui tem um pequeno posto ocupado por guardas do Hotel Belomonte, e após estacionarmos a viatura e seguirmos a pé, um pequeno bar e mesas, onde são servidas refeições. Encontrei aqui um casal que fez a viagem de avião comigo. A senhora, inglesa, reconheceu-me e veio falar comigo, testemunhando o quanto estava impressionada com a beleza da ilha, e com o surpreendente tratamento que estava a receber naquele local. Sem o terem solicitado, apenas informado na recepção que iriam dar um passeio a pé até à praia, foram surpreendidos pouco tempo depois pelo staff do hotel com a refeição servida ali mesmo, nas mesas perto do mar. Um jantar ao sol posto na Praia Banana, deve ser um daqueles pequenos prazeres indescritíveis e inesquecíveis. De repente, saímos da sombra e da proteção de palmeira, coqueiros e carroceiros, e surge a areia dourada e clara, a descer, e logo, poucos metros à frente, o mar. Aquele azul turquesa que só vemos nos postais ou em fotografias de revistas é impressionante, e leva-me a questionar se estou num lugar real. A água é morna, como é apanágio do mar nesta parte do mundo, e só apetece ficar aqui para sempre. Mas ainda há mais para ver, e após uma breve passagem pela água, regressamos ao carro e seguimos viagem.

Bom Bom

Após a estrada de montanha que nos leva do alto de Belomonte, por vales e subidas, até ao alto do centro da ilha, e após voltarmos ao pavimento alcatroado, chegamos ao aeroporto do Príncipe. A estrada alcatroada acaba aqui, e voltamos à terra batida, árida e vermelha, com alguma brita. Começamos de novo a descer, curva e contracurva, rumo ao litoral. Pouco depois mais um Ocá gigantesco, e depois obras na estrada. A mesma vai ser pavimentada, e passamos por alguns grupos de trabalhadores e máquinas em plena atividade. A certo momento cruzamo-nos com uma máquina enorme, e temos que esperar que a mesma saía para a berma, para podermos depois seguir viagem. Entretanto chegamos à entrada do Resort Bom Bom. Os seguranças mandam-nos esperar, enquanto ligam para alguém. Pedem-me o nome e perguntam-me o que estou ali a fazer. Após lhes dar as informações, mandam-me seguir e esperar no estacionamento. Pouco depois reparo que um dos seguranças fez todo o caminho a pé. Se tivesse percebido que era para esperar por ele, tinha-o convidado a fazer o percurso no carro. Chegou e levou-nos à recepção. Fomos recebidos por pessoas muito simpáticas, que nos deram as boas vindas e me deixaram à vontade no espaço, com o reparo, compreensível, de ter cuidado com a privacidade dos clientes, pois o resort é composto por bungalows. Após passar pela piscina, ao final da praia começa um passadiço de madeira, que serve de ponte até ao ilhéu, onde está situado um bar e restaurante do empreendimento. A forma como os bungalows se inserem na paisagem é perfeita, e a beleza da praia é imensa. Diferente do ambiente da roça Belomonte, temos aqui uma versão diferente do paraíso, esta talvez um pouco mais selvagem, mas igualmente requintada. Olhando para trás na direção da ilha, vê-se o vértice onde começa o passadiço, do lado direito a Praia Bom Bom, e do lado esquerdo, mas discreta, mas não menos esplendorosa, a Praia Santa Rita. Bem ao longe, do lado esquerdo, é possível vislumbrar o precipício da roça Belomonte. Pela ponte rumo ao ilhéu, pode observar-se a água transparente que separa o mesmo da ilha. A areia é completamente branca, e aqui e ali surgem pequenas rochas negras, daquele negro vulcânico. Numa noite de lua cheia, dá-se aquela ilusão de óptica, de que não existe água, apenas se vê o fundo, tal é cristalina a água. No ilhéu, o bar e o restaurante, algumas mesas à sombra de carroceiros, palmeiras e coqueiros, um pequeno pontão e dois barcos ancorados ao largo. Pouco depois voltamos, pois ainda tinha planos para visitar a roça Sundy. A chegar ao final do passadiço, encontro uma rapariga portuguesa que veio no mesmo voo que eu de São Tomé para o Príncipe. Está a viajar sozinha, e após uns dias em São Tomé, veio três dias para o Resort Bom Bom, e tal como eu, viajaria no dia seguinte de regresso. Depois seguiria para Angola. Despedi-me, e seguimos para o carro, para ainda aproveitar a luz do dia na Roça Sundy. Pelo caminho encontramos menos trabalhadores, o dia de trabalho já se aproximava do término, e à nossa frente seguia uma carrinha que levantava uma poeira intensa como uma nuvem, de uma amarelo avermelhado forte, que pouco deixava vislumbrar da estrada em frente. A seguir ao aeroporto, entrou num estaleiro. Nós seguimos em frente, na estrada de regresso à cidade.

Roça Sundy

Sempre que via fotografias e referencias a esta Roça, a ideia de que tinha, era de que o nome derivava de alguma companhia anglo-saxónica, que em pleno século XIX tivesse explorado o espaço. Embora a ligação dos Cadbury à ilha nunca tivesse sido pacífica, São Tomé e Príncipe dominou o comércio mundial de cacau, e como fabricantes de chocolate, mesmo que não diretamente, não seria descabido que uma empresa de capitais ingleses tivesse controlado a propriedade. Sabia também da experiência levada a cabo por Arthur Eddington nesta roça, o que também servia de base à razão que eu pensava ser a da denominação desta roça. Nada disso. Segundo consta, um dos primeiros proprietários, tendo-se tornado num dos mais importantes, era um nativo chamado Dias. Sendo patrão, era chamado por toda a gente de Senhor Dias. No crioulo do Príncipe, a palavra “senhor” toma a denominação de “sun”. Senhor Dias. Sun Dias. Sun Dia. Sundy. Há algumas histórias ligadas a esta roça, relativas a um proprietário posterior ao SunDias, que se cruzam com versões alternativas sobre a Maria Correia. Ficam para o próximo episódio. Do aeroporto seguimos na direção da cidade, até surgir a placa que indica Sundy. A estrada é de terra batida, mas surpreendentemente está em muito bom estado. Pouco buracos, piso relativamente plano. A estrada atravessa quase todo o centro da ilha, em direção ao extremo Noroeste. Em certos pontos, a vegetação é intensa e quase impenetrável. É fácil perceber sempre qual é a estrada principal, mas aqui e ali, seguem estradas noutras direções. Levam a outras roças mais pequenas. Pouco tempo depois, aparecem os primeiros edifícios e chegamos à roça Sundy. Um guarda levanta uma cancela, e em frente podemos ver a casa principal, em excelente estado, recentemente recuperada. Do lado esquerdo segue um antigo caminho de ferro, já em muito mau estado. Do lado direito da casa tem um pequeno portão que dá acesso ás traseiras, onde se encontra um marco comemorativo da data de vinte e nove de maio de mil novecentos e dezanove. Data em que se deu um eclipse total do sol, e em que o britânico Arthur Eddington realizou na roça Sundy uma experiência que veio a comprovar a Teoria da Relatividade de Einstein. Ao lado, há um painel explicativo da referida experiência. O pequeno pátio forma um miradouro, de onde é possível ver lá abaixo, ao fundo, por entre as árvores, o mar. Saindo do de novo para o terreiro, pelo lado esquerdo há alguns edifícios em mau estado. Um segundo terreiro onde continua o já em estado terminal caminho de ferro, e ao fundo um grupo de homens convive por debaixo de um enorme caroceiro. Do lado esquerdo, uma das imagens que tinha na minha memória relativa a esta roça, uma curiosa muralha que parece um castelo, e na parte central, um arco e por cima um relógio. Ao longo de toda a muralha, por cima, as ameias. No extremo esquerdo da muralha, e junto a um outro edifício em mau estado, segue o caminho de ferro. O sol já começava a baixar, e a luz já não era a ideal para fotografar neste sítio. A luz da manhã ou o sol a pique, permitiriam outras soluções fotográficas. Estava terminado o passeio e seguimos de volta para a cidade. Como já referi, a ilha é pequena. Antes de entregar o carro, meti cento e cinquenta contos, cerca de seis euros de gasolina, deixando o depósito com mais combustível do que quando a viatura me tinha sido entregue. Tendo viajado por toda a ilha, foi um consumo bastante económico. Faltou conhecer Porto Real, a roça Infante, a roça Maria Correia, e a comunidade de São Joaquim. Há uma série de praias paradisíacas na ilha, cujo acesso se faz apenas por mar. Esses planos não seriam para agora. Entreguei o carro ao rapaz da loja, que ligou para o dono do carro, que está na ilha de São Tomé, para que negociássemos o preço da viatura, uma vez que devido ao problema da bateria, seria feito um desconto. O senhor Idalécio ( o dono ), disse que seria justo que fosse eu a decidir o preço a pagar. Resolvi ser generoso, e ofereci quarenta euros, com a condição de no dia seguinte, pelas quinze horas, alguém me levar ao aeroporto. O Celestino seguiu para casa, e eu fui ao Mira Rio comer apenas algo leve. Era dia de deitar cedo, o que no Príncipe é bastante normal, pois tinha planos para o dia seguinte. Mas isso fica para o próximo episódio, que mais uma vez terá planos furados, e histórias de misticismo e fantasia. A não perder.

São Tomé e Príncipe – Nas Ilhas do meio do Mundo – 2016 – Episódio 4

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Com o nascer do sol já se ouve movimento na rua. Não demorei muito mais a me levantar, e na estrada em frente ao edifício grupos de crianças passavam, nos seus uniformes azuis, a caminho da escola. Saí e fui até ao mercado, na esperança de comprar umas peças de fruta. Banana, só havia da verde, para cozinhar. Havia ananás, mas não dá jeito para comer assim na mão, é preciso tirar a casca. Tomei o pequeno almoço no Mira Rio, aproveitei para tratar dos emails e publicar o diário do dia anterior, comprei uma garrafa de água das grandes, e resolvi meter-me à aventura. A pé, segui a margem direita do rio papagaio, em direção ao mar. É a estrada que vai para a Roça Terreiro Velho, a do Claudio Corallo, o homem do chocolate, ou Roça Abade. A determinada altura, no cimo de uma subida, a estrada boa segue para a direita, e sempre em frente vai um caminho que outrora já foi pavimentado, mas agora é um misto de terra, pedras, buracos e ervas. Eu andava à procura do caminho para Ponta Mina, onde estão as ruínas de um forte português que servia para fazer a defesa da baía de Santo António. No outro lado da baía havia outro forte. Supostamente, entre as ruínas de Ponta Mina, existem alguns canhões, que segundo dizem, estão amontoados no mato. A certo ponto, há uma bifurcação. Para a direita segue a estrada má, nas mesmas condições que me haviam trazido até este ponto, e com um pequeno altar a dividir, segue para a esquerda um caminho pior. Presumo que seja esse o caminho para Ponta Mina, mas resolvi seguir o outro, pois já me tinham falado de que por esta zona há uma praia. O barulho do mar parecia confirmar que devia ser por ali, e pela primeira vez desde que saí da cidade, a estrada começa a descer. Chegado ao fundo, lá estava a placa a dizer “Benvindo à praia Évora”, num caminho para a esquerda, enquanto que para a direita a estrada subia naquilo que parece ser em contorno da costa. Desci até à praia e aproveitei para dar um mergulho e descansar um pouco. Entretanto a água que tinha comprado já estava em estado chá. Depois de caminhar um pouco pela praia para me secar, fiz o caminho inverso até ao pequeno altar. No Príncipe, que eu saiba, não existem animais perigosos. Centopeias, aranhas, e pouco mais que isso. As cobras aqui penso que são inofensivas, e depois há pássaros sem fim, enxames de pequenas borboletas de cor azul clara, e muitos lagartos, ou lagartixas, como lhes queiram chamar. Eu acho que são pequenos lagartos, pois são maiores que as lagartixas que há em Portugal, e têm uma textura que é quase brilhante, e chega a parecer quase como a dos peixes. Bem, a imaginação tem um grande papel a exercer nas nossas percepções, e quando se anda sozinho no meio da selva, com aqueles sons todos da natureza, os lagartos na berma da estrada a fugirem por debaixo das folhas, começamos a nos sentir um pouco desconfortáveis. A última pessoa que havia visto, devia estar a uns dois kilómetros de distância pelo menos, pelo que me apressei no caminho de volta. Estranho que ainda não vi um único papagaio no Príncipe, mas tenho a certeza de alguns dos sons que ouvi, eram deles. Quando cheguei à bifurcação onde penso ser o caminho de Ponta Mina, lembrei-me que estava de sandálias, e decidi que não me ia meter num trilho, no meio das ervas, sem outro tipo de calçado, pelo que decidi que logo voltaria noutra altura, com outra vestimenta. Pouco depois já estava na estrada pavimentada, e desta vez o caminho fazia-se a descer.

Depois de um duche para tirar o sal e o suor, ainda tinha que fazer um pouco de tempo para o almoço. No Príncipe, tudo se faz mais cedo do que em São Tomé. Meio dia é a hora para se almoçar, e entre as dezoito e as dezanove janta-se. Fui de novo ao Mira Rio, beber uma tónica, e tentar, apesar da internet não ser grande coisa, publicar as fotografias do dia anterior. Foi uma tarefa hercúlea, mas consegui. Cerca de quarenta minutos depois estavam publicadas. Calhou bem, era hora de me dirigir ao restaurante Paraíso, perto da Assembleia, para comer uma feijoada à moda da Terra. É uma feijoada feita com vários peixes, dos nomes que consegui reter, pargo, bonito, peixe seco. Para a sobremesa, como não podia deixar de ser, ananás. E deixem que vos diga, eu podia levar o resto do meu tempo aqui a comer ananás. Nunca comi ananás tão bom. Já ontem ao almoço no Mira Rio o ananás era tão doce que chegava a fazer impressão. De regresso, perto da ponte sobre o Papagaio, vi pela primeira vez jaca a ser vendida, mas não estando arranjada, e só com as mãos, iria ficar todo peganhento, pelo que resolvi não arriscar.

A Maria Correia era filha bastarda do Rei D. Luís, e em meados do século dezanove, por se portar mal na corte ( consta que a rapariga era uma libertina ), como castigo, o Rei, seu pai, deu-lhe a ilha do Príncipe, e desterrou-a para cá, que assim já não seria um embaraço. Hoje em dia a Assembleia fica no edifício que servira de palácio à Maria Correia, embora a sua residência oficial fosse na Roça Belo Monte. Para satisfazer o seu voraz apetite, escolhia um escravo viçoso que lhe proporcionasse uma noite bem passada, mas como não ficaria bem que um escravo depois andasse por aí a dizer que tinha passado a noite com a filha do Rei, pela manhã, o desgraçado era atirado do precipício que existe na roça, junto ao mar. Dizia-se da Maria Correia, que tinha requintes de malvadez, e algum bandido que fosse apanhado tinha como destino ser atado a uma estaca no meio da baía, durante a maré baixa. Depois, a maré enchia. Só voltaria a ser retirado quando a maré estivesse vazia de novo, pelo que podem perceber, que a menos que tivesse guelras, só saía dali para um buraco no chão. Pensou o Rei D. Luís que na ilha do Príncipe se livraria dos embaraços causados pela filha, mas depressa começou a ter que se justificar, principalmente com a corôa inglesa. Talvez seja essa a origem do ódio de estimação que a família Cadbury ( sim, aqueles mesmo dos chocolates Cadbury’s ) passou a ter pelo comércio português de cacau. Passavam pelo Príncipe navios negreiros, de esravos, ou navios carregados de mercadorias. A Maria Correia convidava as tripulações a terra, e oferecia-lhes grandes banquetes, enquanto os seus lacaios pela calada assaltavam os navios, roubando a carga, fosse ela de mercadorias ou de escravos. As queixas sobre estes actos de pirataria começaram a chegar à corte portuguesa. Em relação ao facto do ódio da família Cadbury’s para com Portugal, há um episódio, muito mais para a frente, em que um dos membros dessa família foi apontado internacionalmente para verificar os moldes em que se fazia a produção de cacau, e denegriu completamente Portugal, acusando de praticar a escravatura quando essa mesma estava abolida. Não é que o sistema de contratados não fosse uma espécie de escravatura, mas num dos próximos dias explico como tal se processava.

São Tomé e Príncipe – Nas Ilhas do meio do Mundo – 2016 – Episódio 3

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Apesar do check-in só começar às oito, aproveitei o facto do Cesaltino ir levar o meu primo Ricardo à escola, Instituto Diocesiano de Formação João Paulo II, que fica quase no caminho para o aeroporto. Mais uma vez, agora não de forma propositada, era o primeiro a chegar. O céu estava limpo e, pasme-se, via-se o pico de São Tomé. Também, foi sol de pouca dura, trinta minutos depois já estava coberto de neblina. Uma senhora aproveitou o facto de eu ter apenas um saco de viagem para despachar, e pediu-me para levar uma mala para o Príncipe. Ao todo devíamos ser uns doze passageiros, e na sala de espera começamos a conversar uns com os outros. Um casal britânico, dois casais alemães, um dos quais já com uma certa idade, e uma rapariga portuguesa a viajar sozinha, que depois dos três dias que vai passar no Príncipe, segue viagem para Luanda. Haviam três senhores santomenses que se mantiveram à parte e não entraram na conversa. O mais certo seria que não falassem inglês. O embarque começou mais cedo que o planeado, e foi engraçado de observar o espanto dos estrangeiros ao verem o avião que faz a ligação entre as ilhas, o Africa’s Connection. É um pequeno avião de dezoito lugares apenas, com uma hélice em cada asa. O voo foi calmo, e pouco depois de se observar as Tinhosas, dois bocados de rocha perdidos no meio do oceano, aparece a Ilha do Príncipe pela frente. O voo segue a ilha pelo lado poente, esse bocado de massa verde que sai do mar, curva após o Ilhéu Bom Bom, e pouco depois faz a aterragem no aeroporto, que fica na zona norte da ilha.
Após todos os turistas serem recebidos pelos transferes para os hóteis, um senhor santomense que veio no voo perguntou-me se eu precisava de boleia. Deixou-me mesmo à porta da Santa Casa da Misericórdia do Príncipe, que vai ser o meu poiso nestes três dias e meio que vou passar cá. A Dona Iáia veio receber-me e indicou-me o quarto. Cerca de dezena e meia de pessoas idosas estavam na sala a ouvir a Rádio Regional do Príncipe, que parecia estar a transmitir a sessão da assembleia regional, uma espécie de canal parlamento português, mas aqui em versão rádio. Instalei-me no quarto, e quase sem dar por isso, piso uma centopeia com cerca de dez centímetros. Escusado será dizer que agora, de cada vez que entro no quarto, passo o chão e as paredes a pente fino. O quarto tem duas camas com rede mosquiteira por cima, e as condições são excelentes para o preço que se paga, no meu caso, doze euros por noite. A senhora diz-me que o único senão é não haver água quente, o que neste clima tropical não faz a mais pequena diferença.

Pego no material fotográfico, e vou explorar a cidade capital mais pequena do mundo, título garantido pelo facto de a Ilha do Príncipe ser considerada uma região autónoma. Ao voltar ao alojamento, aproveito para me sentar na sala, e digitar o episódio do dia anterior. Mesmo quando estava a terminar, liga-me o meu primo Hamilton, a dizer que contactou um amigo que vive no Príncipe para me dar algum apoio por cá. Pergunto onde há sinal wifi que se possa usar, e sou encaminhado para um restaurante/pensão chamado Mira Rio. De caminho ligo para o Celestino, o amigo do meu primo, e digo-lhe que vou almoçar no Mira Rio.
Aproveito para publicar o diário de viagem, ver os emails de trabalho, e de repente acaba-se a internet, apesar de ter o sinal wifi no máximo. A ementa é porco assado no forno, com banana frita e arroz. Bebo uma água tónica, que por conter quinino é uma boa prevenção para a malária, e é-me apresentado o molho picante mais bombástico que já provei nestas ilhas. A referir que o ananás que foi servido de sobremesa estava divinal. Parecia que tinha açúcar! Voltei à Santa Casa, comecei a editar as fotografias que tirei na cidade, e depois fui descansar um pouco, para tentar recuperar da caótica noite passada. Sempre com um olho no burro e outro no cigano, pois a centopeia que me recebeu de manhã não me saía da cabeça.

Ao que parece, no edifício só estou eu e o guarda, um senhor cabo-verdiano chamado Gustavo, que está há muitos muitos anos no Príncipe. Diz-me que estava um outro senhor que saiu esta manhã. Ficamos quase uma hora à conversa. Aqui, tenho que fazer outro reparo antes de continuar. Apesar de me preocupar com o futuro deste país, e seguir dentro do possível os seus trâmites, há certas coisas relacionadas com o processo de descolonização e a forma como foram geridos os destinos deste povo durante estas quatro décadas de independência, que me abstenho de comentar em público. Existe uma versão da história que é a oficial, e existe outra versão da história, que sei de cor, porque foi vivida pelo meu pai na primeira pessoa. Os factos são tão díspares entre si como a diferença entre um mirtilo e uma barracuda. Para quem não sabe, um é um fruto/baga silvestre, e o outro um peixe mau como as cobras. Numa das minhas viagens anteriores, falei sobre este tema, e como me espanta alguma juventude, nascida em plena independência, ter uma linha de pensamento tão radical-nacionalista, apontando armas ao colonialismo, que diga-se de passagem, já lá vai há mais de quarenta anos, não vai voltar, e apesar de haver pessoas que viveram essa época ainda entre nós, quem poderia personificar essa imagem de colono, que os houve homens muito maus, de mau carácter com toda a arrogância da sua suposta superioridade, há muito que se foi. Dito isto, a primeira frase que o senhor Gustavo me disse, foi: “Isto era tão lindo, tudo arranjado, sabe, esta estrada aqui era para dar a volta à ilha, as roças produziam, os portugueses tratavam de tudo e estavam a fazer estradas melhores…sabe, depois veio o 25 de Abril e estragou tudo.” Atenção que não tomo o partido do colonialismo, mas quando observo pessoas que viveram o período colonial a maldizerem a independência, e miúdos que nasceram em plena e firmada autodeterminação a culparem os portugueses por tudo o que o país não conseguiu firmar em quatro décadas de governo do seu próprio destino, percebo que algo está errado nestas linhas de pensamento radicais.

Começou a chover, mas o céu parece limpo no local onde estamos, e forma-se um arco-íris sobre a baía de Santo António. Nunca tinha visto por cá uma chuva assim, gotas enormes, grandes, e muito espaçadas entre si. O senhor Gustavo explica-me o caminho para as ruínas do forte de Ponta Mina, onde há alguns canhões portugueses, caídos no meio da vegetação, e que o meu tio Armando, militar de carreira e estudioso destas peças bélicas do antigo império colonial, me pediu para fotografar. “Aqui ninguém quer trabalhar, só querem festa”, adicionou, “ainda hoje, quem faz aqui alguma coisa são os estrangeiros.”. Despedi-me e segui para o Mira Rio, para beber uma água tónica, e ver se apanhava internet. Fiquei-me pela tónica, pois não há internet. Soube que o menu para o jantar é o mesmo que foi ao almoço. Não me apetece. Vou ver se o Celestino aparece e me aconselha outro local, ou então como uma tosta ou algo assim. Ele ficou de ver um carro para alugar por bom preço, para amanhã de tarde, após sair do trabalho, irmos visitar as roças e os pontos mais interessantes da ilha. A cidade de Santo António fica no sopé de um vale. De cada um dos lados duas paredes de verde intenso, denso, de ar majestoso e impenetrável. Pelo meio passa o rio Papagaio. Para o interior, três imponentes massas de rocha. Três picos, segundo alguém por aqui me disse, o Infante D. Henrique, o Maria Correia e o Morro Papagaio. Tenho que vos contar a história da Maria Correia, mas fica para outro episódio, não devo gastar já os trunfos todos. Do outro lado, a baía, rumo ao mar. Falarei mais sobre a baía quando contar a história da Maria Correia.

Ao final da tarde o Celestino veio encontrar-se comigo ao alojamento, e depois seguimos a pé para o centro da cidade. Mostrou-me onde fica o mercado e locais baratos para comer. Já fiquei a conhecer alguns sítios. Na praça central, frente à Assembleia, há internet grátis, um pouco melhor que a do Mira Rio, quis-me parecer, mas com muitos jovens a usar, encalha um bocado. Depois fiquei num local perto da loja da Unitel e o Celestino foi para casa. Comi vermelho grelhado com banana frita, e, de facto, a diferença de valores em relação ao almoço no Mira Rio é significativa. Paguei duzentas e cinquenta mil dobras pelo almoço, dez euros, enquanto que o jantar me ficou por sessenta mil dobras, o que nem chega a dois euros e meio. Aqui janta-se cedo, por volta das dezanove. Depois de jantar voltei para a Santa Casa da Misericórdia, e pelo caminho descobri mais um restaurante bem mais perto. Já tenho várias opções em conta para me alimentar enquanto cá estou. Amanhã vou conhecer um pouco a ilha, entretanto esta noite será para recolher com as galinhas, que por estes lados parece que os dias começam cedo. Com o sol.

São Tomé e Príncipe – Nas Ilhas do meio do Mundo – 2016 – Episódio 2

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Retiro o que disse em relação aos galos. Esta noite foi uma festa. Um deles estava especialmente excitado, e cantava de 10 em 10 minutos. Acho que até incomodou os outros, que responderam nas primeiras vezes, e depois deixaram de se manifestar.

Bem, antes de prosseguir, pretendo fazer dois esclarecimentos que acho imperativos. O primeiro, é relativo às fotografias que publiquei referentes ao dia 18 de janeiro. A cidade de São Tomé está um pouco degradada, não há que o negar ou esconder. Há muito lixo, estradas esburacadas e edifícios devolutos. Já de outras vezes fotografei a Avenida Marginal, mas quis mostrar de novo um pouco desta zona da cidade. Não é de todo possível fazê-lo sem mostrar a degradação em que se encontra o muro, algumas partes do passeio e o muito lixo que abunda na pequena praia da Baía Ana Chaves. Algumas pessoas usam o pontão como retrete durante a noite, e, acreditem, cheira pior do que se pode presumir pelas fotografias.
O segundo esclarecimento prende-se com aquilo que tenho experienciado com a função pública santomense e a exagerada burocracia. Há episódios que de bizarros que são, chegam a ser cómicos, mas quero deixar claro que não é de todo minha intenção denegrir as regras deste país. Em Portugal acontecem coisas inacreditáveis também, noutros países ditos evoluídos também, não existem sistemas perfeitos. O objectivo aqui é apenas relatar aquela que tem sido a minha vivência por cá.

Em maio, havia entregue toda a documentação, pago todas as taxas, selos fiscais e reconhecimentos de assinaturas, e o meu processo seguiu para o gabinete do Ministro da Justiça. O meu irmão havia feito o mesmo em Abril. Passo a explicar o porquê destes processos. Tendo nascido em São Tomé, tanto eu como o meu irmão, e com mãe santomense, temos direito a pedir a nacionalidade. Com a nacionalidade podemos ter passaporte santomense, e aí deixar de necessitar de vistos para estadias superiores a quinze dias. Quando entreguei o processo, foi requerido o contacto telefónico de alguém residente, para que fosse informado quando houvesse despacho do processo. Depois desse momento há mais passos a dar. Até ao momento, ninguém havia dito nada ao meu primo Hamilton. Dirigi-me ao Registo Civil, e o senhor reconheceu-me mal entrei. Dei as minhas informações, de quando tinha sido entregue o processo e o meu nome. Levei logo um raspanete. O processo teve despacho em Julho e eu não havia acompanhado o mesmo. Informei o senhor de que estava em Portugal. Perguntei pelo processo do meu irmão. Entregue um mês antes do meu, não teve despacho ainda. Foi-me entregue um papel com o número do processo, para que seja mais fácil saber algo sobre o mesmo nas próximas vezes. Como o meu processo teve despacho, foi-me indicado o passo a seguir. Ir ao Ministério da Justiça comprar Diário ( para que o despacho seja publicado em Diário da República, pelo que percebi ). Depois de entrar em dois portões errados, lá encontrei o certo, perto da Alfândega. Nasci em São Tomé, sinto-me santomense, mas para todos os efeito, sou um europeu em África, e com este calor e humidade, calções e sandálias são quase que uma obrigação para que se tenha um mínimo de bem estar. Mas aqui é tudo muito formal. As crianças usam farda para ir à escola, muita gente anda de gravata, por aí em diante. Percebo perfeitamente, e acho que em Portugal também não seria de etiqueta ir a um Ministério de calções e sandálias. Pois claro, tive a minha entrada barrada pelos militares junto ao portão, e não tive remédio senão ir a casa vestir umas calças e mudar o calçado. Todo eu era suor de calções e sandálias, mas ainda queria tratar das coisas durante a manhã, portanto podem imaginar como me senti após mudar de roupa. A senhora do Ministério após muito procurar, lá encontrou o processo. Agora, todos os pagamentos de impostos ou serviços relacionados com a função pública, são feitos no Banco Central, através de depósito numa conta que é fornecida. A senhora informou-me que após entrega do comprovativo do depósito, o Diário sairia dentro de um mês. Um mês? Mas eu vou para Portugal dentro de semana e meia. Com pagamento de taxa de urgência fazem em quarenta e oito horas. Tudo bem, eu pago. Mas a taxa de urgência é para depositar numa outra conta. Correcto. Chego ao Banco Central, tiro a minha senha e aguardo a minha vez. Quando chamam pelo meu número, vou a um guichet onde está um senhor com a flexibilidade do Guarda Serôdio, aquele dos Amigos do Gaspar. Quem sabe quem é percebe o que estou a dizer. Quem não sabe, que procure no Youtube. Acabo de perceber, para mal dos meus pecados, que para fazer o depósito para vir a ter documentação santomense, tenho que já ter essa documentação santomense. Perceberam? A princípio eu também não, e por muito que tentasse mostrar ao Guarda Serôdio que o que ele me estava a dizer não tinha lógica, ele só me respondia que eram as regras e que não podia fazer nada. O que faço eu da minha vida? Estava perante uma impossibilidade cósmica. Eu tenho que ter já o documento, pelo qual tenho que fazer um depósito para o ter. Seja por que ângulo for que eu tente analisar esta equação, não chego a conclusão nenhuma. Um rapaz que estava à espera de vez, e que conhece o meu primo, lá disse ao Guarda Serôdio para procurar pelo nome do meu primo o número de contribuinte dele, e fazer o depósito com essa informação. O Guarda Serôdio só dizia que isso era contra as regras, e que tinha que ser o beneficiário do processo, ou seja, eu, a dar o meu número de contribuinte santomense, sendo que eu não posso ter número de contribuinte santomense sem ter nacionalidade santomense, assunto pelo qual o referido depósito é um pressuposto. A muito custo o Guarda Serôdio seguiu a recomendação do rapaz, e lá fui eu com o comprovativo dos depósitos finalizar mais esta etapa de um processo mais árduo que a escalada da encosta norte do Monte Evereste. Vou estar no Príncipe até sexta feira à tarde, por isso, só segunda vou levantar o Diário. Depois ainda tenho que regressar ao Registo Civil, pois há mais etapas a cumprir. Será que o objectivo do sistema é a desistência do candidato por cansaço físico e psicológico? Mas eu sou persistente!! Entretanto, até chegar a casa devo ter destilado um camião cisterna de suor.

Para explicar o clima de São Tomé, vou fazer um exercício com base no sotaque algarvio. É assim, explicando por alto, não tem nada que saber. É verão o ano todo, mas há duas estações: a época das chuvas, de setembro a junho, e a gravana, de junho a setembro. Na época das chuvas, chove. Na gravana, quase não chove, mas faz mais vento, e as noites são um pouco mais frescas. Para alguém que não seja do Algarve, o sotaque é todo igual. Mas para qualquer algarvio, isso não é verdade. Qualquer algarvio consegue saber a localidade de onde é outro algarvio apenas pelo seu sotaque. Sem ir muito a fundo, o sotaque de Alvor não tem nada a ver com o de Portimão, que é logo ao lado, e nenhum dos dois tem nada a ver com o sotaque de Ferragudo. Ferragudo fica no concelho de Lagoa, e o sotaque não tem nada a ver com o do resto do concelho. E ainda não saí de localidades que estão geograficamente juntas. Se começo a falar do monchiquense, olhanense ou farense, nunca mais saímos daqui. Em São Tomé, o clima não é tão complexo, mas tem mais que se lhe diga. Por esta altura há dois fenómenos, que às vezes se sobrepõem. Há a gravaninha, que não é como a gravana, mas que por volta de meados de dezembro e janeiro, faz com que as noites não sejam tão quentes. E há algo que se chama de Bruma Seca, que ocorre em vários períodos de dezembro a março. A Bruma Seca, é uma corrente de ar que vem do deserto do Saara e que traz consigo poeira, um calor de morrer, e alguma neblina. Entre outras coisas, provoca um calor abrasador e pescadores a se perderem no mar. Não é uma coisa muito simpática.
Prometi fazer este relato ontem à noite e não cumpri. Fiz depois a promessa de que valeria a pena. Quem sobreviveu à leitura até este ponto, pode nos comentários do FaceBook deixar a sua decepção caso seja esse o caso. Ou o contrário. Não é que eu faça seja o que for para ser recompensado com elogios, mas que afagam o ego, tenho que reconhecer que sim.

Houve um motivo pelo qual não consegui fazer este relato ontem ( estou a fazê-lo na sala da Santa Casa da Misericórdia do Príncipe, onde vou ficar a pernoitar nesta minha estadia, e onde tenho conhecido das pessoas mais simpáticas que alguma vez conheci, sem desprimor para todos vocês, amigos simpáticos ).

Fui jantar a um restaurante de um rapaz que conheci pessoalmente em maio quando estive cá. Na altura o restaurante ainda não estava aberto. Já estávamos no entanto conectados pelo FaceBook anteriormente. O João foi chef no Omali Lodge, um resort entre o Aeroporto e a cidade de São Tomé, e decidiu lançar-se neste projecto com muito bom gosto, que se chama o Restaurante 5entidos. Ele faz uma cozinha de fusão, com bases na comida tradicional portuguesa, na comida santomense, e com alguma modernidade à mistura. O restaurante também está muito bem decorado, e todas as mesas e cadeiras foram feitas pelo João. A segunda feira é dia de francesinha. Então, o que se passou, foi um algarvio/santomense a vir comer uma francesinha em São Tomé. Podia ter-me dado para pior. A acompanhar, algo mais tropical. Um sumo natural de goiaba e cája-manga. A sobremesa foi uma mousse de limão com amendoim moído e raspas de lima, servida numa pequena casca de côco. Estava tudo divinal.
Seria um jantar não muito prolongado e um regresso a casa ainda cedo. Aí, teria dedicado algum tempo a digitar o episódio do dia. Entretanto chega um jovem casal, estrangeiro, que demonstrava alguma dificuldade a interpretar a ementa, e o inglês do empregado de mesa andava próximo da flexibilidade do Guarda Serôdio. Da minha mesa, comecei a traduzir-lhes alguns dos pratos que eles liam num português tão arcaico como a civilização suméria. Foram-me fazendo perguntas, pedindo explicações sobre os pratos que estavam na ementa. Entre eles diziam “camarão deve ser calamari”. E dizam “bolinhas de alheira” como alguém com um sotaque cerrado de São Miguel ( Açores ) diz esternocleídomastóideu. Ele chama-se Nicolas e é belga, ela Madi e é escocesa. Trabalham no Gabão, e estão em São Tomé a passar uns dias para renovar o visto. Ou seja, para poderem continuar a trabalhar no Gabão, tiveram que sair do país, para depois voltarem a entrar e receber novo visto. Alguém lhes aconselhou o restaurante, e lá foram à descoberta. Estão completamente apaixonados por São Tomé, e garantem que além de voltar, vão promover o país por todos os amigos e conhecidos. Outra coisa não seria de esperar. Quando algum de vocês vier a São Tomé, após regressarem aos vossos destinos de origem, vão estar a contar os dias até um eventual regresso. O que toda a gente estranha, principalmente estrangeiros ( neste caso leia-se estrangeiros não portugueses ), é como é possível São Tomé e Príncipe ser ainda um destino tão desconhecido. É que não faz sentido mesmo. Entre sangrias especiais de champagne e calda de morango, gravaninhas, gin tónicos e outras delícias, o momento alto da noite foi a sobremesa na mesa. É mesmo um must see, must taste ( publiquei uma foto tirada com o telemóvel ). Após lavar a mesa de vidro com álcool, o João acende o fogo, e depois espalha com mestria sobre a mesma todas as sobremesas do cardápio. Mel, amendoim moído, mousse de limão, mousse de chocolate ( de cacau do bom ), calda de morango, raspas de côco e de lima, entre muitas outras iguarias. Quando se fazia bastante tarde, regressei a casa, que é mesmo ao fundo da rua, e tentei dormir, pois às seis e meia da manhã teria que estar de pé, para viajar para o Príncipe. Eu disse bem, tentei. O galo cantava de dez em dez minutos, os cães competiam entre eles quem ladrava mais alto. Os mosquitos picavam-me e zumbiam de cada vez que eu apagava a luz e tentava dormir, mas desapareciam de cada vez que acendia a luz para os tentar matar. Às quatro da manhã, a vizinha francesa maluca da casa ao lado, liga a televisão em altos berros. Sem deixar de referir, que mesmo havendo electricidade, a senhora tem um gerador a trabalhar a noite toda. É como ter um camião a trabalhar mesmo ao lado da janela do quarto. Entretanto, já era manhã.

São Tomé e Príncipe – Nas Ilhas do meio do Mundo – 2016 – Episódio 1

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Alguns meus amigos, a partir do momento em que lhes disse que vinha de novo a São Tomé, a primeira coisa que me disseram, foi que queriam ler as minhas crónicas de viagem. Refleti um pouco sobre se iria escrever estas minhas memórias dentro do mesmo esquema das viagens anteriores. Quando se repetem os mesmos lugares e as mesmas pessoas, as descrições não têm a mesma intensidade da primeira vez. Assim, o que decidi, é que iria escrever à medida que o tempo me deixasse, e que sentisse que teria algo a dizer.

Não gosto de chegar atrasado a nada, e prefiro sempre chegar cedo de mais e esperar. Na espera, entretenho-me a pensar, a planear. Ouço música ou leio um livro. Dito isto, não será de estranhar se disser que fui a primeira pessoa a chegar ao check-in no aeroporto de Lisboa. Não fui o primeiro a despachar-me, pois o computador do balcão não queria colaborar. Mas voltemos atrás, à fila do check-in, ainda antes do mesmo abrir. Estava eu e mais um casal quando chegou um senhor nos seus sessenta anos. Bem vestido, notava-se que o fato era caro. Já o bom gosto nem tanto. Camisa rosa deslavada e gravata rosa berrante não faziam o melhor pandam com o cinzento dia-de-chuva do casaco e das calças. Tinha ar de ser alguém importante, um ex-ministro qualquer de um dos governos que geriram o país nas primeiras décadas pós-independência. Mal chegou estava a resmungar. Para já é isto que se deve reter deste personagem. Mais tarde volto a ele.

Após o check-in, estou livre, apenas com a minha mochila, ando mais à vontade, vejo as lojas onde não vou comprar nada, pois os preços até assustam, e decido onde comer qualquer coisa. Uns quinze minutos depois de andar a queimar tempo, deparo-me com o senhor da gravata cor-de-rosa a resmungar sozinho. Com ar reprovador testemunhado pelo seu abanar de cabeça, olhava para a imagem dos hambúrgueres do MacDonalds. Resmungou qualquer coisa imperceptível, e seguiu caminho. Eu fui à loja da Fnac comprar um livro para a viagem ( e para os dias em que vou ao Príncipe ), pois esqueci-me de colocar o que já tinha pensado para a viagem na bagagem. Ficou em casa no Algarve. Comecei a minha leitura junto à porta de embarque, ainda faltava cerca de uma hora. A determinado momento, chega o senhor da gravata, olha para a máquina de vending onde as garrafas de água custam quase dois euros, e resmunga algo, de forma audível, mas ainda assim imperceptível.

Tudo o mais que eu possa acrescentar referente à viagem até São Tomé, são trivialidades e não há episódios de especial relevância que mereçam ser descritos, excepto que o senhor da gravata cor-de-rosa, resmungava sozinho e de forma imperceptível de cada vez que era servida uma refeição, ou café ou algum membro da tripulação lhe pedia para apertar o cinto. O abanar de cabeça de forma negativa enquanto olhava para a refeição, que diga-se de passagem, como qualquer refeição de avião, merece toda a reprovação que lhe possamos dedicar, não deixava de ser cómico. Escusado será dizer que o senhor resmungou quando o avião aterrou e enquanto aguardou pelas bagagens na passadeira. Era capaz de apostar um rim que neste preciso momento deve estar a resmungar com qualquer coisa.
Entre dormir, ir ao Passante, e ir às compras com a minha prima Ita ao Super CKDO ( vulgo Sé-cá-dó ), do resto do dia, de realce, só mesmo o final da noite.

O Pico Mocambo, é um bar, que há uns anos se chamava Chez Pierre ou Le Bar de Pierre. Fica numa antiga casa colonial, muito característica, que por imperdoável lapso meu nunca fotografei, e que parece que serviu de sede à PIDE até ao 25 de Abril. Para quem gosta de Gin, ou como eu, aprecia um bom rum, no Pico Mocambo tem uma boa variedade de rum de fabrico artesanal, santomense. A gravaninha é uma espécie de caipirinha, mas com rum, que pelas vezes que já fui ao Pico Mocambo, é a bebida que mais sai do bar. Ontem explorei o rum de maracujá, o rum banana-café e o rum de baunilha. Há também rum de pepino ou rum picante, entre outros. Ainda tenho mais dias pela ilha. Não tendo combinado nada com ninguém, apareceram pessoas que já conheço, e entretanto conheci outras pessoas. Saí de regresso a casa, que por sinal até é bem perto, com a cabeça mais leve e o sabor do rum na boca.
Em relação à noite, e a noites passadas de outras viagens a São Tomé, devo assinalar que não dei por galos ( que noutras ocasiões cantavam de hora em hora em despiques que ecoavam por várias partes da vizinhança ). Mas cães a ladrar não faltaram, embora a partir de certa hora já nem os ouvisse.

Em relação ao dia de hoje, tive um momento embaraçoso, que descrevo mais à frente. O meu primo Hamilton veio buscar-me para irmos dar um mergulho a Santana. Vesti os calções de banho, peguei na toalha e na mochila com a máquina fotográfica e as objectivas. Paramos no Hotel Pestana, e só aí percebi que o mergulho não era relativo a uma ida à praia, mas sim a fazer mergulho mesmo, daquele com fato e botija de oxigénio. Devo referir que na mesma proporcionalidade em que adoro ver filmagens e fotografias do fundo do mar, os meus níveis de stress aumentam só de pensar na disciplina de controle da respiração que o mergulho implica. Nunca fiz mergulho, e apesar de ter na família e em amigos algumas pessoas que fazem pesca submarina, nunca me deu para experimentar. De repente, estava ali numa situação em que o ia fazer. O meu pensamento de início foi: vamos a isso. Vestir o fato, levar as botas e as barbatanas para o barco e fazermo-nos ao mar. Esta actividade foi oferta de um amigo ganês, O Nii, que alugou a casa de praia do meu primo por uns dias. Lá fomos nós, eu, o meu primo Hamilton, o Nii, o instrutor de mergulho e o ajudante, rumo ao ilhéu Santana. O meu primo nunca tinha feito mergulho também, mas o Nii já é um mergulhador com experiência. Recebemos todas as instruções necessárias, e logo aí começou o meu desconforto. Bastou meter os óculos na cara, que tapam o nariz, para começar a sentir algum desconforto. Talvez seja psicológico, mas por muito que tentasse manter o controle, os níveis de ansiedade tinham uma opinião diferente. Não sei como, naquela queda que se faz de costas do barco para a água, o respirador soltou-se da minha boca e engoli uma boa porção de água salgada. O meu objectivo de vida, naquele momento, passou a ser apenas chegar à superfície e tirar a máscara. Estava completamente apavorado, e quando o instrutor disse que a botija de oxigénio do meu primo não estava boa, ofereci logo a minha. Estava safo!! Depois ainda nadei um pouco, mas não me estava a sentir bem, pelo que subi para o barco, e fiquei a recuperar. De facto, parece-me melhor ideia fazer primeiro numa piscina, com calma. Acredito que depois das primeiras vezes, o mergulho já seja feito de uma forma natural, mas para já parece-me algo que não é para mim.

Amanhã tenho umas voltas a dar pela cidade, e havendo algo de relevante, penso escrever mais umas coisas. É bem possível que depois só haja relato no próximo fim de semana, pois vou estar quatro dias na ilha do Príncipe, e tudo vai depender do acesso à internet. Sendo o Príncipe uma novidade para mim, posso desde já garantir que terei muito a escrever sobre tudo o que vou ver e experimentar. Até mais!!

História da volta à ilha de São Tomé a pé, Agosto de 1964

Homem a pescar à linha com vista para a cidade de São Tomé, perto do Hospital.

Participaram na volta à ilha o meu pai, Manuel Sebastião Correia, mais conhecido como Leão, o Elvido Viveiros, o já falecido Carlos Heitor, o Isaías, o Sebastião, que era conhecido como Jaca, e finalmente, o Esteves, a quem tratavam por Doutor, e que por ter conhecimentos de Enfermagem, ficou, entre outras coisas, encarregue de transportar o antídoto para a picada da cobra preta.

Eram todos rapazes dos seus dezassete, dezoito, dezanove anos na altura da aventura, e toda a viagem teve uma afincada preparação, que passou pela procura de patrocinadores até à recolha de comida enlatada e massas.

Ao segundo dia de viagem, nas Neves, decidiram fazer uma peladinha de futebol, e entreteram-se na jogatana durante um bom bocado. No final do jogo, alguns sentaram-se no chão, e outros, por ser mais confortável, usaram as mochilas para se sentarem. Continuaram viagem, e tal como agora, o pavimento termina em Santa Catarina. Ainda é uma boa extensão até Porto Alegre, no sul, em que se tem que atravessar mato, em plena floresta Obô por pequenas veredas. São três dias de caminhada, a subir e descer encostas junto ao mar, algumas bastante perigosas. Noutras partes é necessário embrenhar-se na selva, e o machim ( catana ) é um instrumento muito importante para ajudar a desbravar caminho. O grupo demorou cinco dias, pois vinha das Neves.

Pela forma como organizaram a viagem, pernoitavam em roças, telefonavam para a cidade, para o Rádio Clube, que informava na emissão sobre o local onde se encontrava o grupo, e qual a roça de destino no dia seguinte. O objectivo era anunciar a sua chegada ao final de cada dia, e também sossegar as famílias.

Depois de Santa Catarina, o admninistrador da Roça Bindá, o senhor Amaral, um fulano muito gordo e barrigudo, mandou um guia ao encontro do grupo. Eles iam já a meio caminho pelas veredas quando o guia os encontrou, e chegaram à Roça Bindá ao anoitecer, pois o guia andava muito depressa. Estavam exaustos devido à célere caminhada.

Dos seis do grupo, o meu pai, o Elvido e o Jaca eram brancos, e o Doutor, o Heitor e o Isaías eram de cor. O admninistrador manda chamá-los para os conhecer, e diz para o servente dirigindo-se aos brancos “Estes três senhores jantam comigo, os outros três rapazes comem na sala de jantar dos empregados”. Ficaram todos a olhar uns para os outros, e dizendo que o grupo são seis, recusaram a oferta para jantar. O Amaral ficou furioso, dizendo que quem manda na roça é ele, não tendo outra opção eles senão sair sem jantar.

Dirigiram-se às habitações que lhes haviam sido destinadas, e os respectivos quartos tinham sido preparados de forma diferente, um para os três brancos e outro para os três de cor. Acabaram por ficar os seis no mesmo quarto, e tiveram que fazer uso das suas provisões para se alimentarem.

A minha avó Bárbara, havia ensinado ao meu pai uma sopa de ervilhas. Que bela oportunidade para se armar perante os colegas. Vamos fazer sopa de ervilhas. Pediram uma panela na cozinha, e seguiram ao trabalho. O meu pai armado em cozinheiro, lá fez um refogado, como a minha avó ensinara, meteu as ervilhas, e quando chega a parte do arroz, o artista espeta com o saco de um kilo todo lá para dentro. Ah pois, o resultado seria de prever. A água desaparecia, e o arroz crescia. Metiam mais água, a mesma sumia, e o arroz crescia. Às tantas já saía arroz para fora da panela. Acabou tudo a gozar com os dotes culinários do meu pai, e aproveitaram o que se podia comer do arroz, juntando rodelas de chouriço e outras coisas.

No dia seguinte não viajaram, pois estavam ainda cansados e a recuperar da caminhada do dia anterior. Passearam pela roça e descansaram, voltando a comer no quarto. Com o nascer do sol do dia seguinte, saíram em direcção à roça de Porto Alegre, desta vez sem guia, pois por represália à recusa do jantar, o admninistrador Amaral não o disponibilizou.

Seguiram pelas veredas, até que foram parar a uma praia, em que se sentiram perdidos. Não havia vereda para sair. Já era tarde e pouco havia a fazer na altura. Montaram as tendas e por ali ficaram. Por sorte, o admninistrador Esteves, da roça de Porto Alegre, já havia mandado um guia ao seu encontro. Viram um rapaz a chegar pela praia, que lhes disse ter sido enviado pelo amninistrador da roça, e desmontaram as tendas. Não tinham visto o trilho em direcção ao sul, pois o mesmo encontrava-se um pouco rio acima. Tiveram que subir um pouco o rio, dentro de água, até que voltou a aparecer a vereda.

Chegaram a Porto Alegre, e estava feita toda a costa ocidental da ilha de São Tomé. Era também a parte mais perigosa, pois além de encontros com macacos e armadilhas do terreno, há também cobras, que são fatais.

O resto do caminho, até à cidade de São Tomé, já seria feito por estrada pavimentada. O Doutor, aliviado por tudo ter corrido bem, chamou-os a todos. “Tenho uma coisa para vos dizer”. Como havia dito no início, o Doutor era o “médico” de serviço, e o transportador do antídoto para a cobra preta. O que se tinha passado, foi que fizeram 5 dias de caminhada, selva dentro, sujeitos a serem mordidos, sem as âmpolas do antídoto. Após o jogo de futebol nas Neves, quando no final descansaram, o Doutor sentou-se na mochila por ser mais confortável e partiu as âmpolas. Não lhes disse nada, pois se o tivesse feito, nunca eles se teriam aventurado sem protecção contra as cobras. Ficaram todos exaltados e chateados com o Doutor, pois foi de uma grande irresponsabilidade, e podia tudo ter corrido para o torto. Felizmente que não, e agora o que restava da viagem já era mais simples.

Havia apenas um senão. Tinham fome, e já haviam acabado as provisões. E alguma coisa teriam que comer.

O grupo já tinha consumido praticamente todos os mantimentos. Discutiam o que haviam de fazer, apanhar fruta, pedir comida, qualquer coisa, quando avistam uma vara de porcos da roça de Porto Alegre. Era uma família inteira. Os grandes e os leitõezinhos atrás. Um leitão vinha mesmo a calhar. O Elvido tinha uma pistola do pai, e escondido, enquanto os restantes distraiam o guarda, lá disparou tendo atingido um alvo. Entretanto tiveram que esperar que o guarda fosse embora ao fim do dia, para não serem apanhados.

Quando finalmente isso aconteceu, lá foram buscar a sua presa, o seu leitãozinho que planearam assar numa fogueira. Bem, o que se passou, foi que o membro da família abatido, não foi nenhum leitão, mas foi o maior porco do grupo, enorme e gordo, um autêntico mastodonte.

E agora? Seis rapazes, por volta dos dezoito anos, com um porco quase do tamanho deles. Nenhum deles sabia arranjar um porco sequer, e mesmo transportar aquele monte de carne e banha não seria tarefa fácil.

Lá perceberam que a única saída daquela situação seria tentar apagar quaisquer provas do sucedido e zarpar. Com algum custo, carregaram o animal até à praia, cavaram uma cova bem funda, e meteram lá o porco. Taparam a cova, e ficaram descansados, ninguém iria dar por nada. Até que a maré começa a subir, e a pouco e pouco vai levando a areia. E não tardou muito que as quatro patas do porco, que havia sido enterrado de barriga para cima, já estivessem à vista.

Exaustos após tanto trabalho, sem comer, e já a noite ia bem dentro, a única solução seria estarem bem longe dali quando alguém desse com a carcaça do porco. Eram quatro da manhã, e fizeram-se à estrada. Na manhã seguinte, o admninstrador da roça de Porto Alegre, Esteves, andou à procura deles, furioso. Se os tem apanhado, nem se sabe o que teria feito. Entretanto foi à cidade apresentar queixa, e o meu avô Sebastião, o pai do Elvido e os pais dos restantes tiveram que pagar o porco para que as coisas acalmassem e o admninstrador Esteves ficasse descansado e não fizesse nenhuma represália para com o grupo, que por essa altura, caminha para norte no lado nascente da ilha, talvez por caminhos secundários para não serem apanhados.

As peripécias desta aventura não se ficam por aqui, e até chegarem à cidade, ainda haveriam de fazer mais das suas. A seguir.

Nas Ilhas do Meio do Mundo, dia 02 Fevereiro

Embondeiro e árvore de tamarindos na Praia da Lagoa Azul.

Levantei-me por volta das dez da manhã. Acordei bastante cedo até, deviam ser umas sete, mas voltei a adormecer entretanto. Vesti-me e esperei a minha tia. O Adilson já estava lá fora à espera. Entretanto foi levar a Ita ao Pirata, e também o Ricardo, o Jimmy e a Aline que estão cá a passar o dia hoje. Iam para a praia em frente ao Pirata.

Eu, a minha tia e o Adilson fomos fazer compras. Primeiro paramos no Intermar, na Pereira Duarte. Parece uma daquelas vendas do antigamente, apesar de já ter caixas computorizadas. O balcão dá a volta a quase toda a loja, e os produtos estão do lado de dentro do balcão. O empregado acompanha a compra do cliente do início ao fim, até ao pagamento. O sábado é um dia de compras, e havia algum movimento na loja.

Entretanto aproveitei e fui ao lado, ao Café & Companhia, que ao que me parece agora chama-se Xico’s Café. Já havia dito, mas repito, que foi até agora, o sítio onde bebi melhor café em São Tomé. Estar na rua na Pereira Duarte é sinónimo de aturar meninos de rua. Sempre a pedirem dinheiro, colados que nem carraças, e ainda por cima malcriados. O pior é que as mães é que os mandam pedir. Cada vez que vêem brancos, lá vão eles, como um enxame a rodear as pessoas.

Seguimos para o mercado velho, e fomos ao Pingo Doxi. O sistema é o mesmo que no Intermar, as coisas dentro do balcão e os empregados a servir o cliente do início até ao pagamento. Só que aqui não há caixas computorizadas, está lá o libanês que é um dos donos, com uma calculadora e um saco com dobras.

Às vezes o meu cérebro parece que para. A sério. Tenho com cada uma que me deixa receoso pela minha sanidade. São Tomé já tem um híper mercado. Chama-se Super CKdo, e até já lá tinha estado na semana passada com o Hamilton. É uma espécie de Pingo Doce. Já vi chamarem-lhe uma espécie de Lidl, mas acho que este consegue estar num patamar acima. Parece que é de capital gabonês. Até está bem organizado, deve ter uns oitocentos metros quadrados e o ar condicionado torna mais agradável estar lá dentro do que na rua. Bem, desde que cá estou, que tenho ouvido várias pessoas a falarem em ir ao “secador”. Com sotaque santomense, “sécadô”. Sempre pensei que fosse algum sítio ( aqui também há um supermercado chamado Colombo ). Foram precisas quase duas semanas para o meu cérebro fazer faísca e perceber que “sécadô” era “CKdo”. No comments.

O almoço era calulu. Como hei-de explicar o que é o calulu. Penso que a forma mais simples é tentarem imaginar um caril, mas com muito molho, com uma cor que anda entre o verde escuro e o amarelo. Leva muitas ervas, e pode ser de peixe ou de galinha, embora saiba que há zonas em São Tomé onde o fazem ( ou faziam ) com macaco. É acompanhado de fuba, que é uma espécie de papa de milho que fica quase sólida, e farinha de mandioca. Não gosto nem desgosto. Apenas acho complicado perceber os pedaços da galinha no meio do molho, e estou sempre a morder ossos.

Da parte da tarde tinha planeado ir à praia. Desta vez não seria a Lagoa Azul, mas sim Fernão Dias. Até é mais perto. E tem um enorme barco encalhado mesmo na praia, que deverá ser um excelente motivo para fotografar. Mas fazer planos em São Tomé nem sempre dá resultado, e entre a chuvada que de repente caiu após o almoço, e a saída para visitar as filhas do meu falecido tio Mindo, saímos de casa já um pouco tarde.

Encontrar a casa de alguém sem saber onde a mesma fica também não é pêra doce. Mas há sempre alguém que conhece alguém. Meti algumas t-shirts que trouxe de Portugal e a mochila com o material fotográfico na carrinha, e lá fomos para Manga Manga.

Seguimos na direcção do aeroporto, e ainda na marginal já podíamos ver a azáfama na zona de São Pedro, onde o meu tio Orlando tem o Paraíso dos Grelhados. Onde antes costumava estar isolado, agora há barracas por todo o lado, e duas discotecas improvisadas com chapas. Discoteca móvel Dj Cabelo na Área, pintado a spray amarelo, pude ler numas chapas. Gente por todo o lado. Viramos para a estrada que vai para o norte, ou seja, Guadalupe, depois Neves.

Manga Manga fica ainda na cidade, um pouco depois de se passar o quartel. Paramos para perguntar a algumas pessoas junto à estrada, mas ninguém parecia conhecer a dona Gina, que vive com um senhor mulato chamado António. Metemos mais para dentro e voltamos a perguntar. Um rapaz disse saber e pediu para o seguir. Quando se sai do pavimento e se entra na terra batida, mesmo com um todo o terreno, não é fácil, e é preciso ter alguma perícia na condução. Há partes em que ter estrada ou não ter, vai dar ao mesmo, os buracos e sulcos no chão são autênticas crateras ou vales, e com a chuvada que caiu, as poças de água e a lama, a viatura muitas vezes dá de lado, o que num caminho pouco mais largo que a viatura, pode dar azo a entrar para dentro do quintal de alguém. As casas aqui são todas de madeira e chapa de zinco. Colocadas sobre pilares, onde na parte de baixo as pessoas têm latrinas e os animais comuns, como cães, porcos, galinhas ou pombos. Entre as casas há fruteiras ( a árvore da fruta-pão ), bananeiras ou mangueiras. Outro dos problemas quando se entra para dentro destes caminhos, é que para voltar para trás, é um ver se te avias. Ou se segue em frente até descobrir uma saída, ou numa qualquer encruzilhada lá se consegue fazer inversão de marcha. Com algum cuidado, que com a lama, os constantes motoqueiros, animais ou pessoas a passar, e o pouco espaço, cheio de buracos e sulcos cada manobra é um desafio. Afinal a senhora que o rapaz dizia, não era a pessoa que procurávamos.

Voltamos para a estrada, e após perguntar a mais umas quantas pessoas, já estávamos a pensar desistir. Até que quando estávamos quase de novo na estrada de Guadalupe, a minha tia resolveu perguntar a um taxista que estava parado no cruzamento.

Não sabiam, mas ao passar um senhor, perguntaram, e finalmente se fez luz. O senhor entrou no carro e lá nos deu indicações. Subimos um pouco mais a estrada e lá entramos num caminho, daqueles que já descrevi anteriormente, onde de vez em quando quase se tem que parar, e devagarinho ir encostando os pneus às bordas dos buracos, para voltar a subir os sulcos. A senhora tinha acabado de sair. Estava o filho em casa, a quem o senhor que estava connosco pediu para pegar na mota e ir chamar a mãe. Foi buscar a chave e foi isso que fez.

Passados três ou quatro minutos estava de volta com a dona Gina. A dona Gina é mais uma das irmãs da minha mãe, já tem sessenta e quatro anos, e além dos seus filhos, está a tratar das filhas do meu falecido tio Mindo. A mãe das crianças abandonou-as, e é esta senhora que as está a criar. As meninas têm oito e dez anos, são a Gina e a Mila. O marido da dona Gina é o senhor António, que me disse ter andado na tropa com o meu pai e ter trabalhado na câmara para o meu avô. Agora está um pouco doente, tem uma hérnia discal, e nem sempre pode trabalhar.

Ficamos à conversa, entreguei as camisolas e umas bolachas para as meninas, e a minha tia Carmo e a tia Gina ficaram a falar sobre as peripécias da família, dos familiares que estão na europa, em Angola, no Gabão, nos terrenos mal vendidos pelo meu avô David ou pelos meus tios Mindo e Cristo. As asneiras de mais alguns familiares e as dificuldades e problemas criados para os outros que cá ficaram. Como interrompemos a viagem da tia Gina e das crianças para a cidade, para casa de uma outra familiar, oferecemos boleia. Despedimo-nos do senhor António e do filho, mais uma manobra para fazer inversão de marcha, e seguimos rumo à cidade.

Como a minha tia tinha compras a fazer no CKdo, fomos lá antes de seguir para o mercado para comprar pão. Ao passar pela festa de São Pedro, reparei que estavam a fazer uma representação do Auto de Floripes, ou a tragédia do Imperador Carlos Magno. É o Tchiloli, e espero no domingo ainda conseguir apanhar uma destas representações. É uma peça de teatro que dura horas e que é uma tradição santomense. As personagens são todas representadas por homens, e as vestimentas são muito castiças.

Entretanto atravessamos a cidade toda, e entregamos a tia Gina e as miúdas ao seu destino antes de voltarmos para casa. Já estava a começar a anoitecer. E dá para perceber que a Lagoa Azul ficou fora de plano.

Entretanto acabei por planear com o Hamilton o dia de amanhã. Vamos a ver se aproveito bem o domingo, não só para praia, como para fotografia. A correr bem será um dia intenso, e acordando cedo, a manhã será para a Lagoa Azul. É um lugar paradisíaco, onde tirei umas fotos no ano passado. Uma cratera de água límpida com um grande embondeiro. A minha GoPro também precisa de actividade, e está com a bateria carregada para fazer uns filmes sub-aquáticos. O fundo submarino na Lagoa Azul também é algo de fenomenal, pelo que conto fazer uns filmes e umas fotos dignos de registo. Depois de almoço, conto fazer a zona de Fernão Dias, e as fotos do barco com o Ilhéu das Cabras em plano de fundo. Depois é passar pela festa de São Pedro e ver se apanho o Tchilóli.

Eu já tenho juízo o suficiente para saber que não se fazem planos em São Tomé, mas também, que tenho a perder? Está tudo organizado, e a correr bem, será fantástico. Se não correr como planeado, é leve-leve, nada passa. Kidaleó.

Nas Ilhas do Meio do Mundo, dia 01 Fevereiro

Navio encalhado na Praia de Micoló.

Nem todos os dias tenho coisas interessantes para relatar, nem sempre visito lugares dignos de registo ou tenho relatos que valham a pena. O facto é que as minhas férias aproximam-se vertiginosamente do seu final, e ainda cá estou e já tenho saudades de São Tomé.

Apesar do sol nascer cedo, e com o calor ser difícil ficar a dormir até tarde, tenho acordado sempre um pouco tarde. Aproveitei o facto de já ser meio da manhã para tratar de algo que é inevitável, e não deixando para o último dia, fui à STP fazer a confirmação da reserva para o voo de terça feira. Check-in das quatro e meia às seis e meia da manhã. Pouco depois de almoço já estarei em Lisboa.

Mas cada coisa a seu tempo. Voltei para casa e esperei pelo almoço. Havia planeado com a minha tia Carmo um passeio à Lagoa Azul, um pouco de praia para a parte da tarde. Mas o Hamilton tem cá visitas da Guiné Equatorial, e não foi almoçar a casa, logo não deu para combinar para me deixar o carro. E de qualquer maneira choveu bastante na parte da tarde. O que não seria em si um impedimento para fazer praia. Até porque com esta temperatura, é até mesmo agradável fazer praia com chuva.

Dormi ao final da tarde, tomei banho e como o Hamilton me havia deixado a chave da carrinha, lá fui para O Pirata. Tinha decidido jantar lá. Há algum tempo que não comia um bife na pedra, e ia aproveitar para provar o do Pirata, acompanhado de banana frita e arroz. Entretanto o Hamilton chegou, e convidou-me a juntar-me a ele e aos amigos da Guiné Equatorial. Mandou vir uma garrafa de vinho, a que me coube a honra de provar e aprovar, não sendo eu um apreciador de vinho. Após o jantar, um crepe com gelado de baunilha e calda de chocolate.

Hoje é dia de Happy Hour no Pirata, e eu aproveitei para fazer umas fotos. À medida que o pessoal ia chegando e a casa se ia compondo, já ia dando para fazer umas fotos melhores. O problema da pouca luz e da movimentação das pessoas, é que além de ter que usar ISO elevado, não há hipótese senão recorrer ao flash. Não tendo um flash de jeito, e usando o que vem incorporado na máquina, tem as suas óbvias desvantagens. A pior das quais, quando uso a Sigma 10-20 que o Fernando Quintino Estevão me emprestou, é que a objectiva faz sombra devido ao ângulo que o flash dispara. Resultado, uma mancha redonda na parte de baixo das fotografias.

Bem, temos que viver com o que temos. Entretanto, a casa já estava cheia, e já eu tinha quase umas cem fotografias, entre pessoas que desviavam a cara quando viam a objectiva, ou outras que mostravam cara de poucos amigos, já tinha material suficiente, e resolvi ficar pelo que já tinha. Discotecas não são bem o meu ambiente, e mesmo sendo O Pirata um espaço ao ar livre, eu estava um pouco como peixe fora de água.

As mulheres santomenses são mesmo muito bonitas, mas a ideia com que fiquei, e que já me tinha vindo da semana anterior, é que nesta festa o balanço deveria estar algo como uma mulher por cada seis ou sete manos. Não sendo bem a festa da mangueira, também não anda muito longe. Ao sair, reparei que estava muita gente para entrar, e alguma confusão com carros estacionados na estrada quase até ao Hotel Pestana.

Tentei dormir cedo, mas a ideia que tenho é que deveriam ser umas três da manhã a última vez que olhei as horas no telemóvel e ainda não tinha adormecido. Estar um galo a cantar desde a meia noite e meia, e os cães a ladrar, também não foi ajuda, e esta noite até um gato resolveu miar até à exaustão num qualquer quintal vizinho.

Ah, e descobri uma coisa que me irrita mais ainda do que uma picada de mosquito nos pés. Picadas ( sim, no plural ) de mosquito nos dedos das mãos são do pior que pode acontecer a alguém.

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